Dança em luto

Publicação: 2011-04-26 00:00:00
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Yuno Silva - repórter

A dança natalense nunca mais foi a mesma depois que o ator, bailarino e professor Roosevelt Pimenta assumiu, em 1974, as rédeas da recém-criada Escola Municipal de Balé. Responsável por forjar toda uma geração de profissionais da dança, Roosevelt não resistiu às sucessivas complicações de saúde e faleceu na madrugada desta última sexta-feira (22), precisamente às 3h45, em um leito do hospital da Unimed, onde permanecia internado, em coma, desde o dia 27 de março após sofrer um AVC (acidente vascular cerebral). Tinha 65 anos.

Os clássicos faziam parte de sua preferência nas coreografiasO enterro ocorreu na tarde da própria sexta, às 17h, no Cemitério Morada da Paz, e a Missa de 7º Dia está marcada para esta próxima quinta-feira (28), às 18h, na Catedral Metropolitana – ‘por acaso’, um dia antes das comemorações do Dia Internacional da Dança.

“Roosevelt Pimenta foi um mestre na arte da dança, ele ampliou nossos horizontes”, disse Fátima Sena, ex-aluna de Roosevelt, professora e atual coordenadora do Núcleo de Dança da Fundação Cultural Capitania das Artes. Ela também responde pela direção da Escola Municipal de Balé Professor Roosevelt Pimenta, que funciona na sede da Funcarte. O nome da escola foi uma forma de homenagear seu fundador, quando da passagem dos 30 anos de criação. “Foi uma das pessoas mais sensíveis que conheci, e devo 90% de tudo que sei a ele”, orgulha-se Fátima Sena.

De acordo com Sena, Roosevelt não se preocupava apenas com o movimento, “estava sempre atento a tudo que abraçava a dança, desde a coreografia até o cenário. Era uma pessoa muito questionadora, curiosa e inteligente”, afirma a professora, que começou a ter aulas com Pimenta aos 15 anos. “Deixa um legado importante para a dança natalense, pois boa parte dos grandes diretores e professores em atividade em Natal tiveram ele como mestre”, garante.

Primeiros passos

A opinião de Fátima Sena é compartilhada por Anízia Marques, também professora da Escola Municipal de Balé e ex-aluna de Roosevelt Pimenta. “Foi meu mestre, dei meus primeiros passos com ele”, lembra. “A princípio tinha medo de sua rigidez, mas logo percebi que tudo era questão de disciplina, e esse entendimento trago comigo até hoje. Tive a grata oportunidade de conhecer a pessoa boa e inteligente que era”.

Anízia Marques disse que foi uma das primeiras alunas a se tornar sua assistente: “Ele abriu muitas portas, sempre me ofereceu desafios como desenvolver coreografia ou ser sua assistente. Recebi muita confiança de sua parte”, comemora. “Enquanto professor, tinha um ciúme muito grande dos seus alunos, principalmente quando estávamos tendo aulas com outras pessoas. Entendo isso como forma dele demonstrar o tanto que gostava da gente”, aposta.

Segundo Anízia, mesmo depois de anos, já atuando como profissional, sempre teve o professor Roosevelt Pimenta como mestre: “Fiz muitos cursos fora do Estado, mas sempre o tive como meu porto seguro”, aponta. “Tudo começou com ele e terei sempre um carinho especial. Afinal foram 37 anos de convivência”, conta a ex-aluna e amiga pessoal. “Era conhecido por dar aulas puxadas, que agradavam até o mais experiente bailarino”, completa.

Anízia divide essa experiência junto ao mestre com a prima Maria Cardoso: as duas foram as primeiras alunas matriculadas na Escola Municipal de Balé, em 1974. “No começo, as aulas eram ministradas em uma sala do Palácio dos Esportes. Depois fomos para a antiga galeria de arte que funcionava na Praça André de Albuquerque (hoje demolida), tivemos aula em um prédio da rua Mossoró e chegamos a ter aula ali próximo à Ladeira do Sol”, lembra Maria Cardoso, professora de dança e proprietária, desde 2008, de uma escola que leva seu nome. “Foi Roosevelt Pimenta que formou a primeira leva de professores de dança da cidade”.

Maria Cardoso contou que, na época, seu pai não aprovava ter um professor de dança: “Felizmente ele foi até a escola e viu a seriedade do trabalho, passou a ser um admirador de Roosevelt também”, recorda a primeira aluna bolsista da Escola. “O balé de Natal está de luto”, lamenta. “Antes de Roosevelt assumir a direção da Escola Municipal de Balé, ninguém conhecia dança moderna, contemporânea. Ele abriu o leque da dança natalense”, finaliza.

Professor abriu possibilidades

O leque da dança natalense aberto pelo professor Roosevelt Pimenta foi o gancho que Wanie Rose usou como referência na dança contemporânea produzida em Natal. Ex-aluna de Pimenta, começou na Escola Municipal de balé aos nove anos e até hoje está envolvida com dança: “Ele (Roosevelt) participou dos grandes momentos da minha vida. Foi através dele que decidi o que seria no futuro. Aprendi a dar aulas observando seu trabalho”, disse a professora da Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão-Edtam. “Apesar de seguir uma linha mais clássica da dança, foi quem começou a inserir elementos da dança contemporânea, moderna, do jazz”, lembra Rose.

Na opinião de Anízia Marques, Fátima Sena, Maria Cardoso e Wanie Rose, todas ex-alunas de Pimenta e professoras de dança em Natal, “Roosevelt sabia toda a história da dança, sempre foi muito bem informado. Inteligente e bem articulado. Era ótimo conversar com ele”, disseram.

Além de professores e professoras de dança, Roosevelt Pimenta também formou bailarinos profissionais que hoje brilham em palcos europeus, norte-americanos e em outros Estados do Brasil. Passaram por suas aulas a bailarina Clarissa Rêgo, integrante da Companhia de Dança Lia Rodrigues, no Rio de Janeiro; e o bailarino Mariano Neto, que atua no Rio Grande do Sul. Andrea Barros e Carla Amaral foram dançar em Portugal; e Sebastian Félix está na Alemanha; enquanto Larissa Figueiredo, sobrinha do saudoso ator e diretor Jesiel Fiqueiredo, um dos primeiros parceiros de Roosevelt nos palcos natalenses, está nos Estados Unidos.

“Roosevelt Pimenta sempre foi muito querido por todos, inclusive fora do RN. No próximo mês de setembro, seu nome será homenageado durante o Festival Pernambuco em Dança”, adiantou Wanie Rose.

Reconhecimento

Nome conhecido e reconhecido dentro do circuito da dança potiguar e nordestina, Roosevelt Pimenta começou sua carreira como ator, ao lado de outros dois expoentes das artes cênicas natalense: Sandoval Wanderley e Jesiel Figueiredo.

Em 1965, já como profissional, embarca rumo ao Recife para ser assistente de direção do espetáculo “A Corda”, do pernambucano Clênio Wanderley. Por lá, fez teste para a TV Jornal do Comércio e foi aprovado como primeiro bailarino. No mesmo ano, tornou-se bailarino solista do Grupo de Danças Clássicas Flávia Barros. Ainda no Recife, trabalhou em circo e em teatro de revista, até se mudar para São Luís do Maranhão, onde atuou na Academia Maranhense de Balé. Após três anos em São Luís, foi convidado para fazer parte do Balé do Estado de São Paulo.

Em 1974, de férias em Natal, foi ‘convocado’ por Jesiel Figueiredo, por Jobel Costa e por Olindina Gomes, então Secretária de Educação e Cultura, para fundar o Balé Municipal de Natal, do qual foi diretor até dezembro de 2008. Antes, em 2004, durante comemoração alusiva aos 30 anos de criação do Balé Municipal, recebe justa homenagem por sua dedicação à instituição, que passa a se chamar Escola Municipal de Balé Professor Roosevelt Pimenta.

“Roosevelt dizia que tinha tudo para não ser, mais foi bailarino. O tamanho, o peso, não combinavam à delicadeza necessária ao bailarino clássico. O biotipo poderia sugerir mil e uma profissões, mais nunca a de um bailarino”, escreveu a professora Isaura Rosado, secretária Extraordinária de Cultura do RN, em nota de pesar.

De acordo com Isaura Rosado, apesar da dança natalense também ter sido marcada pela presença das professoras Olga Hipólito (nos anos 1950), Noêmia Ferraz (1965) e Ieda Emerenciano, “foi Roosevelt quem formou gerações e gerações de bailarinos. Fez, sem sombra de dúvidas, ‘escola’. Roosevelt esta na raiz do ensino e da multiplicação das escolas de balé na capital. Despertou o interesse pela profissão, levou legiões de amigos, pais, avós, ao teatro”, afirmou.

Para ilustrar essa geração formada por Roosevelt, podemos destacar Anízia Marques e Fátima Sena (professoras do Balé Municipal), Ana Thereza Miranda e Maria Cardoso (professoras e proprietárias, respectivamente, das escolas de dança Studio Corpo de Baile e Escola de Balé Maria Cardoso), Wanie Rose (da EDTAM), Larissa Marques e Karerine Porpino (professoras da UFRN).

“Nesta hora de saudade, temos o orgulho de poder dizer que com Roosevelt convivemos e a ele, agora, prestamos as nossas merecidas homenagens,  reconhecendo-lhe a importância do longo e profícuo trabalho como pioneiro  no ensino do balé clássico no RN”, finaliza Isaura Rosado.

Também membro do Conselho Municipal de Cultura, Roosevelt Pimenta “nos deixou um belíssimo exemplo de dedicação ao trabalho e um profundo e abalizado apego à prática da arte-cultura”, escreveu Rafael Correia de Oliveira, secretário executivo do Conselho, em nota oficial de pesar. Ainda segundo a nota do Conselho “ele (Roosevelt) não conseguia afastar-se do alcoolismo. O que agravou seu estado de saúde”.