Danilo Miranda: ''A cultura tem uma função transversal''

Publicação: 2019-05-15 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Mariana Ceci
Repórter

Criado nos anos 1940, após a 2ª Guerra Mundial, o Serviço Social do Comércio (Sesc), teve sua primeira unidade sediada no Rio de Janeiro. De lá para cá, foram mais de 500 unidades fixas e móveis inauguradas, oferecendo serviços que passam pelas áreas de cultura, educação, assistência e saúde. As unidades de São Paulo, em particular, ganham destaque nacional na área cultural: não faltam shows, exposições, exibições de filme e debates na programação. O Estado, desde 1984, tem o Serviço sob direção do gestor cultural Danilo Miranda, que esteve de passagem por Natal para participar da 37ª edição do seminário Motores do Desenvolvimento. A TRIBUNA DO NORTE conversou com Danilo sobre o papel da gestão pública na cultura e a atual situação do País para aqueles que produzem e trabalham na área. Confira a entrevista:

Danilo Miranda, Diretor regional do Sesc São Paulo
Danilo Miranda, Diretor regional do Sesc São Paulo


A cultura é uma área que ainda é deixada em segundo plano na gestão pública, em especial nos momentos de crise. Quais são as alternativas para mudar esse cenário?
A cultura tem uma função transversal. Através da cultura você atinge muitos outros campos da atuação: você fala de saúde, educação, justiça, segurança, fala de economia. A cultura tem essa força extraordinária de preparar as pessoas, encantá-las e provocar as questões graves que as interessa. Ela diz respeito à autoestima e valorização do ser humano. Esses espaços de debate com os gestores e as pessoas que fazem políticas públicas são fundamentais, porque a cultura trata de pertencimento, envolvimento com a comunidade. Ela tem a ver com o todo da sociedade, e não apenas com um interesse particular ou individual, ou seja, ela tem um caráter coletivo muito forte. O caminho para os gestores perceberem essa importância é através dos debates, das discussões. É uma tentativa permanente do convencimento sobre a importância da cultura e da transformação desse reconhecimento em atos práticos por parte desses gestores.

A cultura vem perdendo espaço nas políticas públicas brasileiras, primeiro com a extinção do Ministério da Cultura, mas também com outras medidas que vem sendo anunciadas de reformulação das legislações de incentivo e fomento para a área. Quais são os impactos que podemos esperar dessas medidas para a produção cultural brasileira, em especial no Norte e Nordeste, que historicamente ficam de fora desse eixo onde se concentram os recursos econômicos?
Em relação a isso eu acho o seguinte: a reação das pessoas frente a essas atitudes tem causado alguns retornos e mudanças. A alteração da Lei Rouanet, por exemplo, foi seriamente modificada de seu projeto inicial porque as pessoas reagiram, porque quando você mexe em algo como esse, mexe com emprego, com a possibilidade real das pessoas de realizar um trabalho cultural significativo. Tenho visto várias atitudes por parte do atual Governo no sentido de anunciar uma medida e retornar quando percebe a reação das pessoas, sobretudo quando são reações baseadas na convicção, que têm justificativas sólidas. Na cultura está acontecendo isso, e a Lei Rouanet já é uma prova. É claro que a Lei Rouanet precisa ser aperfeiçoada, e se isso acontecer vai ser muito bom, mas eliminá-la? Cortá-la definitivamente ou torná-la incapaz de atender seus objetivos? Isso está vetado, não pode acontecer, e as pessoas vêm reagindo. Para mim, isso é válido não apenas para a Lei Rouanet, mas também para os cortes nas universidades, para os cortes do Sistema S, tudo. Isso acontece porque essas são ações que têm relação com o interesse público, e não podemos mexer com algo que contribui diretamente à sociedade.

Além dos debates relativos aos cortes de recursos em algumas áreas como cultura e educação, também está em voga um debate ideológico proposto pelo atual Governo. Em termos de produção cultural, você acredita que uma guerra ideológica pode trazer a volta da censura?
Esse é mais um elemento que, se se concretizar, será objeto de reação da população. Essa fala sobre  sobre ideologia de fato existe dentro do Governo, e ela nem sempre é bem fundamentada, porque não se faz sequer o uso correto da palavra “ideológico”. Você apontar uma coisa equivocada em relação a raça, gênero, posições políticas etc., isso não necessariamente quer dizer que seja uma coisa ideológica. É claro que tem determinadas posições políticas que são mais afinadas com alguns pontos de vista, mas isso não é suficiente para você eliminar o interesse público, pois ele deve prevalecer. O interesse público diz respeito à maioria das pessoas. Então, antes de pensarmos no caráter ideológico, temos que pensar no caráter democrático, na valorização da pessoa, do respeito, porque tudo isso é a base para o interesse público. Novamente, acredito que se isso chegar às últimas consequências, a reação virá, como tem vindo com a maior naturalidade. Essa reação poderá ser ampliada, desenvolvida, e até mesmo causar algum tipo de movimento mais forte no País inteiro.

O Sesc São Paulo é uma referência nacional em termos de atividade cultural. É possível replicar essa técnica para estados de menor porte, como é o caso do Rio Grande do Norte?
Isso depende muito de cada Estado, dos recursos, dirigentes e pessoas que imaginam a importância daquela atividade que está sendo desenvolvida. Além disso, há um outro fator, que são as possibilidades reais de fazer a coisa acontecer. Não podemos esperar que todos façam tudo. Mas a ideia é que, aos poucos, a gente vá ganhando energia e força para fazer aquilo que se faz em São Paulo no país inteiro, eu gostaria muito. Nós temos uma administração muito independente em cada estado, mas sem dúvida nenhuma o fato de terem me convidado para cá, para o Rio Grande do Norte, demonstra o desejo em construir algo que tenha alguma inspiração no trabalho que estamos fazendo lá em São Paulo.







continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários