Danilo Miranda: “Pela cultura, se atinge muitos outros campos”

Publicação: 2019-05-19 00:00:00
Operacionalizar uma programação cultural que contemple estilos diversos para um público cada vez mais heterogêneo, oferecendo além do lazer, a formação educacional, é uma das missões do Sesc em todo o Brasil. Em São Paulo, onde funciona a maior rede do País, o Sesc se tornou referência por conseguir organizar um complexo cronograma de eventos que agradam os mais exigentes perfis de públicos. 

Créditos: Aléx RégisDanilo Miranda afirma que, através da cultura, se atinge muitos outros campos da atuação: você fala de saúde, educação, justiça, segurança, fala de economia. Ele atua no Sesc há 50 anos e, desde 1984, na direção culturalDanilo Miranda afirma que, através da cultura, se atinge muitos outros campos da atuação: você fala de saúde, educação, justiça, segurança, fala de economia. Ele atua no Sesc há 50 anos e, desde 1984, na direção cultural
Danilo Miranda afirma que, através da cultura, se atinge muitos outros campos da atuação: "você fala de saúde, educação, justiça, segurança, fala de economia". Ele atua no Sesc há 50 anos e, desde 1984, na direção cultural

Criado nos anos 1940, após a 2ª Guerra Mundial, o Serviço Social do Comércio (Sesc), teve sua primeira unidade sediada no Rio de Janeiro. De lá para cá, foram mais de 500 unidades fixas e móveis inauguradas, oferecendo serviços que passam pelas áreas de cultura, educação, assistência e saúde. Além da missão cultural, o Sesc é responsável pela formação de artistas – nas mais distintas áreas: musical, teatral, de produção – e mantém 250 escolas em todo o Brasil, mantidas com recursos previstos por parte das empresas privadas.

Atuando no Sesc há 50 anos, e desde 1984 na direção cultural, Danilo Miranda esteve em Natal para participar da 37ª edição do seminário Motores do Desenvolvimento. A TRIBUNA DO NORTE conversou com Danilo sobre o papel da gestão pública na cultura e a atual situação do País para aqueles que produzem e trabalham na área.  Ele contou um pouco da experiência adquirida ao longo de tanto tempo e deu dicas de como o exemplo positivo do Sesc São Paulo pode ser replicado para outras unidades no Brasil. 

O Sesc forma cidadãos no sentido mais amplo, não oferecendo somente cultura, mas também educação e alimentação em muitos casos. Como isso é possível?
Temos que considerar integralmente a pessoa, todos os aspectos que envolvem o ser humano. Nós temos essa experiência institucional muito forte, da convivência, da possibilidade de você ser convidado a se envolver em vários aspectos da sua vida e daquilo que talvez possa trazer o bem estar e a chamada qualidade de vida. Uma pessoa que gosta de esportes e entra numa unidade nossa, se sente convidado a fazer outra coisa, a se envolver com uma exposição, com uma reflexão que está sendo discutida sobre a questão ambiental, sobre uma peça de teatro que aborde aspectos que ele viveu e nem se dá conta disso. Entender esse complexo todo é um processo de equipe, de muito tempo. Temos uma liberdade de atuação e seguimos um pensamento de atuação nacional, mas sem querer bancar a locomotiva de orgulho paulistano. Muitos colegas do País inteiro refletem, nos visitam e fazemos um intercâmbio.  

O Sesc São Paulo é uma referência nacional em termos de atividade cultural. É possível replicar essa técnica para estados de menor porte, como é o caso do Rio Grande do Norte? 
Isso depende muito de cada Estado, dos recursos, dirigentes e pessoas que imaginam a importância daquela atividade que está sendo desenvolvida. Além disso, há um outro fator, que são as possibilidades reais de fazer a coisa acontecer. Não podemos esperar que todos façam tudo. Mas a ideia é que, aos poucos, a gente vá ganhando energia e força para fazer aquilo que se faz em São Paulo no País inteiro, eu gostaria muito. Nós temos uma administração muito independente em cada Estado, mas sem dúvida nenhuma o fato de terem me convidado para cá, para o Rio Grande do Norte, demonstra o desejo em construir algo que tenha alguma inspiração no trabalho que estamos fazendo lá em São Paulo.

A cultura é uma área que ainda é deixada em segundo plano na gestão pública, em especial nos momentos de crise. Quais são as alternativas para mudar esse cenário? 
A cultura tem uma função transversal. Pela cultura, se atinge muitos outros campos da atuação: você fala de saúde, educação, justiça, segurança, fala de economia. A cultura tem essa força extraordinária de preparar as pessoas, encantá-las e provocar as questões graves que as interessa. Ela diz respeito à autoestima e valorização do ser humano. Esses espaços de debate com os gestores e as pessoas que fazem políticas públicas são fundamentais, porque a cultura trata de pertencimento, de envolvimento com a comunidade. Ela tem a ver com o todo da sociedade, e não apenas com um interesse particular ou individual, ou seja, ela tem um caráter coletivo muito forte. O caminho para os gestores perceberem essa importância é através dos debates, das discussões. É uma tentativa permanente do convencimento sobre a importância da cultura e da transformação desse reconhecimento em atos práticos por parte desses gestores. 

A cultura vem perdendo espaço nas políticas públicas brasileiras, primeiro com a extinção do Ministério da Cultura, mas também com outras medidas que vem sendo anunciadas de reformulação das legislações de incentivo e fomento para a área. Quais são os impactos que podemos esperar dessas medidas para a produção cultural brasileira, em especial no Norte e Nordeste, que historicamente ficam de fora desse eixo onde se concentram os recursos econômicos? 
Em relação a isso eu acho o seguinte: a reação das pessoas frente a essas atitudes tem causado alguns retornos e mudanças. A alteração da Lei Rouanet por exemplo, foi seriamente modificada de seu projeto inicial porque as pessoas reagiram, porque quando você mexe em algo como esse, mexe com emprego, com a possibilidade real das pessoas de realizar um trabalho cultural significativo. Tenho visto várias atitudes por parte do atual governo no sentido de anunciar uma medida e retornar quando percebe a reação das pessoas, sobretudo quando são reações baseadas na convicção, que têm justificativas sólidas. Na cultura está acontecendo isso, e a Lei Rouanet já é uma prova. É claro que a Lei Rouanet precisa ser aperfeiçoada e, se isso acontecer, vai ser muito bom, mas eliminá-la? Cortá-la definitivamente ou torná-la incapaz de atender seus objetivos? Isso está vetado, não pode acontecer, e as pessoas vêm reagindo. Para mim, isso é válido não apenas para a Lei Rouanet, mas também para os cortes nas universidades, para os cortes do Sistema S, tudo. Isso acontece porque essas são ações que têm relação com o interesse público, e não podemos mexer com algo que contribui diretamente à sociedade. 

Além dos debates relativos aos cortes de recursos em algumas áreas como cultura e educação, também está em voga um debate ideológico proposto pelo governo atual. Em termos de produção cultural, você acredita que uma guerra ideológica pode trazer a volta da censura? 
Esse é mais um elemento que, se se concretizar, será objeto de reação da população. Essa fala sobre ideologia de fato existe dentro do governo e ela nem sempre é bem fundamentada porque não se faz sequer o uso correto da palavra “ideológico”. Você apontar uma coisa equivocada em relação a raça, gênero, posições políticas etc., isso não necessariamente quer dizer que seja uma coisa ideológica. É claro que tem determinadas posições políticas que são mais afinadas com alguns pontos de vista, mas isso não é suficiente para você eliminar o interesse público, pois ele deve prevalecer. O interesse público diz respeito à maioria das pessoas. Então, antes de pensarmos no caráter ideológico, temos que pensar no caráter democrático, na valorização da pessoa, do respeito, porque tudo isso é a base para o interesse público. Novamente, acredito que se isso chegar às últimas consequências, a reação virá, como tem vindo com a maior naturalidade. Essa reação poderá ser ampliada, desenvolvida e, até mesmo, causar algum tipo de movimento mais forte no País inteiro. 

Como o senhor avalia as ameaças feitas ao Sistema S, de corte de recursos, pelo Ministério da Economia? 
As ameaças de cortes ao Sistema vêm, principalmente, daqueles que não conhecem o trabalho que realizamos e o impacto dele na transformação da vida das pessoas. É importante destacar que o SESC não faz um patrocínio. Quando uma empresa patrocina algo, ela está retirando um pouco de seu resultado e devolvendo para que se faça algo em prol da sociedade. Nós do SESC não fazemos patrocínio nesse sentido. Nossa maneira de atuar é bastante integrada e segue os princípios que estão dentro dos objetivos e da missão da instituição.







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