Das castas

Publicação: 2019-11-13 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

coluna

É fácil constatar, até nas chamadas plataformas digitais - Google, Whatsapp e que tais: o mundo viveu os maiores absurdos com as castas. Dos grupos de animais reunidos por tipos de famílias biológicas, passamos aos indivíduos hoje agrupados por direitos e privilégios que o próprio homem inventou. Se antes recebiam pela hereditariedade das monarquias, agora são constituídas pelo jogo dos privilégios nascidos de direitos conquistados por pura invenção.

Também não é difícil constatar que o Brasil, nas últimas três décadas, principalmente pelas distorções oriundas da Constituição de 1988, que de poderes passamos a superpoderes que legislam privilégios em causa própria. E não é preciso nem buscar exemplos distantes do mundo provinciano. Se a vida é um assunto local, como queria Charles Chaplin, basta olhar a nossa vida comum para constatar que já estamos irremediavelmente divididos em castas.

Houve um tempo em que a sociedade republicana, longe e aqui mesmo, se organizava socialmente em classes e se estratificava em categorias sociais. A divisão se fazia em classes alta, média e baixa ou, pela diluição das pesquisas, de A a E, ai distribuídas por seus níveis de receita familiar. E dentro das classes, por categorias profissionais - médicos, engenheiros, advogados e professores, por exemplo - mas sem abismos de diferenças no serviço público.

A Constituição de 1988, e até aí sem espanto, reforçou os três poderes republicanos - Executivo, Legislativo e Judiciário - mas permitiu que o corporativismo impusesse poderes paralelos na área jurídica, principalmente, que inventaram privilégios como se fossem direitos decorrentes. E juntaram-se como se fizessem parte do Poder Judiciário como um todo numa blindagem que acabou transformado em casta, sem limite e sem um controle externo de fato.

O Legislativo, por temor ou boa convivência, passou a abrigar na forma de leis todos os privilégios criados pelo Judiciário, garantindo assim, por consequência, os mesmos e doces privilégios, ainda que não sejam, e não são, poderes arrecadadores. Ao Executivo restou a vil tarefa de cobrador de impostos - antes era papel da monarquia - ficando os reis, no caso, o Legislativo e o Judiciário, como os privilegiados da máquina tributarista e sem sofrer ônus.

Não há mais como - a não ser com uma revolução de costumes - repor nos trilhos um país dilacerado por privilégios que se acentuam a cada dia. Dai ser possível o Legislativo aprovar 16,38% de aumento para si mesmo e para os outras da casta, diante de uma sociedade na qual há categorias que não merecem a atualização inflacionária dos seus salários há mais de dez anos. Como aconteceu aqui na semana que passou. Como se tudo fosse muito normal.

TIRO - Vem de espingarda certeira: “PCdoB em Pendências é uma mistureba indigesta de Democratas, Tucanos, Pemedebistas e outros mais. O oportunismo dominou o comunismo”.

IMORTAL - O teatrólogo Racine Santos e o genealogista Ormuz Simonetti disputam a vaga do advogado e memorialista Eider Furtado na Academia. É o discreto charme da imortalidade.

LONGE - A professora Isaura Rosado, cansada de enfrentar Lampião todo dia, em Mossoró, tomou um moderno aeroplano em Fortaleza e voou alto até Berlim. Sem dizer quando volta.

RETRATO - O Brasil alcançou dois patamares que retratam seu rosto: chegamos a 800 mil presos e já temos 2,5 milhões de brasileiros com curso superior exercendo trabalho precário.

TOMBO - O historiador Manoel Neto, autor de um livro que segue a trilha em busca de saber se a esquadra de Pedro Álvares Cabral aportou em Touros, voltou à Torre do Tombo, Lisboa.

PESQUISA - Manoel vai checar uma série de informações em documentos coloniais e vai aproveitar para acompanhar as homenagens que Portugal presta ao poeta Fernando Pessoa.

BILHETE – Ao leitor Jesaías, microbiologista: Se existisse microscópio capaz de enxergar os bichos da alma, você, pela lhaneza, saberia enfrentá-los. O cronista, comovido, agradece.

OLHO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, provocado por seu silêncio em torno dos R$ 16% de aumento para os poderosos: “As castas, meu querido, não são castiças”.

FEIO - O que o Ministério Público Federal teria a dizer depois de expor de forma brutal a imagem do ex-reitor Ivonildo Rego e seis cidadãos, todos inocentados pela Justiça Federal? É justo uma só instituição suspeitar, investigar, acusar e divulgar e tudo ficar por isso mesmo?

ESTILO - Perfeito - se para alguns o texto é uma arquitetura de fatos, ritmos e metáforas – o editorial do Agora sobre os tropeços do general Luiz Eduardo Ramos na sua visita a Natal. Se é possível identificar o estilo, tem a marca do talento de Marcelo Hollanda. Fica o registro.

ÁGUIA - A prisão de quase seiscentos dias não reduziu o olhar de águia de Lula. Ao deixar a PF de Curitiba, plantou um apelo certeiro para quem maneja a palavra e sabe que sobreviverá se for o avesso de Jair Bolsonaro: “Não prenderam o homem, eles tentaram matar uma idéia”.





continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários