Das recorrências

Publicação: 2021-04-08 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Outro dia usei aqui, numa adaptação intencional, uma frase muito conhecida, de Eça de Queiroz, quando se refere a ele mesmo como ‘um pobre homem de Póvoa de Varzim’, vila antiga onde nasceu. É fácil: declarei ser um pobre homem de Macau, reconhecendo minha insignificância diante do ego reluzente dos doutos que formam plêiades, principalmente a dos intelectuais. Venho de muito longe e não trouxe, como os Reis Magos, ouro, incenso e mirra.

Ora, foi o bastante. Um intelectual empedernido sacou do coldre a sua ironia sabichona e acusou de plágio. Sequer concedeu a este cronista o benefício das recorrências tão comuns nas licenças literárias, principalmente as intencionais. Ao sentir nos ouvidos sua espetada, a memória foi rápida e logo procurou o verso clássico do grande poeta Manuel Bandeira no seu poema célebre - ‘Consoada’, que diz bem assim: “Quando a indesejada das gentes chegar”.

A expressão seria mais uma figura da linguagem popular conhecida antes do poema de Bandeira, publicado no livro ‘Libertinagem’, 1930. É título de um conto de Machado de Assis: ‘A Indesejada das gentes’. Não teria o velho Bandeira, o ainda tão jovem e tão triste poeta do Recife, recortado do conto do bruxo do Cosme Velho? E se tirou ou não tirou, em que altera a genialidade de um e outro, quanto mais de um pobre homem da Rua da Frente? 

Ora, Senhor Redator, não sejamos cretinos. Há ensaios e ensaios sobre as expressões eruditas, retiradas dos livros, e populares, pescadas nos falares da oralidade popular. A língua do povo - “a língua certa do povo”, como adverte o próprio Bandeira - hoje tem a força que justifica o conceito de um português brasileiro. Com um jeito nosso, nascido da nossa maneira de ser e de falar, ainda que nem sempre com gírias ou dialetos, apenas a fala comum e boa.

Depois, é natural que o povo na sua linguagem criativa invente palavras que tenham, de alguma forma, uma função metafórica para esconder, quando é o caso, a aspereza da expressão morte. Daí soluções como “entregar a alma a Deus”, “passar desta para outra vida”, ou, ainda, tocado do jocoso e do galhofeiro, como “esticar a perna”, “bater a biela”, “bater as botas” ou os “costados’, feito barco à deriva nas águas que levam à morte contra os rochedos.

Quem sabe, na origem remota, essa figura de linguagem, adorno de crônicas, contos, poemas ou romance, já existe como uso corrente bem antes do estilo queroziano, para usar a expressão que agrada aos estudiosos de Eça de Queiroz. Por mais que sejamos incomparáveis - as pessoas comuns com os grandes escritores - há sempre uma tinta a tingir certas palavras com os vernizes de velhas e inesquecíveis sensações. Ora, a própria vida também é assim...  

MELHOR - Tem razão o ministro Fábio Faria e esta coluna disse quando caiu a condenação no STF: Lula pode ser, na polarização exacerbada, o melhor adversário para Jair Bolsonaro.

PERIGO - A aquisição de vacinas, pelas empresas privadas, em si, nada tem de errado, mas pode ser algo desastroso se falhar o controle e se transformar numa pandemia de denúncias.  

COVID - No Brasil, a tradução do livro ‘O Projeto Decamerão’. São 29 histórias da pandemia de grandes nomes da ficção contemporânea todas publicadas no New York Times Magazine.   

QUEM - Inspirado no livro de Boccaccio, a ideia do New York Times Magazine foi reunir as visões de nomes como Margareth Atwood, Mia Couto e Julian Fuks. Histórias da nova peste.

‘MEDO’ - A leitora Andrea Linhares considerou equivocada e patética a nota que registrou a suspeita de que sem controle a pandemia Covid pode infectar o mundo com novas variantes.

PIOR - Pior teria sido sua reação se a opinião fosse pessoal, do cronista. É da Organização Mundial de Saúde. O Brasil bate recorde de 4.200 mortes e a Fiocruz pede lockdown nacional.

PERDA - O Coronavírus levou nas suas asas negras o professor Alfredo Bosi, um dos maiores intelectuais do Brasil. Seus estudos e ensaios na área da literatura brasileira são referenciais.    

AMIGO - Do poeta Augusto Frederico Schmidt nas memórias - ‘As Florestas’, José Olympio, Rio, 1959: “Um velho amigo é uma raridade”. E arremata, sublime: “É como um velho amor”.

FLAGRA - O Tribunal de Contas da União abriu as planilhas das Forças Armadas no caso dos hospitais e ficou constatado que tinham reservas ociosas de 85% de seus leitos hospitalares para o atendimento só de militares. Sem amparo legal e por um puro corporativismo castrense. 

MAIS - O TCU, em razão do abuso, já que as forças armadas são instituições de estado, passa agora a fiscalizar um fato que, se constatado, pode ser grave e que não pode ser visto como ideológico: os hospitais consumiram em 2020 R$ 2 bilhões de reais do orçamento da União. 

ALIÁS - Não é de corporativismo a boa tradição das Forças Armadas. São instituições sem privilégios, mas hoje acusadas de consumirem 80 mil latas de cerveja e muitas toneladas de picanha. O slogan do Exército é a demonstração da sua postura: “Braço forte e mão amiga”.








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