De baquetas na mão pelo mundo

Publicação: 2018-12-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

De baquetas na mão, entre bumbo, surdo, tom-toms, caixa, chimbau e pratos. Essa é a área onde o baterista potiguar Di Stéffano se sente melhor. É lá que ele transcende pela música e faz quem o ouve transcender. Com 28 anos de carreira, esse instrumentista conceituado nacionalmente se apaixonou pela música quando tinha menos de 10 anos, ao acompanhar seu tio na empreitada de uma banda baile em Parnamirim. Se fascinou com a atmosfera dos ensaios e das apresentações. Os pais alertaram para que tomasse outro caminho. Não teve jeito. Pouco tempo depois já estava tocando bateria no colégio.
Renomado baterista potiguar Di Stéfano relembra lugares que marcaram o início de sua carreira
Renomado baterista potiguar Di Stéfano relembra lugares que marcaram o início de sua carreira

Aos 17 anos, impulsionado por Eduardo Taufic, Erick Firmino e Sergio Farias, geração de ouro da música potiguar, fez seu primeiro show no Bar das Bandeiras, na rua Chile, acompanhando Sueldo Soares. Depois tocou com Pedrinho Mendes e outros artistas locais. Mergulhou de cabeça no jazz a partir das jams que rolavam na escola de música do mestre Manoca Barreto. De repente ele estava aproximando o jazz das suas influências de música nordestina. Foi além, foi à África. Descobriu raízes que fincaram profundamente em seu som.

Tudo vai se somando, de improviso. E assim vieram três disco instrumentais – “Ribeira Jam" (2004), “Outros Mares" (2011), “Recomeço” (2017). Ao mesmo tempo vinham convites para tocar com nomes importantes da cena nacional: João Donato, Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Guilherme Arantes. De Natal foi morar no Rio de Janeiro e atualmente vive em Brasília, de onde viaja para tocar em todo o Brasil e em outros países. Natal está sempre na agenda. É quando além de tocar ele revê a família, amigos e inspirações.

De passagem rápida pelo RN para se apresentar no Fest Bossa & Jazz, em Pipa, Di Stéffano conversou com a TRIBUNA DO NORTE sobre sua vivência na música, lembrou episódios da carreira, expressou sua relação com a bateria e anunciou um disco novo para o início do próximo ano.

O contágio da música

Eu tinha um tio com banda baile. Cresci acompanhando essa situação toda. Mas vim de uma família de professores. Meus pais não queriam que eu
fosse músico. Sabiam que era uma vida difícil. E eles não acreditavam que eu tinha esse dom para a música dentro de mim. Comecei a tocar percussão e bateria. Participei de gincanas na escola. Fui aprendendo a tocar sozinho, de ouvido, autodidata. Eu via os caras da banda baile do meu tio ensaiando e me contagiei.

Tocada no Bar das Bandeiras
Eduardo Taufic, Erick Firmino e Sergio Farias foram pessoas chaves pra mim na música. Eu novinho, 17 anos, transitando no meio desses caras. Me botaram pra tocar. Toquei com Sueldo Soares, foi meu primeiro trabalho. Toquei com Pedrinho Mendes também. Meu primeiro show foi em 1991, no Bar das Bandeiras. Minha segunda casa era a Ribeira. Toquei muito no Alberto Maranhão e nos outros bares que surgiram depois na Rua Chile.

As jams na escola do Manoca
O finado Manoca Barreto tinha uma escola de música, a Toque, que fazia umas jams sessions. Eram poucos músicos. Rolava muito jazz ali. A gente via muita coisa acontecer. Desses encontros iam pintando trabalhos pra tocar. Essa turma depois começou a acompanhar os artistas que vinham tocar em Natal no Seis em Meia. Toquei com Tânia Alves e Antônio Carlos e Jocafi. Esses dois vieram várias vezes na cidade. Teve apresentação que foi apenas eu na bateria e os dois no violão. Eles esqueciam meu nome, me chamavam de “o menino alto e magrinho da bateria”.

Bateria no comando
Para funcionar na jam eu fico ligadíssimo. Aponto para alguém para puxar um solo. O primeiro improviso é o piano.  Dependendo do comportamento do público, quando noto que as pessoas já estão com muito álcool na cabeça, eu aponto para o sax para dar uma instigada, trocar o drive. Essa noção de regência é a vivência tocando com vários tipos de músicos que dá.

Música Nordestina  e outras misturas
A harmonia da música nordestina está muito enraizada em mim. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale. Tudo isso se mistura em mim com a bossa nova, o afro jazz. Ouvia muito Alcione quando era mais novo. As primeiras referências no jazz só surgiram depois, quando descobri o grupo Cama de Gato, o saxofonista Leo Gandelman e o pianista americano Chick Corea.

Africa jazz
Em 2006 fiz uma viagem para a África do Sul e Moçambique acompanhando Mart'nália e Arthur Maia. Mudou muito a minha percepção da música que fazia. Me aproximei de alguns músicos e até hoje toco com alguns instrumentistas de Maputo (Moçambique) que vem ao Brasil. Curto afrobeat também. Tem uma música sobre essa influência do africa jazz, “Um dia em Maputo”. Mesclo aquelas influência de lá com a minha identidade.

A bateria
Meu setup, quando me apresento em formação trio, piano e baixo, é mais enxuto. Quando é quarteto, gosto de usar mais pratos, uns cinco, dois tom-toms. Transito bem pelos dois sets.

Baterista compositor
Tenho o dom para composição. Diariamente me vem temas e cantarolo para gravar. Cantarolo os temas com a harmonia já definida. Os tecladistas que fazem as partituras ficam surpresos porque facilita muito. De tanto ouvir música, acho que agucei esse lado. A bateria vai pra música depois, quando sentimos que o tema é mais afro, bossa, baião, fusion, jazz contemporâneo.

Sempre perto de Natal
As bases dos meus três discos foram gravadas em Natal. Conto sempre com a parceria do Sérgio Farias nessa produção. Nunca me distancio da cidade. Vi que tem uma nova geração fazendo boa música. Acompanho pelo Spotify. Sempre que venho à Natal aproveito para rever a família e alguns lugares. É um pouco nostálgico retornar e complexo manter esse cordão umbilical. Muitas coisas me vêm à mente e de alguma forma me afeta, me contamina para compor.

Em Brasília
Semanalmente vejo shows. Tem uma cena legal. Trabalho muito com os artistas que vem para o Clube do Choro. Faço apresentações em embaixadas. Tocar em embaixada é legal, gera intercâmbios. Já viajei para me apresentar no Chile e Argentina, tenho convites para ir à África no ano que vem.

Disco novo
Tenho um disco novo pronto, o quarto trabalho solo da minha carreira. Está sinistro. Me rodeei de músicos ótimos. Pude contar com a participação do Richard Bona, um camaronês que vive em Nova Iorque. Ele é o Stevie Wonder do contrabaixo. Compus uma música pra ele, “Song for Bona”. Contei também com o conceituado pianista francês Dominique Fillon. É muita gente de peso. Tem o violonista e guitarrista brasiliense Lula Galvão, o nosso Jubileu Filho, o Jorge Helder, um dos baixistas mais requisitados do país, parceiro de Chico Buarque, tem também o Marcelo Martins, saxofonista de Djavan. O lançamento será em fevereiro de 2019.



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