De comida a condolências

Publicação: 2021-01-26 00:00:00
Valério Mesquita
Escritor

Dr. Cleodon Carlos de Andrade, médico, clínico geral, ginecologista, atuou na profissão durante quatro décadas, atendendo à população de Pau dos Ferros e cidades da região Oeste. Era muito caridoso, porém altamente irreverente e polêmico. Percebendo que a maioria dos chamados para ele ocorriam à noite, resolveu dormir no quarto de frente de sua casa, armando a rede na parede encostada à janela, pois assim ouviria com mais facilidade, os chamados.

Bastaria bater na janela para ele ouvir. Certa noite, Dr. Cleodon acorda com alguém, aflito, batendo na janela: “Dr. Cleodon! Dr. Cleodon!”. “Quem é?”, perguntou ele. “É Zé Pedro, do Riacho do Meio!”. “E o que foi?”. “É minha filha que tá passando mal. Foi comida”. “Então Zé, não é aqui não, é na delegacia”, sentenciou o médico inapelavelmente.

02) Numa sonolenta sessão vespertina da Assembleia Legislativa, presidia os trabalhos o irrequieto deputado Tarcísio Ribeiro. O deputado Leonardo Arruda falava no plenário, quando, ao final do discurso pediu ao presidente licença para se ausentar, posto que iria à cidade de Goianinha assistir ao sepultamento do Sr. Aguinaldo Simonetti. O indecifrável Lara Ribeiro, naquele estilo inconfundível, calmo, reflexivo, como se medisse as palavras, respondeu: “Caro deputado Leonardo Arruda, peço a Vossa . Excelência, que transmita à família enlutada as nossas congratulações...”. Quando ouviu os risos difusos e profusos, Lara consertou na hora: “As nossas condolências, melhor  dizendo.” Distração natural de quem é guru. 

03) Na tórrida Caicó, desenrolava-se uma das mais disputadas campanhas municipais, quando Vivaldo Costa foi visitar o Hospital Psiquiátrico. Ao sair, foi abordado pelo interno Marçal que lhe pediu dinheiro. Vivaldo, apressado e convencido que doido não tem futuro, respondeu rispidamente: “Tenho não!!”. A reação do alienado foi imediata. Aos berros, passou a gritar sem parar: “Irami, Irami, Irami!!”. Tempos depois veio a vingança vivaldina. Em nova visita, já saindo do hospital, o mesmo paciente novamente o abordou: “Vivaldo, me dá um dinheiro aí!!”. O político pegou três notas de 10 reais e mandou Marçal distribuir com os “colegas”. Todos caíram em cima de Marçal. Meia hora depois Vivaldo tomou conhecimento que o seu gesto provocara a ira dos doidos e que deram uma sova em Marçal, acusado de haver ficado com o dinheiro ofertado. O alcaide caicoense riu mafiosamente, mas só por um canto da boca.

04) O saudosi amigo ex-deputado Neto Correia passou-me essa do ex-prefeito de Cerro-Corá, o famoso Zé Amaro. Fã do futebol, Zé Amaro foi assistir o clássico ABC x América, que decidia o campeonato potiguar. O Machadão estava repleto e ao redor, centenas de veículos. Homem do interior, precavido, foi logo imaginando abrigar o seu veículo em lugar seguro. Viu a caixa d’água do estádio como ponto de visível referência e lá estacionou. Durante o jogo, tomou umas e outras, reencontrou amigos e andou pelas gerais e arquibancadas. Findo o jogo, na saída do estádio desorientou-se. Não viu a caixa d’água, o ponto de orientação. Rodou para a direita, para a esquerda: nada. Enfim, estava só e desesperado. Um popular que esperava um coletivo, vendo a sua impaciência indaga o que se passa: “Sei não rapaz, que tenham levado o meu carro até que eu acredito mas com a caixa d’água e tudo eu estou em dúvidas”. 








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