De como o projeto de um satélite criou a primeira televisão do RN

Publicação: 2020-09-23 00:00:00
Cassiano Arruda Câmara 

Nos 70 anos da televisão no Brasil ninguém se preocupou em contar a história da primeira televisão do Rio Grande do Norte, nas vésperas dela completar 50 anos.

Por que a primeira emissora de televisão do RN foi uma geradora educativa, no Brasil daquele tempo (final dos anos 1960)? Terá sido porque não existia, ao menos, uma rede educativa ou uma central de produção de conteúdo?

Por que tanto pioneirismo, em criar, fora do eixo Rio-São Paulo, um centro produtor de conteúdo educacional, aparentemente contrariando qualquer  lógica?

Quem pode esclarecer essas questões, é o primeiro Diretor da Televisão Universitária, escolhido pelo reitor Onofre Lopes (fundador da UFRN) que dirigiu a instituição (criando uma universidade) enquanto abria caminhos e identificava fontes de financiamento, respaldado na sua própria liderança e força moral.

O primeiro Diretor da TV-U foi o professor Dalton Melo de Andrade, possuidor de uma memória prodigiosa, que não se nega, hoje em dia,  a contar a  verdadeira história, um pouco diferente da oficial.

Dr. Onofre fez a Universidade, priorizando o “fazejamento”, quando o Brasil descobria o planejamento. E para quem: “grupo de trabalho com mais de uma pessoa era perda de tempo”.

UM ALIADO COM DINHEIRO
A ideia da televisão veio de fora, quando Natal se ufanava de ser “a capital espacial do Brasil” e por aqui andava um cearense que botou na cabeça a transposição de um projeto vitorioso na Índia, com a junção da TV com um  satélite de comunicação para levar a tele-escola aos lugares mais ermos.

Era o cientista Fernando Mendonça, da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (atual INPE), que andava por aqui por conta dos foguetes (parêntesis: nessa época fiz uma reportagem com ele – “O pai do satélite brasileiro” – para a revista Manchete) da Barreira do Inferno.

Num encontro casual com dr. Onofre, Mendonça falou do projeto indiano e da sua vontade de transplantá-lo para o Brasil.

O primeiro Reitor da UFRN interessou-se pelo assunto, deu continuidade as conversas, e dentro de pouco tempo já apresentou a Fernando Mendonça o seu “Grupo de Trabalho” para fazer a televisão. O grupo era formado por Dalton Melo, plenipotenciário para resolver a questão.

Naquele tempo, o Brasil não contava ainda com um sistema confiável de telecomunicações. Tanto que na origem de tudo estava o lançamento de um satélite e a junção de dois organismos públicos para viabilizá-lo. Interessado em lançar satélite, o INPE encontrou o parceiro ideal: uma universidade federal interessada em levar o ensino para o Interior, gerando demanda para justificar seu lançamento.
 
Dalton era rádio-amador, como Mendonça. E foi criado um canal próprio de comunicação entre ambos, quando o telefone interurbano no Brasil era ainda só um sonho. 

ERA PRECISO INVENTAR 
O problema do parceiro local era a falta de dinheiro. Compensada pela enorme criatividade e disposição de lutar.
Vendo escassez de possíveis financiadores no plano nacional, Dalton Melo recorreu aos “Companheiros das Américas”, entidade criada no Governo Kennedy para ajudar iniciativas interessantes, como aquela.

E os Companheiros das Américas conseguiram uma televisão prontinha, mas um tanto defasada, com equipamento à válvula, quando o transistor já tomava conta dos equipamentos eletrônicos.

Fernando Mendonça ainda sonhava com o satélite, e tinha conseguindo recursos nas suas fontes orçamentárias suficientes para iniciar o projeto.

Foi quando se descobriu que o equipamento vindo dos Estados Unidos, não dava. E o INPE para continuar sonhando com o satélite, terminou bancado a compra dos equipamentos novos para uma moderna emissora (e produtora) de televisão.

A TV Universitária entrava do ar em 1972 para levar o ensino onde não tinha escola.

O QUE FICOU DO PROJETO
O Governador do Estado, Cortez Pereira, havia convocado Dalton para ser seu Secretário da Educação, entusiasmado com a proposta do Projeto Saci e mesmo antes do satélite foram identificados pontos que não tinham escola.

Uma precária rede de micro ondas levava o sinal da TV-U até esses locais, com o conteúdo produzido aqui nos seus estúdios (no prédio da antiga Escola Industrial, na avenida Rio Branco, em Natal).

O Projeto Saci (o nome foi mantido) chegou a ter 500 tele-postos em diferentes municípios do RN.

Foi quando o INPE jogou a toalha, compreendendo que a necessidade original, que justificaria o lançamento de um satélite exclusivo, havia sido ultrapassada por outro caminho, a Embratel que ligou o Brasil através um sistema eficiente de micro-ondas.

Sem o INPE, nem satélite, ficou a alma do SACI.

LUTAR PARA SOBREVIVER
Paralelamente, várias universidades federais foram criando as suas próprias emissoras, e o Ministério da Educação lançou um programa específico com um centro de produção centralizado para realização de telecursos. Além disso a iniciativa privada entrou na área, com a Fundação Roberto Marinho, com respaldo da Rede Globo, contratando talentos em todo Brasil, inclusive em Natal. Com custos muito menores do que a produção estatal.

Totalmente desidratado, o Projeto Saci foi saindo de cena, e a TV Universitária teve de se reinventar.

Nos anos 1990, o reitor Geraldo Queiroz inaugurou a nova sede da TV-U no Campus Central da UFRN, a colocando numa nova dimensão, voltada sobretudo para o ensino da Comunicação. Integrante de uma rede nacional de emissoras ligadas pelas micro-ondas da Embratel, com um quadro de servidores e orçamento próprio.

Do satélite original ficou a lembrança e uma boa história dos tempos de pioneirismo e dos seus pioneiros. Os pioneiros que construíram esse país em todos os campos.






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