De decepções na política e a hora e vez da resiliência

Publicação: 2020-08-12 00:00:00
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Cassiano Arruda Câmara

Num dos últimos Encontros de Marketing Político que o saudoso Diário de Natal promoveu, me foi dada a missão de entreter o palestrante anterior ao que estava no palco,  jogando conversa fora com ele. Foi assim, que em 2002 eu fique mais de meia hora no lobby do hotel Porto do Mar, cumprindo minha missão, junto ao sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, sem tietes, nem pauta.

Formávamos um grupo de quatro pessoas, além dos já referidos, o advogado paulista Pedro Paulo Porto (que falaria sobre Direito Eleitoral) e o então deputado petista Fernando Mineiro, que foi acolitar Lula.

Na busca de um assunto interessante resolvi provocar o futuro Presidente, de uma forma que não fosse agressiva nem mal educada, com quem vinha de sucessivas derrotas:

- E qual foi sua maior decepção numa de suas campanhas?
O provocado pegou na chave: - Foi no Recife, numa caminhada, no meio de mocambos. Tentei entrar num casebre e a dona não deixou. Perguntei por que? Ela, que não tinha nada no seu barraco, respondeu:  Você quer tomar o que é meu. - E me mostrou um cartaz do Collor...

DEPOIS DE 13 ANOS
Treze anos depois de governos petistas (oito de Lula) o atual Presidente, que foi eleito com mais de  56 milhões de votos, perdeu para o petista Fernando Hadad em todos os nove Estados nordestinos e Bolsonaro que contou com um barulhento grupo de agro-boys  nas suas andanças pela  região, não conseguiu penetrar nos grotões de quem Lula havia reclamado e terminou conquistando esse voto nas ondas do Bolsa Família e de outros projetos sociais.

Além do benefício levado  direto para os mais pobres, Lula tinha uma história de vida parecida com a dos milhões de nordestinos que foram obrigados a migrar para São Paulo. Assim não precisou de intermediários para penetrar e dominar os grotões do Nordeste.

Paulista, sem maior envolvimento com o Nordeste, Jair Bolsonaro nem empolgou a região e nem conquistou o nordestino. E agora parece ter sacado que se quiser a reeleição, vai necessitar de mudar a sua posição até 2022.

O Governo Bolsonaro começa apostando nos projetos hídricos, como as obras no Rio São Francisco, o Ramal do Agreste (Pernambuco), a Vertente Litorânea (Paraiba) e as barragens aqui no Estado.

MÃOS Á OBRA
O operador de Bolsonaro no Nordeste vem sendo o ex-deputado Rogério Marinho, Ministro do Desenvolvimento Regional, uma pasta com R$ 33 bilhões de orçamento, concentrando um plano de investimentos em infraestrutura de grande impacto social – baseado em água, moradia, saneamento e melhoria urbana – e que atinge em cheio um eleitorado que historicamente vota de acordo com as benesses que recebe do governo.

O abre-alas do bloco bolsonarista vem sendo os projetos hídricos, com a conclusão da sonhada transposição das águas do São Francisco.
Embora esteja, apenas, começando, a ação do Governo no Nordeste já apresenta os primeiros resultados positivos. Um levantamento realizado pelo Instituto Paraná de Pesquisas, na terceira semana de Julho, revelou que a aprovação do governo da região pulou de 30,3% em abril, para 39.4%. O percentual dos que pretendem reeleger Bolsonaro em 2022, subiu de 17.6% para 21.6%. Anote-se que muito do que está planejado para a região, não foi, ao menos, iniciado.

A VEZ DO NORDESTE
O Governo Bolsonaro começou com um técnico distante da política, Gustavo Canuto, no comando do Ministério do Desenvolvimento Regional, quando o nome de Rogério Marinho foi lembrado para o posto, em razão do trabalho que ele desenvolveu, em nome do Governo, para aprovar a Reforma da Previdência.

Corria o mês de fevereiro, e Marinho colocou uma condição para assumir o posto: tocar um programa de ação para o Nordeste, exigência que atendia o pensamento de Bolsonaro, como instrumento de melhoria a sua popularidade entre os nordestinos, tendo o objetivo final que era o robustecimento de sua base parlamentar com o Centrão, onde o nome de Marinho era muito bem aceito.

Com os R$ 33 bilhões no Orçamento, Rogério tem muito o que atender aos integrantes do Centrão nos vários projetos que pretende liderar, baseados na água, moradia, saneamento e melhorias urbanas. Ações facilmente transformadas em voto.

CARTA FORA DO BARALHO
O ano de 2018 não poderia terminar pior para Rogério Marinho. Dez entre dez analistas da política potiguar o colocavam fora do jogo. 

Tendo sido o Deputado Federal de maior destaque na bancada potiguar na legislatura passada, merecendo reconhecimento geral pela sua defesa da Reforma da Previdência, ele pagou um preço muito alto por essa posição. Não conseguiu se reeleger. Antevendo a perda do Imposto Sindical a turma dos sindicatos resolveu puni-lo. E montou uma campanha organizada para desconstruir sua imagem, como o “inimigo do trabalhador”. - Nunca havia acontecido nada semelhante no RN.

O reconhecimento que faltou do eleitor de sua terra, sobrou no lado patronal, que bancou o seu nome junto ao Ministro da Economia, Paulo Guedes. E ele foi convidado para ser Secretário da Previdência onde comandou a tropa de Bolsonaro na primeira grande vitória parlamentar do Governo.

Vencido esse obstáculo virou Ministro e coordenador da Operação Nordeste, montando as viagens de Bolsonaro. Na próxima semana, o Presidente vem ao RN, e Marinho terá oportunidade de avaliar se o seu trabalho reconhecido no Brasil todo, também funciona com seus conterrâneos, comandando a tropa do capitão e construindo a sua própria resiliência.