De Drummond para Navarro

Publicação: 2020-08-30 00:00:00
Woden Madruga 
woden@tribunadonorte.com.br 

Domingo outro transcrevi uma carta que Jorge Amado escreveu para Newton Navarro, coisa dos idos de 1975. Fui encontrá-la entre os papéis da gaveta desarrumada. Esta semana voltei à gaveta e numa nova remexida encontrei, no mesmo envelopão, cópias de mais três cartas endereçadas ao grande poeta, contista e pintor, escritas por outras três grandes figuras de nossas letras: o mineiro Carlos Drummond de Andrade, o gaúcho Érico Veríssimo e o potiguar Edgar Barbosa. Todos abordando o mesmo mote:  o livro de Newton Navarro, “Os Mortos são Estrangeiros”.

Trata-se do seu segundo livro de contos (o primeiro foi “O Solitário Vento do Verão”, publicado em 1961), que estreou na literatura em 1953, aos 25 anos de idade, com o livro de poemas “Subúrbio do Silêncio”.  “Os Mortos são Estrangeiros” (o livro reúne 8 contos) foi editado pela Fundação José Augusto em 1970 (Governo Walfredo Gurgel) e tem orelhas assinadas pelo crítico Valério Andrade. Há um detalhe que considero importante nessa edição. Está escrito na página derradeira uma nota (ou colofão, como diria o grande Oswaldo Lamartine) com estes dizeres: “Este livro foi composto e impresso nas oficinas da Empresa Gráfica O Cruzeiro S.A. (Rua do Livramento, Rio, GB) para a Editora Nosso Tempo Ltda., em 1970”. 

Lembrando: a Editora Nosso Tempo foi fundada em 1969 por Aluízio Alves, que era o seu diretor. Valério Andrade, que fazia crítica de cinema em jornais do Rio de Janeiro, lá trabalhava como editor. Destaco dois trechos do escrito de Valério:

- “Usando uma linguagem lírica, de imediato poder de comunicação, Newton Navarro retrata aspectos cotidianos em forma de pensamentos e lembranças. Revela problemas de sua gente, de nossa terra, através de flagrantes colhidos aqui e ali, trazendo até nós o retrato e a lembrança do Nordeste. ”

- “Aos 42 anos, em plena maturidade artística, Newton Navarro não poderá deixar de criar. É um dever que ele tem para consigo próprio e para com sua terra”.

Vamos agora à carta do poeta Carlos Drummond de Andrade, datada de 7 de junho de 1972 e postada no Rio de Janeiro:

“Prezado Newton Navarro:
Seus contos foram para mim uma surpresa boa. A começar pelo caso do Boi Milonga, com traços paisagísticos que iluminam a narrativa (“o grupo esguio das carnaúbas que espana o claro do tempo”) é a notação rápida, dizendo mais que a circunstanciada informação da morte do animal (“o rastro das cobras, na areia frouxa”). Vi imagens de cinema em suas histórias. A bela gravura sensual de “Os cavalos” deixa marca na lembrança. Você soube ligar terra, bichos e gente em trama sensível de palavras. Pena que o livro seja tão breve: fica-se desejando mais.
Como você oferece préstimos. Vou explorá-lo, pedindo-lhe que me arranje na Fundação, se possível, o livro de Ferreira Itajubá. Mário de Andrade e Manuel Bandeira falavam sobre o poeta e a figura humana coisas que sempre me deram vontade de conhecer os seus versos. E só agora eu sei que eles foram publicados pela Fundação.

Grata e cordialmente, o abraço de  Carlos Drummond de Andrade. ”

Anedotas do Pasquim
Passeando os olhos pelas prateleiras da estante aposentada em busca de boas releituras, encontro “As Novas Anedotas do Pasquim”, publicado pela Codecri em 1987.  O livro foi organizado por Alex Nascimento e ilustrado por Jaguar. Ao todo são 168 anedotas editadas por Alex (algumas dele próprio) e 41 gravuras de Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (o grande Jaguar, um dos fundadores do Pasquim). São 80 páginas.

Há dois agradecimentos registrados no livro: “Agradecimentos especiais a Armando Negreiros e a Celso Silveira”. Certamente a dupla ajudou Alex na seleção das anedotas. Algumas delas sintetizam perfeitamente o Brasil político de hoje. Esta, por exemplo: 
“Uguinho, dê-me o nome de um vírus:
- Mais nocivo de todos, distinta professora, é o vírus do Ipiranga”.
Ou esta outra:
“Me diga, Uguinho, o que é que você sabe sobre Freud e Marx:
- Algumas coisas, distinta professora, algumas coisas. Mas sei que se tivessem nascido no Brasil seriam dois grandes humoristas. ” 

Escola Doméstica
Terça-feira que vem, primeiro de setembro, noite de lua cheia, é o aniversário de fundação da Escola Doméstica de Natal (1914), criada por Henrique Castriciano.  Lá se vão 106 anos.

Dica de uma boa leitura para comemorar a data: o livro de Eulália Duarte Barros (Lalinha), “Uma Escola Suíça nos Trópicos”, que tem prefácio de Diógenes da Cunha Lima.

Oceanos
Trinta e sete escritores brasileiros estão entre os 54 finalistas do “Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa 2020”, que sucedeu ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura, dos mais importantes prêmios literários de nossa literatura. O total de inscritos este ano chegou a 1.872 candidatos: romancistas, contistas, cronistas e poetas. O anúncio dos semifinalistas foi feito terça-feira passada. A escolha dos finalistas (são três) acontecerá no final de novembro.

Entre semifinalistas brasileiros estão Chico Buarque, Milton Hatoum, Luiz Ruffato, Joca Reiners Terron, Júlian Fusk, Maria Valéria Rezende (todos com romances), Adriana Lisboa, Eucanaã Ferraz e Alexei Bueno (poesia), Nélida Piñon (crônica) e Marcelo Rubens Paiva (conto).

Escritores portugueses são 14. Entre eles, Inês Pedrosa, Maria Teresa Horta (as duas já andaram por Natal, palestrando por aqui) e José Luís Peixoto. Moçambique está representado por Mia Couto, Angola por Djaimilia Pereira (vencedora do prêmio ano passado com o romance “Luanda, Lisboa, Paraíso”) e Cabo Verde por José Luís Tavares.
Quem ganhar o prêmio receberá 120 mil reais. 

Bundão
Do mestre Gaspar, que vai reabrindo aos poucos o Cova da Onça, depois de ouvir no radinho da prateleira as “últimas” notícias de Brasília:
- Tem jornalista bundão, sim, como também político mandante.


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