De Drummond para Nei

Publicação: 2018-08-19 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga
woden@tribunadonorte.com.br

Na gaveta dos papéis desarrumados encontrei esta semana -  na juntada do tempo - uma carta de Nei Leandro de Castro para Alex Nascimento, escrita no começo de 1987 e postada do Rio de Janeiro, lá se vão 31 anos.  Nei dá conta, entre outros motes, de um cartão que lhe foi enviado por Carlos Drummond de Andrade. Coisas de poetas, no caso aqui são três. Nei todo ancho da vida com os elogios que o Poeta de Itabira faz ao seu livro As Pelejas de Ojuara. Naqueles tempos do Rio Nei exercia também o ofício de publicitário que aparece de raspão no escrito de Drummond, mas sem esquecer das coisas da aldeia de Poti, Alex no meio delas, claro. Vejamos:

“Rio, 14.01.87.
Alex, mon amour,
Faz um calor igualzinho ao de Jucurutu. Em compensação, as mulheres estão quase nuas, com as tetas ao léu, como se diz além-mar. Algumas das ditas cujas tetas chegam a puir as blusinhas sob as quais elas – as tetas – bicam e balançam. Ai, Jesus.
Para compensar ainda mais esse calor jucurutuesco (pior que o senegalesco), acabo de receber um cartão de Drummond que, aos 84 anos, quem diria, caiu de quatro pelo caboclo Ojuara. Segue xerox, para as devidas providências, caso você as jugue providenciais.
Estou mandando dois Pascas. Um procê (a alemãzinha precisa aprender a nossa língua, via sacanagem), outro para o pasquineiro WM, mais amigo do peito do que o velho Bromil.
Me diga um a coisa, seu sacana: você já sabe o novo significado de altruísta? Eu ouvi mal ou o puto do César já andou dizendo coisas e lousas? Porra, ninguém pode confiar em confidentes de mesa de bar. São todos uns lula guimarães, uns danilos bessas, uns redes rasgadas.
Olha, por via das dúvidas, passo a limpo as palavras do mestre Drummond. Diz ele:
“Obrigado pelo que me diz sobre ‘Tempo Vida Poesia’. E também sobre a remessa-relâmpago da declaração de rendimentos.
“Não vamos trocar elogios, mas quero reafirmar a primeira impressão de leitura de ‘As Pelejas de Ojuara’. O diabo do livro me prendeu e fascinou. Sou sensível, antes de tudo, à arte da escrita, e tocou-me a graça do seu estilo, que torna a leitura uma festa.  A gente vive o personagem, suas aventuras, seu destino. E isso é ficção da boa.
“Quanta coisa aprendi na riqueza do seu vocabulário”
“Abraços, com a admiração do Drummond. ”
A remessa-relâmpago, se você quer saber, diz respeito a um trabalho que o poeta fez para um cliente da Assessor. No mais, é um ego tão dilatado pela massagem recebida, que chegou a um vigésimo do ego de Franklin Jorge em posição de descanso. Abraços. Beijo a alemãzinha, com um demorado acento de ternura.
Escreva, seu puto!
Nei”

O Guerreiro do Yaco
Carta do jornalista Calazans Fernandes, endereçada ao designer e editor Marcelo Mariz que cuida da edição do seu livro O Guerreiro do Yaco, publicado pela Fundação José Augusto em 2001, à época por mim dirigida:

"São Paulo, 24 de Julho de 2001
Caro Marcelo:
Dentro do combinado ontem pelo telefone, estou remetendo conformes suas instruções:
a) Uma (1) cópia impressa de “O Guerreiro do Yaco” correspondente à Primeira Parte do texto de “Serra das Almas”, cujo plano editorial, dividido em três (3) partes encontra no Sumário da sequência da abertura, onde verá que a Segunda Parte terá o título de Chamas do Passado e a Terceira, Cinzas da Fortuna. Isto quer dizer que esta remessa de hoje contem a última e definitiva versão da Primeira Parte. A partir dela, você poderá pensar o desdobramento editorial, estimando mais 350 páginas de computador para as duas Partes restantes. Como vê, esta Primeira tem 220 + ou -;
b) Dois (2) disquetes – um (1) a mais para segurança – datados de hoje, com a última versão do texto grifado no item a;
c) Originais das fotos disponíveis para sua avaliação, acompanhados de provas e respectivas legendas de identificação de personagens e lugares, extraídos do Zip-drive remetido em Corel para você. As fotos valem pelo documental e só por isso justificam seu aproveitamento. “Serra das Almas” pode este tipo de fotografias, algumas com mais de 100 anos de baú. Os mapas que tentam projetar a zona de conflito carecem de acabamentos visuais, detalhes de que sua Agência se desincumbiria; pedem atenção especial, talvez colocando-as em destaque, as fotos (2) grampeadas uma sobre a outra, do Guerreiro do Yaco (Cel. Childerico José Fernandes de Queiroz Maia), o cavalheiro de ares aristocráticos com e sem bigode, gravata borboleta, relógio de algibeira, etc.
Também carecem de carinho as fotos de Zé Rufino, o homem de chapéu de aba larga sentado na cadeira, pernas cruzadas, e que também aparece em medalhão ao lado da mulher Toinha. Ele é o contador de histórias do baú. Suas histórias percorrerão 300 aos nas três Partes de “Serra das Almas”. Imagino que pretende montar um caderno de fotos agrupadas, como forma de dar o caráter documental que elas sugerem. Talvez esta solução peça até um papel mate, diferenciado (acetinado?), sugerindo coisa velha. Não sei.
Fico por aqui. Preciso devolver algumas fotos ao relicário dos respectivos donos. Alguns moram nos socavões do Yaco. Outros na Serra das Almas Velhas, desbotadas são o testemunho de tempos e histórias. Logo você verá ao ler o texto para senti-lo e diagramá-lo.
Peço entregar cópia desta carta ao Woden e lembrar a ele a cobrança da Apresentação pelo Sanderson. O Zip-drive que remeti anteriormente está prejudicado. Poderia devolve-lo para o e endereço abaixo. A seu dispor, cordialmente, Calazans Fernandes.
Rua Aspicuelta, 307 – apt. 82, Vila Madalena, São Paulo, SP, CEP-05433-010. Fone/Fax 3034-3452 e 3032-0917 – E-Mail: fcftapuia@uol.com.br"

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