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Quadrantes
De Getsêmani ao Gólgota
Publicado: 00:00:00 - 26/06/2022 Atualizado: 11:43:40 - 25/06/2022
Cláudio Emerenciano 
[Professor da UFRN]

O mundo está submetido a uma convulsão em que se combinam guerra, violência, fome, desespero, pandemia, inflação universalizada etc.O Brasil não foge à rega. Mas a nossa crise tem um ingrediente trágico e assustador: fanatismo, ódio e intolerância através das redes sociais. Brasileiros, que se dizem cristãos, digladiam-se sem cessar. Ceifam a paz social. Destróem a harmonia. Basta! Dedico o texto a eles.  

É madrugada. O silêncio da noite é entrecortado por uma chuva fina, sacudida intermitentemente por sussurros do vento. Vento que assobia, envolvendo os que dormem na paz de espírito em circunstância aliciante e acolhedora. Os sonhos, espero, provavelmente os afagam com ternura, leveza e tranquilidade. Nada, naqueles instantes, predispõe aos pesadelos. Enquanto isso, entre os que não dormem, pastoreando a noite e seus enigmáticos encantos, encontro-me absorto em reflexões sobre a Missão de Jesus Cristo. Essencialmente, Jesus testemunhou, vivenciou, revelou e confirmou o infinito amor de Deus, Seu Pai, pela humanidade. Após transformar água em vinho, nas bodas de Caná, seguiu com seus apóstolos para sua cidade de Nazaré. Na Sinagoga leu um trecho do profeta Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos; para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor”. Após fechar o livro, proclamou: “Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos” (Lucas 4, 15-27). A comunidade, reunida na Sinagoga, exibiu espanto e perplexidade. Mas os que petenciam à seita dos fariseus, reagiram com vioência. Queriam jogá-Lo do alto de um precipício. Mas Jesus se afastou dali, passando resolutamente e incólume no meio deles.

Essa foi a primeira vez em que Jesus anunciou sua Missão. Assumiu-a plena e absolutamente. O texto é atualíssimo, apesar de Isaías ter vivido 800 anos antes do Cristo. Os pobres não são apenas os despossuídos de condições materiais para viver. Também são todos aqueles privados da dignidade como filhos de Deus. Os cativos são os submetidos, em todos os tempos, a qualquer tipo de dominação, que é incompatível à dignidade do homem. Qualquer forma de servidão renega e afronta os desígnios de Deus para o gênero humano.  Os cegos não são apenas os que não têm o sentido da visão. São, amplamente, os que se recusam a enxergar, a entender e a captar o verdadeiro sentido do mundo e da vida. Rejeitam, assim, tudo o que emerge do amor. Sobretudo a Paz, que emana de Deus e rege o universo. Opõem-se que o ser humano a vivencie individual e coletivamente. Infelizmente: “Têm olhos, mas não vêem, ouvidos, mas não ouvem”. Os oprimidos estão no mundo todo. Em todas as sociedades e todos os tempos, vítimas da fome, da injustiça, da violência, da indiferença, da insegurança, da discriminação, das guerras e da má-fé. O ano aceitável ao Senhor demarca o tempo em que Ele estava no meio de nós (humanidade): “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”. Eis que Ele mesmo se revelou: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (João 8, 12). Luz infinita, que ascende a Deus.

Nos momentos angustiantes da noite silenciosa dos Jardins de Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Jesus chorou e suou sangue. Contemplou dali fragilidades, contradições, egoísmos, ambições, violências, injustiças, hipocrisias, ignomínias, crueldade, desfaçatez, vaidades e desamor da humanidade. No passado, no presente e no futuro. Jesus percorreu os caminhos do Calvário (Gólgota) como um cordeiro, que segue para o abatedouro. Silencioso e resignado. Consciente de que carregava o peso de todos os paradoxos humanos. Redimidos por Sua Imolação e revelando a infinita misericórdia de Deus. Ele é eternamente Porta, Acesso, Caminho: “EU SOU a Porta. Se alguém entrar por mim, salvar-se-à. Entrará e sairá, e achará pastagens”. A justiça humana é contraditória. Eivada de condicionamentos objetivos e subjetivos (psicológicos). Nem sempre concilia o homem com Deus. Quantas e quantas vezes, por toda a História, esteve impregnada de inverdades, mentiras e infâmias? A verdadeira Justiça é a misericórdia do Bom Pastor, que sempre acolhe as ovelhas tresmalhadas. Tal qual o pai na parábola do “Filho Pródigo”: o dom infinito de perdoar.

Gandhi não era cristão, mas conhecia profundamente o Antigo e o Novo Testamentos. Dizia que seria cristão se os cristãos testemunhassem sua fé 24 horas por dia.  Era um simples gracejo com um dos seus principais colaboradores, um pastor anglicano e inglês. O Papa Bento XVI definiu o Senhor Jesus como “o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem”. Um dos mais tocantes e belos livros sobre Jesus (até hoje o maior biografado na História) é “O que Jesus via do alto da Cruz”, do filósofo e escritor Antonin-Dalmace Sertillanges. Gandhi em depoimento disse, a exemplo dos teólogos cristãos, que os Evangelhos são insuperáveis e insubstituíveis como fontes reveladoras da vida de Jesus. E acrescentou: “os ocidentais tendem a questionar a tradição oral e os textos antigos como fonte de conhecimento. Especialmente em tema religioso. Revelação de fragilidade da fé de muitos”. Jesus, na Cruz, a todos perdoou. Redimiu-nos pelo Amor: “Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem”. Sholem Asch, em “O Nazareno”, e Daniel-Rops, em “Jesus no seu tempo”, descreveram minuciosamente a madrugada que antecedeu a crucificação do Senhor. Noite sombria e amarga. Na qual seus discípulos se dispersaram. Pedro O negou três vezes. Mais uma vez se evidenciou entre os seus apóstolos o medo e o terror. Traços da condição humana. Prevaleceram fé e amor por eles testemunhados após o Pentecostes: “Ide e ensinai a todos os povos” e “A minha Paz vos dou”. Missão eterna...

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