De nauseabundo

Publicação: 2021-03-02 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação

Passo as páginas dos jornais e revistas que fui lendo durante a semana e deixando de lado. Sempre espero revê-los na semana, com mais vagar. Por esses dias, acabei aceitando a palavra nauseabundo que sempre reneguei, por malcheirosa. Agora não teve jeito. Não há outra no cardápio. O que o país assiste não é só a degradação da classe política. É a decomposição da autoridade brasileira. Ou, para usar a expressão do filósofo Emil Cioran, a idolatria da desgraça. 

E o erro, nisso tudo, é imaginar que a culpa está nesse ou naquele político ou autoridade, como se a podridura, para usar um conceito espanhol, não estivesse contaminando todas as camadas da vida pública brasileira. Estamos sem limites e sem fronteiras. As forças armadas ao longo de 2020, leio no artigo de Álvaro Costa e Silva, consumiram 700 toneladas de picanha, 80 mil cervejas, 140 toneladas de lombo de bacalhau, muitas caixas de uísque, e um tanto mais. 

Outro dia, na Carta Capital, o velho e irredento Mino Carta, levando a projeção da crise ao seu ponto mais agudo, indagou: se preciso, quem prenderia os generais? Os nossos analistas políticos já não conseguem construir uma visão possível do que nos aguarda. O que desejamos, armando a sociedade? Para resistir - seria em 2022? - ao ameaçador e delirante perigo vermelho e reagir nas ruas, de coronhas em punho, bala na agulha, olho firme no inimigo? Qual inimigo?

Outro dia, vendo na tevê uma entrevista do economista Pérsio Arida, não foi outra a sua conclusão: nada anda tão parecido com ontem, exceto a presença física do PT, do que o novo messias que temos. Nos seus 28 anos de Câmara Federal votou contra o que hoje promete, depois se arrepende e em seguida concorda. Como disse Pérsio, um dos pais do Plano Real, o Brasil nunca deixou de ter liberais no governo, desde a redemocratização. Qual é a novidade?
Jair Bolsonaro foi sempre intervencionista e estatizante. Mas, como disse Pérsio, depois do casamento por conveniência com Paulo Guedes, fantasiou-se de neoliberal, adoçando a boca dos tigres que poderiam, depois de apoiá-lo furtivamente, iniciarem uma cobrança capaz até de desestabilizar a tal da governabilidade. Impeachment? Nas ruas não há os sinais vitais para tal empreitada. O que há no horizonte, visto do alto da gávea, são as urnas de 2022, se é que virão. 

Neste terceiro milênio, fica cada dia mais evidente que as doenças que ameaçam hoje a democracia não vieram de fora. São orgânicas. Nasceram da própria democracia. É como se o metabolismo tivesse gerado um processo de deformação, mistura de mitificação e mistificação, ingredientes do mais tosco messianismo. Somos uma plateia diante do espetáculo dantesco da intolerância. Escondendo, no aplauso de uns e no pranto de outros, 250 mil mortos.

Que horror! 

DÚVIDA - Por acaso cairia naquele reinado dos delírios improváveis admitir a candidatura de José Agripino Maia a governador ou a Senador em 2022? Não aposte contra. Você pode perder. 

FORTE - Se for, não terá adversários no governo e na oposição de hoje. E em qualquer das posições seria bom companheiro de chapa para Fábio Faria ou Rogério Marinho. Só 2022 dirá.  

ZERADO - Não há atraso no pagamento dos recursos do Covid. Os serviços, quando prestados e atestados, são pagos. As dívidas acumuladas não são de recursos Covid, mas heranças passadas. 

DÉFICIT - O governo enfrenta déficit orçamentário na saúde, ainda da ordem de R$ 5 milhões agravado pelo enfrentamento da pandemia, tudo acompanhado pelo controlador Pedro Lopes.  

APOSTA - A governadora Fátima Bezerra ainda aposta que chega a 2022 com duas vitórias: a conclusão da vacina contra o Covid-19; e as quatro folhas que recebeu atrasadas já depositadas.     

CORAÇÃO - Na edição de domingo passado, desta TN, a ilustração da crônica saiu invertida, com o coração voltado para cima. Nada altera, posto que o coração bate em qualquer posição. 

MAS - Se interessar saber: aquele coração que ilustra a crônica é a imagem da angiotomografia computadorizada das artérias do cronista que assim mostrou aos seus leitores o próprio coração. 

MÁSCARA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando o jogo dos vaidosos tentando enganar os tolos: “Os vaidosos escondem a vaidade com a máscara do falso orgulho”.  

COVID - Deve sair, ainda este ano, de um grupo de médicos de Natal, um artigo técnico sobre a prescrição da ivermectina e hidroxocloroquina, com mais de dois mil casos, para os pacientes portadores do Covid-19. Na primeira fase da contaminação, como forma de tratamento precoce.  

NEGROS - A professora e historiadora Juliana Teixeira Souza, do Departamento de História da UFRN, iniciou uma nova pesquisa, agora em nível de pós-doutorado - “Negro em terra de Caboclo, escrita da história e cultura de africanos e afrodescendentes no Rio Grande do Norte”.

ÍCONES - Entre os nomes a serem estudados, trajetórias e vidas intelectuais, a poetisa Auta de Souza, o jornalista Eloy de Souza e o escritor Henrique Castriciano de Souza. O projeto exposto ao longo de 26 laudas, já foi aprovado e deve ser realizado ao longo de dois anos de trabalho. 









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