De Pelé à eternidade

Publicação: 2019-08-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Santos(SP), dezembro de 1955, Estádio Urbano Caldeira(Vila Belmiro), treino da tarde. O cartola português, 32 anos, circula paciente e discreto pelas arquibancadas quase vazias. Comerciante de tino reconhecido, usa o olhar seletivo e miúdo para acompanhar cada jogada de um moleque magriço, escurinho, driblador e artilheiro, destaque entre os reservas do Santos.

O jovem dirigente é vice-presidente de futebol do Vasco(RJ) e gosta de cumprir missões. Quer  um craque a devolver a alegria aos cruz-maltinos ciumentíssimos com o Flamengo do potiguar Dequinha, do alagoano Dida, do fanho Joel, do elegante meia Rubens  e do supercraque Evaristo de Macedo, a caminho do tricampeonato carioca.

Gestos medidos como se um cronômetro sentimental o movesse, Antônio Soares Calçada fixou-se no jovem absolutamente anormal e procurou o presidente santista, Modesto Roma.

Em sotaque patrício, não se ateve a rodeios:

- Apresento em nome do Clube de Regatas Vaxco d’Gama a proposta por aquele garoto magriço. Estamos dispostos a pagar 1 milhão de dólares.

 Modesto Roma foi educado e sentencial:

 - Aquele vai ser o melhor jogador do mundo e você, como todos que chegam aqui, percebeu. Não é difícil. É uma monstruosidade.  Chama-se Pelé e posso até emprestá-lo ao Vasco. Vendê-lo, nunca nem a ninguém.

O duelo de cobras expunha as lógicas de cada um. Modesto Roma cederia Pelé sem perder a condição de dono, sabendo que o Maracanã amplificaria seu nome e, em um ano, ele voltaria tão pronto quanto saiu do berçário, em Três Corações(MG).

Calçada raciocinava que o empréstimo faria o campeonato carioca de 1956 parecer picolé Napolitano de tão gostoso. Óbvio também que a devolução de Pelé ao Santos representaria a demonização de quem o contratou e Calçada era sócio do Vasco desde os 19 anos.

Exímio negociador, saiu de Santos com um esplendor de talento, longe de um Pelé, um ídolo lembrado pela Velha Guarda: Walter Marciano, responsável direto pela reconquista do Carioca em 1956, num time que fazia o meu pai declamar em voz rouca: Carlos Alberto; Paulinho e Bellini; Laerte, Orlando Peçanha e Coronel; Sabará, Almir, Vavá, Wálter Marciano e Pinga.

Em 1957, o Vasco, ou Walter Marciano,  deu um baile no Real Madrid, melhor time do mundo, com Puskas, Di Stéfano, Gento, Canário e Del Sol. Walter Marciano foi vendido ao Valência(ESP) e morreu em 1961, de acidente de carro, original da tragédia que matou o mago Denner, em 1994.

Antônio Soares Calçada morreu aos 96 anos esta semana e foi o presidente mais vencedor da história do Vasco: deixou na galeria do clube, 17 títulos, no futebol, no basquete e no remo. Venceu todas as eleições que disputou. Sua morte encerra o ciclo dos dirigentes que amavam primeiro para pensar em negócios depois.

Comprou inúmeros craques. Revelou outros tantos. Sempre na contracena, oposto da ribalta, avesso aos holofotes. Sua personalidade era o carisma de uma Bella Époque em que pontificava junto a Francisco Horta no Fluminense e a Márcio Braga, no Flamengo, quando  não havia ódio, no futebol. Multidão, artistas, gols, 120, 150 mil pessoas a cada clássico no Maracanã.

Respeito os mortos. A eles, nenhuma covardia. O sucessor de Calçada foi Eurico Miranda, também falecido em 2019. Nem queria compará-los. É preciso apenas resumir: Calçada era a autoridade silenciosa. Eurico, sua antítese.

Fanatismo
É impossível me colocar no meio de confrarias de adoração a jogadores atuais. No caso local, Wallyson, do ABC.  Vi muita gente melhor e não é ofensa para Wallyson, cujo exagero na adulação nasceu da ausência de concorrência.

Missão
Wallyson, conforme está  previsto na sua tarefa, foi decisivo contra o Ferroviário. Especialmente no primeiro gol. Cercado por cinco adversários, manteve a frieza, procurou e achou o espaço exato para enfiar o passe a Lohan. No segundo, finalizou como os gélidos matadores.

Estelionato 
Ocorre que alguns colegas esquecem, de propósito ou não, que hoje o celular faz imagens até de fantasmas de cemitério norueguês. As jogadas de Wallyson, sim, foram importantes, mas ouvidas após, sem ser vistas, parecem ter sido produzidas por Maradona contra os ingleses em 1986 ou Pelé contra os suecos em 1958. Um exagero brutal.

Produto 
A responsabilidade de quem comunica difere em nada do trabalho do cirurgião que não pode errar. Ainda que as emoções, espontâneas ou não, traiam a verdade, tão machucada por quem deveria formar opinião. É ética, primeira em índoles decentes, o nome do proceder. E ética, a primeira, é miragem.

América
Nada oficial, burburinhos das imediações da antiga Babilônia, sede do América. Uma chapa pode desembocar na eleição para presidente este ano encabeçada pelo empresário Arnaldo Gaspar ,filho, peso-pesadíssimo e com circulação livre em todos os setores da sociedade. O ex-presidente Alex Padang(rejeitado pela aristocracia), seria o vice de futebol. A situação apenas silencia. E ri, de canto de boca.

Mais
Não tem nada positivo  na reta final da Série C. É vergonhosa a presença potiguar entre últimos.




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