De regime político e a malandragem

Publicação: 2020-12-01 00:00:00
Valério Mesquita
Escritor

Corria o ano de 1958. Uma seca braba assolava o sertão. Petronilo, no seu velho Chevrolet gigante, rodava pelas feiras dos municípios da redondeza de Augusto Severo. Velho bonachão, conduzia seus passageiros por todo preço. “Comigo, ninguém fica na mão”, gostava de repetir. Em cima do caminhão era um verdadeiro mercado persa. Misturava-se gente com bode, porco, galinha, etc. A estiagem aumentava, piorando a situação. A população faminta deu início às tentativas de saques aos armazéns do governo, as antigas “Cibrazem”. A polícia fazia piquetes em Assu para coibir o vandalismo forçado pela fome. Os políticos da cidade passaram a culpar Petronilo de transportar tantos retirantes. Alguém comentou: “Petronilo, você carrega todo mundo?”. “É, tendo dinheiro da passagem, uma galinha... eu levo”, desculpou-se. Chateado com a tomada de posição das autoridades, o velho escreveu no pára-choque do caminhão: “Só não carrego puliça”. Para a população, foi uma gozação. Para as autoridades, uma afronta. Certo dia, o delegado foi ter com o caminhoneiro e ordenou: “Ou você raspa esse negócio, ou não entra mais na cidade!”. Petronilo coçou a cabeça e foi embora. Na outra semana, chegou o caminhão. Um soldado foi conferir, a mando do delegado. Estava escrito: “Raspei, mas não carrego”.

02) Ticiano Duarte, jornalista e acadêmico, além de excelente contador de histórias era dono de um repertório formidável. Conversar com ele era redescobrir o tempo e reviver figuras inesquecíveis. Num começo de noite, na calçada da Academia de Letras, vários colegas se reuniram em torno dele. Falava sobre o irrequieto poeta pernambucano Tomás Seixas, que marcou a boemia dos bares recifenses. Em pleno regime revolucionário, impressionado com o relato jornalístico do número de detidos pelos militares, decidiu procurar o quartel para prestar sua contribuição cívica, indigitando subversivos. 

“Quero falar com a Unidade de Informação Secreta, tenho algo importante a revelar”, disse Bebé, como era bastante conhecido, ao oficial de dia do Comando do 4º Exército. Imediatamente foi conduzido à presença do coronel responsável. Ao adentrar no gabinete, em pé, dedo em riste, o poeta logo desembucha: “Vocês estão esquecendo de prender o mais temível e perigoso comunista do Recife!!”. Sentado, o chefe militar de imediato despertou, curioso com a delação espontânea. “Quem é o sujeito?”, perguntou já reunindo à mão alguns papéis sobre o birô. “O poeta Tomás Seixas!”, exclamou o denunciante. Reflexivo por alguns segundos, o coronel informou desconhecer completamente o nome mencionado. Aí, o beletrista boêmio foi mais explicito: “Falo do poeta Bebé!”. “Ah, desse já ouvi falar. É um pobre coitado”, retrucou o militar desconversando sem dar a mínima atenção. Achado desimportante, o poeta pegou um jipão do Exército direto para o bar mais próximo.

 03) Antônio Basílio, de Pendências, acamado, sentia chegar o fim. Uma enfermidade esquisita afetava-lhe a garganta. Medicamentos os mais variados, chás, etc., não melhoravam em nada a situação do ancião. A comida já não passava. O esôfago parecia estreitar-se. Alguém recomendou: “Dê leite materno, que ele melhora”. Uma idosa lembrou: “Isabel de Luiz Pinto pariu e tá dando de mamar”. Trouxeram a lactente, que logo extraiu uma xícara de leite e com a colher de chá colocava na boca do Antônio. A xícara já se esvaziava, quando o moribundo abriu um olho, e, vendo aquela linda mama perto do seu rosto, falou com cara de malandro e não de moribundo: “Num era bom botar o biquinho aqui na minha boca?”.

04) Tertuliano Pinheiro é fã número um dos causos e acontecências folclóricas do nosso mundo e submundo político. Soube recentemente em Patu de um diálogo surpreendente entre um candidato a deputado federal e a irreverente e emblemática Maria Preta, figura popular da urbe patuense. Atraída pelo foguetório, aproximou-se da festiva caravana, tendo à frente o postulante à Câmara Federal Múcio Sá. Maria Preta, useira e vezeira na arte de explorar os políticos, foi logo estendendo a mão. Múcio, sempre sorridente e simpático, abraça-a e lhe entrega uma nota de hum real. A mulher rabugenta e malcriada devolve-lhe sem contemplação, em cima da bucha: “Fique com esse dinheiro deputado e dê pro seu filho comprar pipoca”.






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