De Veríssimo e Dorgival

Publicação: 2017-06-25 00:00:00 | Comentários: 0
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Na gaveta dos papeis desarrumados encontro um envelope com cartas e bilhetes de Verissimo de Melo. Numa delas, o querido folclorista fala de seu encontro com o jornalista e escritor Dorgival Terceiro Neto, paraibano de Taperoá, que foi prefeito de João Pessoa, vice-governador e governador de seu Estado, além de professor de Direito Civil da Faculdade de Direito da Paraíba e imortal da Academia Paraibana de Letras. Nessa mesma carta, Veríssimo refere-se a um cartão que recebera do biblioteconomista e escritor pernambucano Edson Nery da Fonseca. Deixemos o grande Vivi contar tudo isso e outras coisas mais:

“Natal, 24.11.1992

Mestre Woden: meu abraço.

Mando-lhe cópia de carta de um sujeito interessante, que conheci há pouco em João Pessoa: Dorgival Terceiro Neto. Fui apresentado a ele numa sessão do Instituto Histórico da Paraíba. Pensei que ele fosse jornalista ou escritor como todos nós. O homem já tinha sido Prefeito de João Pessoa e ex-Governador da Paraíba. Muito moço ainda.  Veja como ele respondeu à minha impressão quando soube que ele tinha sido um homem importante. Segundo Ulisses Guimarães, “Importante não é, é ter sido”.

Mando também um cartão do Edson Nery da Fonseca que é interessante. Mandei pra ele xerox de uma reportagem sobre um museu de gatos, que existe na Holanda. Ficou radiante. Ele tem oito gatos em casa! – confessa. E ia publicar uma Antologia do Gato na Literatura, mas a editora faliu antes de nascer. Ele adorou aquela estória que Rômulo Wanderley contou na Academia sobre dr. Matias. Um sujeito (uma parte) procurava um processo desaparecido há três anos. Dr. Matias encontrou o processo em sua casa, mas não podia despachá-lo: é que a gata Mimosa, de estimação, estava dormindo em cima do processo! Isto é antológico!

Vai também um bom artigo sobre o meu livro DOS GRANDES, UM POUCO, que Cassiano Nunes publicou em Brasília. Passe-o às mãos de Braguinha, para publicar quando for possível.

Abraço amigo do

Veríssimo de Melo

PS – A estória sobre dr. Matias está o meu livro “Patronos e Acadêmicos”, volume 2. ”


O bilhete de Vivi

Duas semanas depois recebi de Veríssimo um bilhete, manuscrito, datado de 10 de dezembro de 1992:

“Woden: meu abraço.

Aí vai o livro de Dorgival e a ótima carta que escreve a você.

Mando-lhe, também, uma carta surpreendente que recebi de um professor de Pau dos Ferros! Veja como o cara entende de coisas literárias. De todo o Brasil recebi boas cartas acusando o recebimento do meu livro. Mas, que inteligente é essa carta do professor de Pau dos Ferros!

Veja, mais adiante, se transcreve um trecho da carta de Leontino Filho. Aí por esse mundo do sertão há também gente inteligente.

Abraços de Veríssimo de Melo”

A carta de Dorgival

“João Pessoa, 04.12.1992

Colega Woden Madruga:

Mercê da prestimosidade do admirável escritor Veríssimo de Melo, de quem a gente se faz amigo no primeiro encontro, frequentei as páginas de TRIBUNA DO NORTE do dia 29.11.1992, em circunstâncias que me confere prestígio superior aos méritos que pudesse ter. É que o seu jornal, o JORNAL DE WM, reproduziu trechos da carta que enderecei ao mestre Veríssimo, e ele dando conta de que exerci cargos públicos por acaso, porquanto sempre me considerei jornalista.

Guardarei nos meus arquivos o recorte do jornal que Veríssimo me remeteu. Ficará comigo a gratidão que passou a lhe dever pelo honroso destaque com que me distinguiu.

Passando mais de três decênios, ainda convivo com jornais e jornalistas. Aqui, fui redator, redator-chefe, secretário e diretor eventual da velha A UNIÃO. Não fui diretor efetivo porque tinha uma função pública e não podia desvincular-me do seu exercício para me dedicar unicamente ao jornal. Isso foi na década de 50. Carrego a satisfação de ter integrado uma geração de homens e jornal que fizeram escola na Paraíba. A UNIÃO está às vésperas de completar 100 anos, o que acontecerá a 02 de fevereiro de 1993.

Mando-lhe um exemplar de “Gente de Ontem, Histórias de Sempre”, contando reportagens avulsas que escrevi, a primeira em A UNIÃO e as demais e “O NORTE”. Depois dessas, fiz mais doze, que deverão ser inseridas em provável segunda edição do livreto.

Meu agradecimento. Segure aí um abraço de

Dorgival”


O livro 

Gente de Ontem Historias de Sempre foi publicado em 1991. Reúne 17 reportagens onde estão registrados alguns dos acontecimentos mais importantes da história da Paraíba, como a Guerra de Princesa, a passagem da Coluna Prestes, a Revolução de 30, o assassinato do ex-governador João Suassuna, aqui narrado por sua mulher, dona Ritinha Vilar Suassuna. O capitulo tem o título de “Viúva de João Suassuna reconstitui fatos de 1930 e sua longa caminhada”.

Na história da Guerra de Princesa, mundos do coronel José Pereira, capítulo contado a Dorgival Terceiro Neto pelo escritor e jornalista Joaquim Inojosa, tem o envolvimento de um natalense, episódio que pouca gente daqui conhece.  Era estudante de Direito e repórter do Jornal do Commercio em Recife. Ele ajudou na publicação do jornal de a “República de Princesa”, impresso clandestinamente na capital pernambucana. Chama-se Paulo Pinheiro de Viveiros, grande advogado, primeiro diretor da Faculdade de Direito de Natal.

Dorgival Terceiro Neto nasceu em 12 de setembro de 1932, em Taperoá, e morreu em 12 de abril de 2013, em João Pessoa. O seu livro é dedicado a um outro grande paraibano, de coração potiguar: Mário Moacyr Porto.

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