De volta a tese sobre o Descobrimento

Publicação: 2018-05-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

O tema é controverso, mas a Secretaria de Turismo do RN (Setur) resolveu encampar a discussão: afinal, o Brasil foi descoberto aonde, na Bahia, ou no Rio Grande do Norte? O órgão sustenta a relevância do assunto pela existência do Marco de Touros, o mais antigo marco colonial do Brasil, e pelas diversas pesquisas históricas que desde meados dos anos 90 vêm trazendo novos elementos à tona – tendo o potiguar Lenine Pinto como o primeiro historiador a se debruçar sobre o assunto.

O Marco de Touros é o mais antigo monumento que se tem notícia no Brasil. Atualmente o artefato original está no Forte dos Reis Magos, mas deve retornar ao seu lugar de origem, na Praia do Marco, onde foi fincado em 1501 pelos portugueses para atestar a posse do território
O Marco de Touros é o mais antigo monumento que se tem notícia no Brasil. Atualmente o artefato original está no Forte dos Reis Magos, mas deve retornar ao seu lugar de origem, na Praia do Marco, onde foi fincado em 1501

O possível reconhecimento do RN como local onde o Brasil foi descoberto poderia gerar um grande impacto no turismo local, principalmente nas praias do litoral norte. Como a ideia anima o setor, a secretaria tem incentivado debates sobre a questão desde o primeiro semestre do ano passado. Em 2018, já ocorreram debates na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal de Natal. E há dois meses atrás o tema foi impulsionado com o lançamento da campanha #TudoComeçaAqui, que vem direcionando as ações da Setur no tocante a divulgação do RN em eventos e ações turísticas.

Dentro dessa campanha, na terça-feira (8) passada, no Centro de Convenções, o órgão promoveu o primeiro de uma série de quatro debates sobre o Descobrimento. O público-alvo era de guias de turismo – mais de 100 profissionais estiveram presentes. Os outros encontros acontecerão em junho, julho e agosto, voltados para bugueiros, hoteleiros e alunos de cursos relacionados ao turismo. Em setembro, a Setur RN pretende realizar um grande evento nos municípios de São Miguel do Gostoso, Touros e Pedra Grande, os três locais que tem a ver com a história. A proposta desse evento é recontar, de forma cênica, mas com embasamento, a chegada das caravelas portuguesas ao litoral potiguar.

Na palestra de terça (8), falaram sobre a possibilidade do Descobrimento no RN o professor de história e escritor Antônio Holanda, o engenheiro Manoel Cavalcante (autor do livro “1500: de Portugal ao saliente Potiguar”), o português Paulo Gonçalves (navegador e estudioso do tema) e o historiador Marcus Cesar Cavalcanti (autor do livro “O Brasil nasceu juridicamente no RN”).

 Em sua participação, Manoel Cavalcante atentou para o fato de que a História do Brasil foi escrita sem estudos hoje possíveis de serem feitos, estudos náuticos, no caso. Falou também da descoberta de documentos e mapas que antes não se tinha conhecimento, além de informações biográficas sobre os envolvidos nas grandes navegações, o que leva a novas interpretações de suas cartas enviadas ao rei, como a de Pero Vaz de Caminha.

Paulo Gonçalves, economista português que vive no Brasil há 14 anos, fundamentou sua fala nos conhecimentos que adquiriu ao longo dos anos como navegador. Ele reforçou os indícios bastante divulgados sobre as correntes marítimas, que praticamente impossibilitavam a travessia da Europa até a Bahia, e que conduziam, com mais facilidade até a esquina do continente. “Os riscos eram evitados. De uma tripulação imensa, pouquíssimos eram de fato conhecedores náuticos. A maioria do tripulantes era de homens que estavam preso e aceitavam participar da navegação”, argumentou.

O professor de cursinho Antônio Holanda, estudioso do tema, focou sua participação na navegações que aconteceram décadas antes da expedição de Cabral, em 1500. “40 anos antes de Cabral descobrir o país outros navegadores portugueses já haviam passado pela costa brasileira. Essas informações eram mantidas em segredo por uma política de sigilo da época. Havia muita competição entre os países. Aos poucos alguns documentos da época das grandes navegações estão aparecendo”, explicou o professor.

Em contraponto aos outros palestrantes, o pesquisador Marcos Caetano acredita que não dá para se falar de descobrimento no RN porque não há provas, só indícios. Nesse sentido, ele acha mais importante a questão da posse. “A questão do descobrimento é baseada muito em hipóteses, como a das correntes marítimas, de vento. O que temos de documento é a carta de Vaz de Caminha. E com relação a essa cartas muitas coisas são contraditórias sobre o descobrimento ter sido ou não no RN”, contou ao VIVER, antes da palestra.

“Todo esse debate, acredito que não vá gerar uma revisão histórica. Acho muito frágil os argumentos. E acho que poderemos cair num ridículo descrédito ao defender isso fora daqui. Mais importante do que se tentar provar o descobrimento no RN, é se assumir a questão da posse. Essa é uma coisa real. O Marco de Touros está aí. Nesse sentido, o mais o importante para nós potiguares é defender que o Brasil nasceu juridicamente aqui”, comentou Marcos Caetano.

Na UFRN tema não desperta interesse
Na UFRN o tema do Descobrimento no RN parece não despertar muito interesse dos professores. Segundo a professora Aurinete Barreto, vice-coordenadora do curso de História, com exceção de um ou outro estudante da graduação que abordou o assunto na monografia, nade de recente foi feito. “Desconheço qualquer seminário promovido nos últimos anos sobre essa questão, nem pesquisas de professores. O tema é mais estudado fora da UFRN. O professor Kokinho (Luís Eduardo Suassuna) e o historiador Lenine Pinto são estudiosos antigos desse assunto”, disse Aurinete.

IHGRN forma comissão para estudar o assunto
Se na UFRN não há interesse, no Instituto Histórico e Geográfico  do Rio Grande do Norte (IHGRN) a possibilidade da expedição de Cabral ter aportado em solo potiguar entrou na pauta. Uma comissão formada por historiadores sócios da casa foi aberta nesta semana para esmiuçar o assunto à fundo. Participam da comissão os pesquisadores Cláudio Galvão, Kokinho, Levy Pereira, Felipe Trindade, André Felipe Pignataro, Tânia Maria e Ormuz Simonetti. A meta é apresentar um relatório final após dois anos de estudos.

“É a primeira vez que o IHGRN trata do tema. Há muitas interrogações e nosso objetivo é acabar com alguns achismos. Nosso fim é unicamente histórico”, comenta Ormuz, presidente da instituição. “Vamos partir de dois pontos. Tudo que a história diz sobre o descobrimento ter sido na Bahia e tudo que existe sobre ter sido no RN. Há muitas evidências, cartas náuticas, pesquisas soltas. Queremos reunir todo esse material para encontrar respostas”.

Marco de Touros deve retornar ao seu local de origem
O mais antigo monumento que se tem notícia no Brasil, o Marco de Touros, deve retornar ao seu lugar de origem, na Praia do Marco, em Touros, onde foi fincado em 1501 pelos portugueses para atestar a posse do território então recém-descoberto. Em entrevista ao VIVER, o diretor interino da Fundação José Augusto, Iaperi Araujo, comentou sobre essa intenção. “Há uma proposta para levar o Marco de Touros, que atualmente está exposto no Forte, para retornar à praia de origem, mas fixando-o em local seguro, dentro da cidade”.

O que
A tese sobre o Descobrimento pelo RN está registrado em livros de autores locais: “Reinvenção do Descobrimento” (1998), de Lenine Pinto; “Ainda a questão do descobrimento” (2000), de Lenine Pinto; “O mando do mar” (2015), de Lenine Pinto;

“1500: de Portugal ao saliente Potiguar” (2018), de Manoel Neto; “O Brasil nasceu juridicamente no RN” (2007), de Marcus Cesar Cavalcanti;

“Arraial do Marco: nosso Porto Seguro” (2014), de Tânia Maria da Fonseca Teixeira


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