Dedos sujos

Publicação: 2019-12-01 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Não culpemos o belo e exuberante país tropical no qual vivemos há quinhentos anos só porque os seus viventes, alguns deles e algumas vezes, são criativos na invenção de seus heróis mambembes. Este ‘patropi’ que Simonal cantou cheio de suingues no balanço gingado tem seus Jecas Tatus e seus Macunaímas, mas, no fim, entre espertos e sabidos, acaba retratando-se a si mesmo, cumprindo aquela sina dos degradados filhos de Eva, como está escrito no Gênesis.

Ora, se a todos bradamos a nossa história oficial, tão bem arrumada por nossas próprias elites intelectuais, nem por isso os arranjos ficam para sempre escondidos no fundo do mar como desejam. A verdade, mesmo se pesada, um dia se desprende do lodo e flutua revelando as suas flores apodrecidas no molho das conveniências. A operação Lava Jato, ainda que reconheçamos os excessos, é bem uma prova do outro mundo que estava submerso e agora surge e revela-se. 

O protagonismo dos que fizeram o que fizeram, para cair na redundância, no exercício dos podres poderes - como denunciam os versos da canção popular - demonstra que não foram apenas realces de euforia e entusiasmo. A ambição desvairada acabou levando aos olhos da opinião pública alguns dos líderes políticos e empresariais mais proeminentes, engrossando as águas de um mar de lama sob o espanto de uma sociedade que sequer foi capaz de imaginar.

Chegamos a um ponto de estrangulação, garroteados pela corrupção, que é impossível saber quem pode ser o carrasco de quem, se políticos e empresários, na mesma intensidade, estavam aliados e cúmplices dos mesmos crimes. Alguns deles, atores patéticos, como no caso de Eike Batista que perdeu até o direito de na prisão usar a peruca que lhe escondia a calvície. Enquanto outros, como o deputado Eduardo Cunha, vendeu-se como paladino da moralidade. 

Nada nos faltou no palco da tragicomédia que levamos aos palcos de todo o país. Nem mesmo as dezenas de malas de reais e dólares do ex-deputado Gedel Vieira. Nem Molière, o gênio das Preciosas Ridículas da dramaturgia clássica francesa, chegou a tanto. Somos o que somos. Até o cumprimento da lei, em razão dos desmazelos de alguns dos seus operadores, não ficou livre das manobras macunaímicas de acusadores tristemente fantasiados de justiceiros. 

Não está só nos despautérios de Lula e Jair Bolsonaro a raiz da divisão que partiu o país ao meio. Eles apenas polarizam aproveitando-se de um caldo de cultura favorável ao papel dos heróis de araque. Não atuariam com tanta desenvoltura se não fossem facilmente possíveis as fraudes, as rasuras e os crimes. Lá e aqui, como recentemente ficou comprovado por decisão da Justiça. Pregando no bestunto desses heróis feitos à meia-sola as digitais dos seus dedos sujos. 

Creia
Tem hoje quem aposte que o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves não acredita e, pior, não apoiará a candidatura de Hermano Morais. O que deixa o deputado no mato sem cachorro.

Aliás
Se isto vier a acontecer, só demonstra o que os políticos dizem a respeito de Alves: depois de governar Natal 12 anos o ex-prefeito não fez e não lidera um grupo. Só a ele mesmo.

Zebra
O ‘Irmão Heriberto’, do Partido Solidariedade, pode pintar como a zebra nas eleições para prefeito de Ceará Mirim no próximo ano. E ocupar o velho e senhorial casarão Antunes. 

Centro
Ninguém mais duvide: o Museu da Segunda Guerra, em Parnamirim, será o grande point pelo acervo de quase quatro mil peças e seus pesquisadores. Será o novo marco do turismo.

Erro
O que comprova a falta de sensibilidade do trade oficial, do Governo ao fechar suas portas para ser só um museu virtual e centro de turismo receptivo. Para gáudio de alguns poucos. 

Brilho
O editor Abimael Silva disse mais uma fez a que veio e acaba de editar um grande ensaio do crítico Francisco Ivan: “Um Ensaio, dois poetas: Caviedes e Gregório de Matos”.

Mais
Como se não bastassem as 330 páginas do ensaio, o Sebo Vermelho lança a segunda edição de “Anfion”, de Paul Valéry, numa tradução de Francisco Ivan. E numa edição bilíngue. 

Ube
Impressa, capa de Newton Navarro, a antologia de prosas e versos da União Brasileira de Escritores, a UBE/RN. Agora falta só marcar a data para um lançamento festivo. E já é tempo. 

Reação
Um leitor, muito objetivo, mas bem contido, protesta contra a afirmação feita aqui de que a UFRN é hoje a instituição mais importante e melhor preparada, mas que se deixou transformar numa gigantesca repartição naquele modelo cumpridor dos ofícios e expedientes. 

Como
É facílimo demonstrar e nem precisa de tecnologia avançada. A UFRN abriu mão, por puro e lamentável comodismo, de ser a perfeita caixa de ressonância e reflexão das grandes questões da sociedade que a mantém. Caiu na teia estéril dos organogramas e fluxogramas.  

Efeito
O comodismo reduziu a importância da instituição, empobreceu o protagonismo que legitimamente poderia exercer e até amesquinhou uma força de avanço que teria condições de disparo. O furor obreirístico, filho do complexo de vira-lata, só a fez passiva e assistencialista.



continuar lendo


Deixe seu comentário!

Comentários