Deduções Intencionais

Publicação: 2020-04-01 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

Em São Paulo, o advogado João Hélder Cavalcante dialogava com a sua esposa Lígia Godói, que faz mestrado na Paulicéia, sobre determinado assunto jurídico que pelejava no fórum. Diógenes da Cunha Lima, amigo do casal, testemunhava a discussão: “Mas João, você não pode fazer isso com aquela mulher. Ela é perigosa”, exclamou aflita a esposa temendo alguma represália. Aí veio a resposta socrática, positivista e por que não dizer poética do renomado causídico: “E qual é a mulher que não é perigosa?”.

02) No campeonato de futebol interiorano, o famoso matutão, surgiu um craque fenomenal chamado De Ran, artilheiro, malabarista, marcava gol em todas as partidas. Logo foi descoberto pela mídia. Com o nome esquisito, atípico, de De Ran, a crônica esportiva passou a pesquisar a origem do ídolo. Seria de Macau, de Nova Cruz ou da pequenina Vera Cruz, conforme se especulava? No final de um clássico matutês, Nova Cruz versus Macau, De Ran foi assediado pelos jornalistas. Franzino, baixinho, albino a ponto de brilhar à luz do sol, recebeu como uma tijolada a interpelação de um repórter: “De Ran, você é descendente de franceses? Qual a sua nacionalidade afinal?”. Sem entender bulhufas, o jovem atleta mostrava-se atordoado. Aí veio a pergunta intangível: “Seu nome vem de onde?”. De Ran, cansado pela partida recém-disputada, explicou com humildade: “Não, desde menino, a turma me chama de “cu de rã”. Aí seu Jonas que era o dono do time, achou por bem tirar o cu e ficou só De Ran com o nê no final. É só isso”. Com essa confissão nada mais lhe perguntaram. De Ran era mesmo jogador de várzea de açudeco.

03) “Piancó” era o apelido do funcionário da Rede Ferroviária Federal, lotado em Angicos. Quando queria, tornava-se o maior contador de lorotas das redondezas. Num papo animado o assunto era caçada. Piancó saiu-se com uma história de arrepiar os cabelos: “Menino, nesse fim de semana, eu fui caçar e matei cento e vinte preás em menos de duas horas”. A platéia, como não poderia deixar de ser, se entreolhou estarrecida. “Menino”, continuou, “era só pam, pam, pam, pam e os preás ficando”. O Dr. Jorge Ivan que não é o Cascudo mas dentista e vereador angicano, resolveu entender o mistério dessa matança e interrogou: “E esse bate-bucha (espingarda) você não carregava não?”. Sério, compenetrado, Piancó respondeu: “Não doutor, não dava tempo não...”.

04) O monsenhor Humberto Bruening, vigário de Mossoró até o último dia de vida, era amado e respeitado por todos. Como descendente germânico, herdou o jeitão de “ouvir muito e falar pouco”. Certa feita, observava o trabalho que um pedreiro seu contratado fazia no altar-mor da catedral. O servente foi chegando com argamassa e disse: “Padre Humberto, só se fala no ouro de Serra Pelada”. E, depois, de rápida pausa: “Eu tô pensando, agora no final do ano, me casar e ir embora pro Amazonas. O que o senhor acha?”. Padre Humberto no alto dos seus dois metros de altura e 70 anos de experiência, alfinetou: “Você vai fazer duas bostas de uma vez só”. Assim mesmo o monsenhor fez o casório e não cobrou nada.

05) Francisco Santos, de João Câmara, conhecido por “Chico Goleiro”, era antes de tudo um paredão debaixo da trave. Chico fazia um show à parte: deixava a bola passar e pegava a pelota já nas costas. “É só pra dar suspense no torcedor”, explicava. Certo dia, aconteceu um pênalti. Chico se balançou na sua “cidadela”. O adversário bateu a penalidade. O goleiraço agarrou a bola e a entregou na mão do batedor, dizendo: “Bata de novo! Esse é por minha conta”. O juiz da partida ficou sem entender. Chico defendeu novamente e saiu nos braços da galera.