DEM declara 8 de 29 votos em Baleia

Publicação: 2021-01-28 00:00:00
A cinco dias da eleição na Câmara, somente oito dos 29 deputados do DEM declaram voto em Baleia Rossi (MDB-SP), mostra o “placar do Estadão”, confirmando o racha interno na legenda. Oficialmente, a sigla do presidente da Casa, Rodrigo Maia, integra o bloco de apoio ao emedebista.

Créditos: ARQUIVO/TNBaleia Rossi é candidato a presidente da Câmara com apoio de Rodrigo MaiaBaleia Rossi é candidato a presidente da Câmara com apoio de Rodrigo Maia

Pelo levantamento, outros oito deputados da sigla declaram voto no rival de Baleia, Arthur Lira (PP-AL), candidato apoiado por Jair Bolsonaro – 12 não quiseram responder em quem vão votar e 1 parlamentar não foram encontrado. O índice de “fidelidade partidária” do DEM alcança só 27%, com base no placar Estadão. A eleição está marcada para o dia 1º, e o voto é secreto.

Créditos: ARQUIVO/TNArthur Lira é candidato a presidente da Câmara com apoio de Jair BolsonaroArthur Lira é candidato a presidente da Câmara com apoio de Jair Bolsonaro

A adesão dos deputados baianos à candidatura de Lira, como mostrou o Estadão, expôs a divisão interna na sigla – o grupo dissidente, com medo de perder cargos no governo federal, é comandado pelo presidente nacional do partido e ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Responsável pela escolha de Baleia, Maia afirmou que sigla pode pegar pecha de ‘partido da boquinha’.

No entanto, parlamentares que já se reuniram com Lira evitam afirmar publicamente o apoio. É o caso, por exemplo, de Paulo Azi e Igor Kannário, ambos representantes da bancada baiana, toda fechada com o candidato do presidente Jair Bolsonaro.

A investida de Bolsonaro para emplacar Lira no comando da Câmara deve render ainda mais votos do DEM ao candidato do Planalto. Isso porque os ministros Onyx Lorenzoni (Cidadania) e Tereza Cristina (Agricultura), ambos da sigla, serão exonerados para retomar seus mandatos e votar no dia 1º de fevereiro. Eles substituirão parlamentares do PSL (que já apoia Lira) e do PSDB, ainda indeciso.

Ontem, Bolsonaro recebeu cerca de 30 deputados do PSL para um café da manhã comandado por seu filho Eduardo, que continua filiado ao partido mesmo depois da saída do pai. Durante o encontro, o presidente disse: “Vamos, se Deus quiser, participar e influir na presidência da Câmara com esses parlamentares”.

A bancada de deputados baianos do DEM declarou apoio a Arthur Lira (Progressistas-AL) na disputa à presidência da Câmara. O grupo dissidente é comandado pelo presidente nacional do partido e ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Oficialmente, o DEM integra o bloco de apoio a Baleia Rossi (MDB-SP) na eleição na Casa. Há movimentos semelhantes no PSDB a favor do líder do Centrão e candidato do presidente Jair Bolsonaro.

Herdeiro do carlismo, oligarquia comandada na Bahia pelo avô e então senador Antonio Carlos Magalhães (1927-2007), o atual presidente do DEM procurou se projetar, nos últimos anos, como um nome da renovação política. A legenda, em seu conjunto, chegou a se afastar do bloco do Centrão e fugir das marcas do clientelismo e do fisiologismo, especialmente da troca de apoio ao Palácio do Planalto por cargos e emendas.

Ao mesmo tempo, o movimento de ACM Neto a favor de Lira estremeceu a relação com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que apoia a candidatura de Baleia. Num encontro ontem no Palácio da Cidade, sede da prefeitura do Rio, Maia relatou que ouviu de um empresário que a legenda corre o risco de ganhar o apelido de "partido da boquinha".

A uma pergunta do Estadão sobre a análise do empresário, Maia disse discordar do comentário. "Eu não concordo. Conheço a bancada do DEM, sei que alguns têm amizade com Arthur, eu entendo, mas conheço a postura dos deputados e do presidente do partido", afirmou. "A gente não pode deixar que a disputa gere desgaste para o partido que saiu mais forte das eleições municipais." Maia atribuiu a dissidência a uma tentativa da candidatura governista de criar "conflito". Nos cálculos dele, Baleia deve ficar com 22 dos 32 votos do DEM. Ontem, o emedebista visitou o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), que reafirmou o apoio de seu partido à candidatura de Baleia.

No PSDB, a dissidência também passa pela manutenção de cargos. Um dos presentes ao almoço pró-Lira foi Adolfo Viana (BA), padrinho de Lucas Lobão, presidente na Bahia do Dnocs. O chefe da Sudene, Evaldo Cavalcanti da Cruz Neto, é cunhado do deputado Pedro Cunha Lima (PSBD-PB), filho do ex-senador Cássio Cunha Lima (PSDB). Pedro defende a vitória de Lira e tem dito que não seria interessante ao País que a oposição controlasse a Câmara. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Na disputa voto a voto, a expectativa é que o pleito entre Lira e Baleia possa ser definido em segundo turno. Para se tornar presidente da Câmara será necessário obter 257 votos. O placar do Estadão mostra nesta quarta vantagem para Lira, que soma 203 votos declarados à reportagem. Baleia tem 123 e um total de 151 deputados não aceitaram abrir o voto.

Além de Lira e de Baleia, outros sete parlamentares se apresentaram como candidatos: Alexandre Frota (PSDB-SP), Luiza Erundina (PSOL-SP), Capitão Augusto (PL-SP), Marcel Van Hattem (Novo-RS), Fábio Ramalho (MDB-MG), André Janones (Avante-MG) e General Peternelli (PSL-SP).

Bolsonaro xinga imprensa por caso do leite condensado
O presidente Jair Bolsonaro reagiu ontem com xingamentos à imprensa às críticas pelo gasto de R$ 15 milhões com leite condensado por órgãos da administração federal no ano passado. Os ataques foram feitos durante almoço com ministros, aliados e cantores sertanejos em uma churrascaria de Brasília. "Quando vejo a imprensa me atacar dizendo que comprei dois milhões e meio de latas de leite condensado, vai para a puta que o pariu, imprensa de merda! É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa essas latas de leite condensado", disse Bolsonaro ao microfone em discurso para os convidados.

A churrascaria foi fechada para receber o grupo, mas um vídeo com as declarações do presidente foi divulgado pelo assessor especial da Presidência da República, Tercio Arnaud, na plataforma Telegram. "Não é pra Presidência da República essa compra de alimentos, até porque nossa fonte é outra. (É) Alimentação de 370 mil homens do Exército, (para) programas de alimentação do Ministério da Cidadania, do Ministério da Educação...", afirmou.

Dos R$ 15 milhões, cerca de R$ 14 milhões foram gastos para os militares. Em nota, o Ministério da Defesa afirma que o leite condensado é um dos itens que compõem a alimentação por seu potencial energético. "As Forças Armadas têm a responsabilidade de promover a saúde da tropa por meio de uma alimentação nutricionalmente balanceada, em quantidade e qualidade adequadas, composta por diferentes itens", disse a pasta, que também justificou a compra de chicletes como forma de manter a higiene bucal dos militares na impossibilidade de escovação.

A despesa com leite condensado e outros gêneros alimentícios foi divulgada no domingo pelo site Metrópoles. Ao todo, a administração federal - que inclui de ministérios a autarquias vinculadas ao Executivo - gastou R$ 1,8 bilhão no ano passado com este tipo de compra. As reportagens sobre o assunto citavam que o valor se referia a todos os órgãos do governo, e não apenas ao presidente, como disse Bolsonaro.

Maia critica influência no Congresso
Após o presidente Jair Bolsonaro deixar clara sua intenção de influenciar na disputa pela sucessão na Câmara, o atual presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que essa intervenção deixará "sequelas". Para o deputado, Bolsonaro quer fazer do Parlamento um "anexo" do Palácio do Planalto. Maia afirmou que o governo está usando a eleição no Congresso para formar uma maioria na base de pressões, ameaças, cargos e emendas.

Na sua avaliação, as promessas feitas a deputados em troca de apoio a Arthur Lira (Progressistas-AL) não poderão ser cumpridas, pois não há espaço fiscal no Orçamento. "É um alerta aos deputados e deputadas. A intenção do presidente é transformar o Parlamento em um anexo do Palácio do Planalto, o que enfraquece o mandato de cada deputado e deputada e, principalmente, o protagonismo da Câmara dos Deputados nos debates com a sociedade", disse o presidente da Casa.

Mais cedo, após se reunir, em um café da manhã com deputados do PSL no Palácio da Alvorada, Bolsonaro disse esperar ter influência na eleição para o comando da Câmara dos Deputados. "Vamos, se Deus quiser, participar e influir na presidência da Câmara com esses parlamentares (do PSL), de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil", destacou.

Na reta final das eleições na Câmara, marcadas para 1.° de fevereiro, Bolsonaro intensificou a campanha por Lira. Na sexta-feira, promoveu um café da manhã com parlamentares da bancada ruralista, grupo que Bolsonaro cobrou para que apoiasse o líder do Centrão.

Maia considerou a manifestação do presidente como prova de que a Câmara precisa de um candidato que dialogue e atue com independência. "Que tenha equilíbrio como Baleia (Rossi, do MDB-SP), que não seja de oposição ao governo, o que o Baleia não é, mas que entenda que o Parlamento é um outro Poder", declarou o deputado.

Ainda de acordo com o presidente da Câmara, a formação de maioria no Congresso não pode se dar da maneira como o governo está fazendo. "Uma coisa é formação de uma base, e com essa base você governa com os partidos que fazem parte dessa base. Outra coisa é você ser minoritário na Casa, como é o governo, e tentar formar uma maioria na base da pressão, na base da ameaça, na base de troca de emendas."

Segundo Maia, o governo já teria se comprometido com o pagamento de emendas fora do Orçamento no valor de R$ 20 bilhões. "Cada dia que passa você vê, as pessoas vão vendo que vão acabar sendo enganadas nesse toma lá dá cá. Vai ser um problema grave se por acaso eles vencerem a eleição. R$ 20 bilhões extraorçamentários é uma promessa que o governo e seu candidato não têm nenhuma condição de cumprir."