“Demoramos a fazer ajustes em prol do crescimento”

Publicação: 2013-09-01 00:00:00
»entrevista» Adriano Sarquis - economista, diretor de estudos econômicos do Instituto de Pesquisa e Estratégica Econômica do Ceará (IPECE)

Sara Vasconcelos
- Enviada a Fortaleza

Puxado pelo consumo das famílias e sem a preocupação em promover reformas e investimentos em infraestrutura necessários para potencializar e melhorar a competitividade, o Brasil pisa no freio frente a alta da inflação, juros reajustados e câmbio elevado. No Nordeste os impactos podem ser maiores, diz o economista e diretor de estudos econômicos do Instituto de Pesquisa e Estratégica Econômica do Ceará (IPECE), Adriano Sarquis. “A região está sempre à reboque das políticas nacionais, porque não temos uma política regional”, analisa ele, que defende a necessidade da região investir maciçamente em educação e tecnologia para reverter desigualdades espaciais e sociais. O economista foi relator no painel estratégias para o desenvolvimento do Nordeste, no Integra Brasil – Fórum Desenvolvimento do Nordeste no Brasil e no mundo, realizado nos dias 27, 28 e 29 de agosto, no Centro de eventos de Fortaleza, no Ceará. O evento, que reuniu gestores, acadêmicos e empresários de diversos segmentos econômicos, teve como objetivo criar um plano estratégico de desenvolvimento regional para pautar a agenda das eleições presidenciais. Confira a entrevista.

Na conjuntura nacional de de alta de inflação, juros reajustados e câmbio disparado, qual a projeção para o crescimento da economia no Nordeste?
O Nordeste reflete o padrão de crescimento da economia nacional. Muitas vezes, o impacto de políticas restritivas como essas adotadas pela governo federal tem esse impacto mais significativo em áreas mais pobres, do que mesmo em áreas consideradas mais ricas, cuja dinâmica depende menos do papel do Estado. Como o Nordeste tem uma dependência muito forte da, um influencia grande da União, as políticas como redução dos gastos públicos, de redução dos aumentos salariais, com várias categorias negociando diante do setor público e não tendo esse aumento que poderia influenciar o consumo, reduzir o poder de consumo, isso desacelera a economia regional. E esse contexto atual de ajuste macroeconômico que o país passa até como reflexo ainda da crise internacional, na Europa há economias que não crescem e  nos Estados Unidos começa a se ver uma retomada agora, influenciada pelo setor industrial, setor manufatureiro,  mas esses impactos tem uma proporção  maior na economia do Brasil e do Nordeste.
Adriano Sarquis Bezerra de Menezes é economista, doutor em Economia da Indústria e da Tecnologia e professor de economia da UNIFOR
Por que aqui é maior?
Nós demoramos a fazer os ajustes necessários para manter o crescimento razoável da economia. Prova disso é que estava projetado crescimento de 4% e não chegaremos sequer a 2,5% de crescimento esse ano. É um cenário conjuntural de desaceleração econômica. O câmbio subiu bastante e tem influência na questão de custo das importações e rebatimento da inflação. E como o governo tem uma preocupação com a inflação haver o aumento da taxa de juros, na reunião hoje (quarta-feira) do Copom, e deve desestimular os investimentos privados.  Quando tem uma elevação dos juros não ocorre somente um rebatimento da dívida pública, dos gastos públicos, mas também na perda de investimentos.

Isso reflete também na redução no potencial de consumo, maior endividamento?
Sim, há redução. E esse é um outro ponto importante que você puxou que é o consumo das famílias. Porque o crescimento econômico vinha sendo muito puxado pelo lado da demanda agregada, que na linguagem dos economistas é a equação onde  o produto interno bruto PIB é igual ao consumo mais investimentos mais gastos mais o saldo da balança comercial. E no caso do Brasil que é consumo das famílias e os gastos públicos que puxavam a economia. Então, não houve preocupação anos atrás em quais seriam as reformas necessárias para o país, quais os investimentos em infraestrutura seriam necessários para potencializar e melhorar a competitividade.

E quais os prejuízos gerados com essa “desatenção”?
Nós perdemos produtividade e competitividade. A capacidade dos fatores de produção em melhorar essa competitividade e isso envolve os trabalhadores, com mão de obra mais qualificada, que a gente avançou mas ainda foi pouco, e estamos atrasados em educação e inovação, o que afeta diretamente as regiões mais pobres. Quadro é preocupante. E acentua as desigualdades sociais regionais. Não podemos pensar uma solução para amenizar, eliminar essas desigualdades sociais sem investir mais em inovação, que no Nordeste ainda é baixíssimo, menos de 7%. esses são fatores ligados a melhoria da produtividade e competitividade do Nordeste, que é quem mais precisa avançar nesse setor, por que é também onde há mais pobreza.

Quais os desafios para alavancar a economia e reduzir a pobreza?
Educação hoje é o maior desafio do Nordeste, quando se melhora o nível educacional da população, amplia a renda a qualificação, aumenta a produtividade, a renda e reativa a economia. Outro desafio fundamental para amenizar essa desigualdade social é combater a desigualdade espacial. No Nordeste, há 10% dos municípios que concentram 80% do PIB regional. Ou seja dos 1,7 mil municípios  cerca de 180 com a riqueza, enquanto cerca de 1,5 mil cidades não tem base econômica.

E se sustentam em que esses municípios?
E vivem de que? Vivem de comércio e em decorrência da transferência de renda.

Dos programas sociais do governo federal?
Sim, vivem do Bolsa Família. No dia em que o governo reduzir a transferência de renda e as aposentadorias rurais. O setor industrial do Nordeste não provoca mudanças estruturadoras, quando se tem uma indústria automobilística ou uma refinaria, isso vai estimular uma gama de outros setores. Mas as indústrias tradicionais que chegam ao Nordeste, como a têxtil, de confecções, de calçados, que são as atraídas por essas políticas fiscais não têm esse poder transformador. Não criam encadeamento.

O que é necessário para atrair novos segmentos de indústrias para a região?
Nós não temos hoje condições de atrair as indústrias de base tecnológica, porque não tem mão de obra qualificada e investir em infraestrutura. Aqui, no Ceará mesmo, estamos complexo portuário do Pecém que está atraindo muitas  empresas do setor metal-mecânica, com usinas siderúrgicas e demais agregadas, e não temos engenheiros suficientes para atender a demanda das empresas que estão se instalando. A mão de obra qualificada vem de fora, inclusive do Rio Grande do Norte, mais especializadas na indústria do petróleo. Então são dois pontos: a distribuição industrial que está concentrada em algumas áreas e a segunda é a distribuição de pessoal, que é desigualdade  de renda, com o 1% dos mais ricos com 34 vezes de renda dos 50% mais pobres da população. É um outro fator de estrangulamento. Não se pode pensar em ampliar mercados. Mas já houve melhoras no aspecto de coeficiente concentração de renda, que é medido pelo indicador de Gin, que mostra que aqui no Nordeste deve estar em 0,6% - quanto mais próximo de 1 mais concentrada é a economia. E  essa concentração se reflete no âmbito social também, como no aumento da criminalidade, de miséria.  O governo deve pensar políticas para mitigar essa concentração espacial e pessoal.

A taxa de crescimento da economia no Nordeste é acima da média nacional nos últimos anos, isso deve se manter? Haverá retração? Como uma política regional ou a falta dela se reflete nisso?
Entre os anos de 2000 até agora, quando se têm as instituições todas fragilizadas, o BNB, a Chesf e outras, o Nordeste cresceu mais que na década de 1990, quando provavelmente as instituições estavam mais estruturadas. E esse crescimento pode levar ao argumento de para quê precisamos das instituições, se conseguimos crescer mais? Se sem o Estado conseguimos crescer mais? Para quê uma política regional? E isso é uma falácia. E um pensamento arriscado. O Nordeste crescer 2 pontos percentuais a mais do país e gerar essa euforia, mas vai levar muito tempo para atingir a média de renda per capta nacional. A região que hoje responde por 13,7% de toda a riqueza gerada no país e metade da renda per capta do país. E isso não é um desafio de natureza exclusivamente econômica, como também  passa pela questão política institucional. E a nossa representação é fraca, a nossa bancada do Nordeste no Congresso Nacional  é fragilizada. Faltam cabeças pensantes. Lideranças capazes de propor projetos inteligentes, políticas públicas inteligentes. E a região está sempre a reboque das políticas nacionais porque não temos uma política regional.

Que pontos devem ser contemplados no plano estratégico de desenvolvimento do Nordeste que será elaborado nesse Fórum do Integra Brasil?
Nesse aspecto, o Integra Brasil vem em uma hora excepcional e conseguiu mobilizar representantes de todos os estados do Nordeste. E deverá sair um projeto legítimo do Nordeste, pensado pelo e para a região. O que falta agora é mobilizar a classe política para o debate, para construir políticas públicas inteligentes e mais eficientes para que a região possa se aproximar mais do eixo nacional de desenvolvimento. 

Nesse contexto, como o senhor avalia a mudança no papel da Sudene hoje focada em planejamento, isso prejudica os Estados?
A Sudene ela tem um papel fundamental ainda. Não no padrão dos anos 50, quando ela tinha a função executiva e eu acredito que este não deve ser o papel dela e sim de planejamento, sobretudo pensar no longo prazo. Onde queremos chegar daqui a 30 anos. Mas ela não tem hoje expressão política nacional, não tem visibilidade, não consegue sequer mobilizar os governadores do Nordeste, falta essa força política à Sudene para propor e implementar as ações e projetos próprios. Nesse federalismo que se conseguiu maior autonomia para estados e municípios, ela pode funcionar na articulação. Enxergar o Nordeste de forma mais diversificada e tentar dinamizar todos os espaços, numa visão macroregional. E não ter o ceará pensando só no seu estado, o Rio Grande do norte que tem um potencial enorme pensando só em si, mas pensar a região.

Como a seca prolongada do último ano, que afetou vários setores da economia, contribui para essa desaceleração?
A seca tem um fator interessante. Se analisarmos a participação do agronegócio no PIB se percebe que é baixa, algo em torno de 5 a 6%. A industria tem 25% e o resto é serviço. Mas apesar da baixa participação no PIB, o setor do agropecuário tem uma taxa de ocupação de 28%, mas em agricultura de subsistência, ou seja, esse é um setor de baixa produtividade. E poderia melhorar a qualidade da ocupação no setor e com isso melhorar a renda. Educação é a base de todo desenvolvimento. Não adianta investir em irrigação se não der condições para o pessoal trabalhar com essas tecnologias.

*Viajou a convite do evento.