Depressão na quarentena: como lidar?

Publicação: 2020-09-06 00:00:00
Marihá Lopes
Psicóloga clínica, especialista em terapia cognitiva comportamental e psicologia social

Muitas pessoas estão preocupadas com a pandemia da Covid-19 e com a alteração da rotina proveniente da necessidade de quarentena. Tal preocupação é sim necessária, afinal, estamos passando por algo muito sério. Precisamos modificar alguns hábitos de higiene e convívio para conseguir enfrentar com sucesso e diminuir nossos riscos.

É esperado que muitas pessoas apresentem sintomas de ansiedade e/ou depressão durante esse processo. Junto com os sintomas, vem também alguns pensamentos automáticos negativos: “será que terei que ficar em quarentena?”, “não vou aguentar passar por tudo isso”, “acho que não irei sobreviver”, “o que será de nós?”, “isso nunca vai acabar”, etc.

Nesse momento precisamos prestar atenção em alguns pontos, com o objetivo de nos regularmos emocionalmente e com isso conseguir seguir em frente nesse combate. Um ponto importante é tentar ao máximo manter uma rotina de trabalho ou estudo. Não estamos de férias, então não podemos nos comportar como se estivéssemos, mas também é necessário tirar um momento de descanso.
Para os que sofrem com transtorno de ansiedade é importante sempre validar sua emoção. Entenda que é uma resposta humana diante da situação e não se sinta mal por isso. Da mesma maneira que você tem o direito de se sentir ansioso, também tem o direito de colocar a situação em perspectiva. Refute os pensamentos com dados reais!

Mantenha uma rotina semanal, trabalhe e estude. Não se entupa de informações. Se elas fazem mal para você, diminua o acesso a elas. Mantenha contato com amigos e familiares, crie grupos online, faça chamadas de vídeo para estreitar os laços. Faça atividade física; hoje a tecnologia nos possibilita ter acesso a muitas aulas de forma gratuita. Organize sua casa, organize sua rotina, faça listas do que fazer diariamente – cuidado com a procrastinação, esse é o momento para iniciarmos tarefas que estavam sendo deixadas de lado. Não beba em excesso. Disponha-se a ajudar quem esteja precisando de suporte. Afinal, estamos todos juntos.

Quem sofre de transtorno depressivo pode se sentir mais pessimista, triste e desesperançoso durante esse processo. Sabemos que os pensamentos depressivos possuem alguns vieses na forma como pensamos. É como se o tempo todo a pessoa usasse um óculos escuro, logo, tudo a sua volta não terá cor. Mas nós podemos retirar esses óculos para perceber que algumas vezes superestimamos algumas situações e subestimamos nossa capacidade de enfrentar essas situações.

Nesse momento, precisamos ser mais realistas, entender que algumas pessoas irão morrer sim, mas isso não significa que todas as pessoas estão fadadas a isso. Manter pensamentos catastróficos só ajudará a piorar o quadro depressivo.  Algumas pessoas acreditam que estão completamente desamparadas. O ideal é manter contato com pessoas queridas, participar de grupos online, fazer atividade física, participar de aulas compartilhadas pelas redes sociais. Agora é a hora de focar no que podemos fazer, em vez de focar no que não podemos fazer. Nem todas as pessoas são perigosas, está certo que muitos estão contaminados com o vírus, por isso o distanciamento social e a higiene são fundamentais, mas não precisamos ter pavor do ser humano, apenas precaução. Fique atento aos seus pensamentos catastróficos. Nesse período, é muito fácil eles virem à tona e você ser tomado pela ideia de que isso não terá um fim. Saiba que toda epidemia termina, com essa não será diferente – já passamos por outras pandemias e recessões econômicas.

Mantenham-se firmes, observem seus pensamentos e busque alternativas realistas para eles. Busque ajuda psicológica sempre que sentir necessidade. Tudo isso vai passar!

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