Quadrantes
Desafios sem fim
Publicado: 00:00:00 - 16/01/2022 Atualizado: 13:33:04 - 15/01/2022
Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

Um amanhecer sobre o mundo. A premonição que, infelizmente, renova-se todo dia.  De abismos entre o sonho e a realidade. Espectro que angustia tudo e todos. Qual será a síntese da crise que avassala o mundo? Todos, sem exceção, povos, nações, culturas, civilizações, são atingidos por uma torrente de imobilismo, mediocridade, insensatez, medo, violência e insegurança. A “aldeia global”, vaticinada por filósofos e escritores, religiosos e poetas, vislumbrava a perspectiva de elevação espiritual e aprimoramento da sensibilidade de cada ser humano. Foi ansiosamente esperada pelos que a concebiam como morada plena de paz, cooperação, solidariedade, justiça e fraternidade. A guerra, o ódio, a crueldade, a injustiça, o arbítrio e a hipocrisia seriam poeira do passado. A individualidade e a dignidade de cada um seriam perpetuadas e renovadas. Todos reprimiriam, sem hesitar, os fanatismos e os ódios que, até então, sufocavam a consciência da liberdade e do repúdio ao arbítrio.

Há uma dúvida hamletiana (de Shakespeare) na consciência das pessoas em todo o mundo. Alcança habitantes das grandes cidades e dos vilarejos mais distantes. O cidadão urbano, que, na sempre atual prefiguração de Eça de Queiroz, em “A Cidade e as Serras”, quer desfrutar progresso e bem-estar, e o homem do campo, que vivencia, mais tranquila e lucidamente, do sentido da vida, dos laços e das pequenas coisas, instigando cada um nesse enigma: – Qual é o espírito desses novos tempos? Quais são seus ideais? Qual é o fim que se pretende alcançar? A humanidade será de novo presa fácil da mentira, da mediocridade, do fanatismo, da impiedade e da vulgaridade? – Apesar de tudo, subsiste um contraponto. O homem ainda preserva a irreprimível vontade de desafiar o desconhecido. É fonte de coragem e ousadia para exorcizar medos e enfrentar adversidades. Vocação e atributos que Homero identificou em Ulisses na “Odisseia”. Mantendo dentro de si, permanentemente lustrado, cintilante, uma espécie de talismã, liame entre o sonho e a realidade: a esperança. Sua dimensão é inesgotável. Seu conteúdo foi reverenciado de forma exuberantemente bela, cândida e poética em vate português do século XV, universal e insuperável: “Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, pois quando o homem sonha o mundo pula e avança”. Por isso a sociedade civilizada é incompatível com o “império de estúpidos, loucos e boçais” na percepção de Gore Vidal em sua monumental ficção histórica “Criação”.

Todas as pessoas, em todos os tempos, povos e culturas, realizam, pelo menos um dia em suas vidas, um voo na noite.  É o irresistível voo da reflexão. Contemplam o mundo e a vida com o coração. Visão espiritual, alçando-se às alturas, que lhes permitem divisar e reconhecer o essencial da vida, onde as ilusões se dissipam no mesmo ritmo das amarguras e dos desencantos. Os sonhos, as esperanças e os sentimentos guiam esse voo em cada homem. Estado de espírito fascinante e personalíssimo. Suas características são individuais, genuínas e particulares. Como se cada um possuísse, a seu modo, a pureza e os encantamentos da infância. Pois dentro de nós habita a verdade, que a perdemos ou a ignoramos quando nos submetemos ao jogo e às variáveis da malícia, dos egoísmos, das vaidades, da mentira, da covardia, da cobiça, da inveja e do medo. Se a fragilidade e as contradições humanas de Pedro, o “Grande Pescador”, revelaram-se ao negar o Cristo três vezes, antes do galo cantar também três vezes, sua grandeza se projetou inesgotavelmente ao reconhecer sua fraqueza e acreditar no poder infinito do amor e do perdão. Eis quando a fé fulmina todas as vulnerabilidades, conferindo, individualmente, a noção da infinitude do tempo. O que não importa é o que é efêmero, fugaz e inconsistente. O mal não tem substância. Seu conteúdo é falso. Sua forma e seus objetivos se evolam, desaparecem e se perdem na vertente do passado. Porque o mal é incompatível com a grandeza e a vocação do homem. Esses são mistério e desafio para o gênero humano desde os primórdios dos tempos. Abelardo, Dante e Petrarca se identificaram com a sabedoria popular, delineando o espaço da maldade e confinando-a em si mesma: “o mal por si mesmo se destrói”. O bem vence invariavelmente. O mal, pouco importam suas aparências e circunstâncias de sua existência: sempre acaba. Assim sempre foi, é e será...

Os homens vivem em exílio de identidade quando renegam a infância tida ou desejada. Os heróis de Charles Dickens, em “Oliver Twist” e “As grandes Esperanças”, após sofrimentos cruéis e inimagináveis na infância, assumiram-na na maturidade, percorrendo os caminhos da felicidade. Restauraram sua dignidade.  Esse não é um recuo, um retroceder. Tampouco uma “reconquista do tempo perdido”. É um reencontro que cada um realiza no âmago do próprio ser. Algo transcendental em cada pessoa. O exercício da bondade não quer dizer alienação, tibieza, ingenuidade, estupidez, idiotice. A bondade não implica em abdicação do discernimento e da separação do “joio e do trigo” no curso da vida. A bondade estará sempre imantada, amalgamada, misturada irreversivelmente com a lucidez, o equilíbrio, a sensatez, a tranquilidade, o destemor, a dignidade, a caridade e a humildade. Infelizmente, são os adultos que ensinam e disseminam a noção de medo às crianças. Elas possuem infância enquanto identificam o mundo sem as contradições que, mais tarde, flagelam os caminhos de sua vida. Jesus ensinou que é preciso o homem ter o espírito de uma criança (pureza de alma e sentimentos) para entrar no Reino dos Céus. Identidade eterna da criatura com o Criador. Neste mundo convulsionado por incertezas, pandemia e violência, a fé e a paz restauram a identidade humana. A voz de Deus se manifesta no silêncio e com simplicidade. Assim, num estábulo, em Belém de Judá, com Jesus nasceram a civilização cristã, o direito dos povos e a liberdade do homem. Para sempre. 


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