Desalento cresce 159,7 por cento no RN em cinco anos

Publicação: 2019-12-01 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Com cinco filhos para alimentar, vestir e educar, Davi Pereira, de 32 anos, vivencia, diariamente, dificuldades severas  para cumprir as obrigações de um pai de família. Sem emprego fixo, ele limpa retrovisores nos semáforos da cidade e pede ajuda aos transeuntes das avenidas mais movimentadas da zona Oeste de Natal. Ele é apenas um dos milhares de potiguares em situação de desalento. O número de pessoas desalentadas no Estado aumentou nos últimos cinco anos em 159,70% segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Saiu de 67 mil no terceiro trimestre de 2014 para 174 mil no mesmo período deste ano. O quantitativo de pessoas desocupadas também cresceu na mesma base de comparação, saindo de 155 mil para 204 mil – aumento de 31,61%.

Davi Pereira, 32, desempregado e à espera de mais um filho. Procura emprego há mais de 2 anos
Davi Pereira, 32, desempregado e à espera de mais um filho. Procura emprego há mais de 2 anos

“Por dia, eu tiro cerca de R$ 15 como flanelinha. Já tentei emprego como gari, como carregador na Ceasa. É muito difícil. E eu não tenho como fazer um currículo, aí fica mais difícil ainda”, relata Davi Pereira enquanto come uma quentinha doada por um trabalhador das proximidades do semáforo no qual ele pedia dinheiro na terça-feira, dia 26 de novembro. Além dele, a mulher, grávida de oito meses, e a filha mais nova, com menos de dois anos, pediam qualquer tipo de ajuda. A família chegou em Natal há cerca de um mês, vinda de Pendências, onde a situação não era menos difícil. Além do dinheiro arrecadado com o serviço de flanelinha, Davi Pereira conta com cerca de R$ 175 oriundos do Bolsa Família. “É o que temos para sobreviver”, diz cabisbaixo.

De acordo com o IBGE,  pessoas desalentadas são aquelas fora da força de trabalho na semana de referência da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Elas estavam disponíveis para assumir um trabalho naquele momento, mas não tomaram providência para conseguir trabalho no período de referência de 30 dias por não ter conseguido trabalho adequado, não ter experiência profissional ou qualificação, não haver trabalho na localidade em que residia ou não conseguir trabalho por ser considerado muito jovem ou muito idoso.

Conforme os dados repassados pelo IBGE à TRIBUNA DO NORTE, o número de desalentados chegou a ser maior no Estado em outros trimestres. Nos últimos três meses de 2018, por exemplo, existiam 202 mil pessoas nessa situação no Rio Grande do Norte. “Desocupados são os desempregados. Os números mostram crescimento desde o início da crise em 2015 e há uma pequena melhora no segundo semestre de 2019, mas a melhora ainda é tímida. Já os desalentados são os que deixaram de procurar por emprego. Esse grupo cresceu assustadoramente nesse período”, afirma Francisco Hedson da Costa, professor especialista da Escola de Gestaão da Universidade Potiguar (UnP).

Ele declara, ainda, que o desalento pode ser melhor compreendido quando dividido em dois grupos. “O primeiro são trabalhadores que procuraram empregos durante a crise, não encontraram oportunidades e desistiram de continuar procurando. Com essa pequena melhora na economia, eles sentem mais estimulados a voltar a procurar emprego. Isso explica a pequena redução ocorrida no último trimestre de 2019. O segundo grupo de desalentados são pessoas que não se interessam em entrar no mercado de trabalho, por "n" motivos”, explica o especialista.

Guarda-chuva
O Prof. Francisco Hedson da Costa chama atenção para outro ponto dessa problemática envolvendos os desalentados. “É importante entender que os desalentados estão sob o guarda-chuva da renda de alguém. Ou seja, consomem a renda de outros que estão trabalhando no setor privado ou público, ou já estão aposentados. É o exemplo dos jovens que vivem mais anos na casa dos pais, por escolha ou por necessidade da dependência econômica. Outro fator é que no mercado de trabalho, atualmente existe uma maior oferta de mão de obra e os salários inicias são relativamente baixos e não conseguem atrair essa parcela da população. Assim, esses trabalhadores não se sentem atraídos pelas vagas com salários inicias baixos e preferem ficar fora do mercado de trabalho, ocupando-se em melhorar sua formação educacional ou realizar outras atividades informais.”

Procura por emprego
Outro dado que chama atenção é o aumento no número de pessoas procurando por emprego há dois anos ou mais no Rio Grande do Norte, que também registrou aumento. Os dados são referentes aos terceiros trimestres de 2014 apontam que 38 mil pessoas estavam nessa situação no Estado. Um ano depois, o número cresceu para 44 mil. No terceiro trimestre de 2016, mais pessoas procurando emprego havia mais de dois anos: 53 mil. No terceiro trimestre de 2017, recuo para 44 mil. No ano seguinte, nova queda, desta vez para 38 mil. No terceiro trimestre deste ano, a retomada do aumento com 57 mil pessoas procurando emprego há dois anos ou mais no Rio Grande do Norte.

Desocupação e desalento (Veja abaixo a evolução numérica desses indicadores no RN*)
Ano 2014
Desocupados: 155 mil
Desalentados: 67 mil

Ano 2015
Desocupados: 195 mil
Desalentados: 89 mil

Ano 2016
Desocupados: 213 mil
Desalentados: 141 mil

Ano 2017
Desocupados: 206 mil
Desalentados: 187 mil

Ano 2018
Desocupados: 199 mil
Desalentados: 186 mil

Ano 2019
Desocupados: 204 mil
Desalentados: 174 mil

Procura por emprego
Outro dado que chama atenção é o aumento no número de pessoas procurando por emprego há mais de dois anos no Rio Grande do Norte, que também registrou aumento.
*Os dados são referentes aos terceiros trimestres dos anos em destaque.

Ano 2014
38 mil pessoas procuravam por emprego há mais de dois anos no RN;

Ano 2015
44 mil pessoas procuravam por emprego há mais de dois anos no RN;

Ano 2016
53 mil pessoas procuravam por emprego há mais de dois anos no RN;

Ano 2017
44 mil pessoas procuravam por emprego há mais de dois anos no RN;
 
Ano 2018
38 mil pessoas procuravam por emprego há mais de dois anos no RN;

Ano 2019
57 mil pessoas procuravam por emprego há mais de dois anos no RN;


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