Desembargador é citado por lobista

Publicação: 2012-05-11 00:00:00 | Comentários: 5
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Ricardo Araújo - repórter

Os controladores do Consórcio Inspar estavam dispostos a ampliar  a compra de apoio ao projeto de inspeção veicular, estabelecido de forma fraudulenta no governo Wilma de Faria/Iberê Ferreira de Souza, estendendo-se também para a administração do governo Rosalba. A peça chave do esquema dentro do Detran/RN era Marcus Vinícius Furtado da Cunha, que ocupava o cargo de procurador-geral do Departamento Estadual de Trânsito. George Olímpio tentou sustentar Marcus Vinícius Furtado da Cunha, mesmo com a mudança da direção geral do órgão. As tentativas, porém, não progrediram, mas de acordo com o depoimento de Alcides Fernandes Barbosa iniciou-se um outro esquema de pagamentos envolvendo o novo diretor da autarquia, Érico Vallério Ferreira de Souza e o pai dele, o desembargador Expedito Ferreira.

 Na delação premiada, Alcides afirmou que as negociações entre George Olímpio e Érico Vallério se deram no escritório da Construtora Montana, pertencente a Gilmar Lopes, sócio da Inspar e, segundo Alcides, amigo íntimo do desembargador. Gilmar teria se encontrado com Expedito Ferreira no gabinete do Tribunal de Justiça. Na ocasião, o desembargador teria alertado o dono da Montana sobre os percentuais que seriam distribuídos a Wilma de Faria, João Faustino e Iberê Ferreira quando as inspeções fossem iniciadas. Gilmar se sentiu enganado por George Olímpio e o questionou por quais motivos ele teria feito aquela divisão.

“O Gilmar disse que não tinha mais condições de falar com Expedito por causa das mentiras relacionadas aos percentuais”, disse Alcides Barbosa. George Olímpio teria solicitado a intermediação de Gilmar com Expedito Ferreira por eles serem e amigos e, com isto, facilitar uma aproximação com Érico Vallério, o escolhido por Rosalba Ciarlini para assumir o Detran em seu mandato. A aproximação, ocorreu.

 O funcionamento do CRC e a inspeção veicular foram mantidos. Seria por esta suposta “ajuda” que Expedito Ferreira receberia os R$ 50 mil/mensais.

Alcides esclareceu que o intuito de Érico Vallério como diretor da autarquia estadual de Trânsito era suspender o contrato da inspeção veicular e o funcionamento do cartório de autenticação dos licenciamentos de veículos, ambos operacionalizados pelas empresas em nome de George Olímpio. Não fica claro, entretanto, se a conversa ocorreu antes ou depois de Érico Vallério assumir oficialmente o Departamento Estadual de Trânsito, no início do ano passado.

Para manter a Central de Registro de Contratos (CRC) em funcionamento e garantir o início das inspeções veiculares, George asseverou o pagamento mensal de R$ 50 mil ao então diretor do Detran/RN. “George dava dinheiro pro Érico Vallério para ele não suspender o funcionamento do cartório nem da inspeção. Érico, inclusive, recebeu R$ 50 mil adiantado”, disse Alcides aos promotores de Defesa do Patrimônio Público.

Um dos pedidos de George a Érico, porém, não foi atendido. O sócio da Inspar queria a manutenção de Marcus Vinícius Furtado da Cunha na Procuradoria-Geral do órgão. O medo dos envolvidos no esquema era de que Furtado os delatasse caso não permanecesse no processo.

Com a negativa do filho do desembargador, George Olímpio se viu obrigado a pagar propina mensalmente a Marcus Vinícius Furtado para que ele permanecesse em silêncio. Na tentativa de manter Furtado no Detran, Alcides detalhou ao Ministério Público que João Faustino chegou a procurar o ex-chefe do Gabinete Civil estadual, Paulo de Tarso Fernandes, para pedir sua ajuda. “Todos tinham medo do Marcus Vinícius sair e alguém descobrir o esquema”, confirmou Alcides. Ainda segundo o depoente, Furtado era “o cara que sabe tudo mesmo, como foi a montagem jurídica”.

Procurado pela TRIBUNA DO NORTE, o desembargador Expedito Ferreira preferiu não comentar as afirmações de Alcides Fernandes Barbosa. Ele limitou-se a dizer, na manhã de ontem em seu gabinete no Tribunal de Justiça, que “as medidas judiciais cabíveis serão tomadas”. Contra quem e quais medidas serão, ele não detalhou. Érico Vallério Ferreira de Souza não foi localizado para comentar o assunto.

Advogados defendem a delação

 Os advogados de Alcides Fernandes Barbosa em Natal, Daniel Pessoa, e em São Paulo, Ulysses Pinto Nogueira, defenderam a conduta do seu cliente. Conforme declarou Ulysses Nogueira, que defende Alcides em processos que tramitam na Justiça paulista, “o único prejudicado em toda essa situação” é o próprio Alcides.

 “Além de ter sido preso por ter prestado serviços aos envolvidos, ficou sem receber por esses serviços e ainda tem sofrido intimidações por parte daqueles que lhe devem”, declarou Ulysses Pinto Nogueira. Alcides, que trabalhava como empresário em São Paulo, irá recorrer à Justiça para receber os recursos que deveria ter  ganho enquanto trabalhou para os envolvidos na Operação Sinal Fechado. Em decorrência da prisão, ele está impedido de trabalhar.

 Mesmo com as ameaças sofridas enquanto esteve preso na Cadeia Pública de Cruzeiro, no interior de São Paulo, Alcides está disposto a contribuir com as investigações. Tais informações foram repassadas pelos advogados que o defendem. “Apesar de tudo, Alcides continua firme no propósito de colaborar com as investigações em curso no Rio Grande do Norte ou em qualquer outro local”, destacou o advogado Ulysses Pinto Nogueira.

 Em Natal, o defensor Daniel Pessoa, contratado por Alcides Fernandes Barbosa no início do mês de abril, conforme informações contidas no processo em tramitação na 6ª Vara Criminal, falou à TRIBUNA DO NORTE. Ele esclareceu, “em razão das notícias veiculadas e dos achaques protagonizados pelos outros envolvidos”, que Alcides “prestou apenas colaboração com a Justiça, conforme permissão legal”.

Daniel Pessoa ressaltou que seu cliente tomou a decisão de delatar o esquema de “livre e espontânea vontade”. “Ele está ciente das consequências e que já começou a suportar os riscos concretos à sua vida e de sua família”. Daniel enfatizou que, por enquanto, todos os demais esclarecimentos que sejam necessários serão prestados unicamente pelos advogados que atuam na defesa do empresário paulista.

Empresário nega envolvimento

O empresário potiguar e ex-senador José Bezerra Júnior, conhecido também como Ximbica, citado por Alcides no depoimento, negou qualquer envolvimento com o suposto repasse de R$ 1 milhão ao senador José Agripino. Alcides detalhou que Ximbica teria entregue a quantia em espécie ao senador, após negociação ocorrida num pavimento superior do apartamento (sótão ou cobertura) do senador José Agripino no bairro de Morro Branco, em Natal.  Em contrapartida, Ximbica teria recebido de George Olímpio quatro cheques no valor de R$ 250 mil cada. Na ocasião, segundo Alcides estavam, além dele, João Faustino, Agripino, Olímpio, Ximbica e um filho.

José Bezerra Júnior definiu Alcides como um “vigarista” e ressaltou não conhecê-lo. “Além disso, eu não participei de nenhuma negociação no sótão da casa de José Agripino. Eu conheço o apartamento e lá não tem sótão. Eu não sei quem é Alcides, ele não me conhece”, enfatizou. Para José Bezerra Júnior, as argumentações de Alcides não passam de uma “tática de máfia” que pretende derrubar o senador democrata José Agripino Maia. “Eu tenho quase que certeza que isso é armação do mensalão para incriminar todo mundo e despistar o julgamento do mensalão”, argumentou Ximbica.

O deputado estadual Ezequiel Ferreira, através de nota, negou o recebimento dos R$ 300 apontados por Alcides para viabilizar a aprovação da lei que regularizava a inspeção obrigatória no estado. “A fantasia soa absurda, por não ter eu liderança e força suficientes na Casa para influir, isoladamente, na decisão de vinte e três outros deputados, nem poder para levá-los a votar dessa ou daquela maneira. É mesmo ridículo supor que alguém vá desembolsar tão vultosa quantia para seduzir um só deputado, entre vinte e quatro, quando esse único deputado sabidamente não tinha meios e força para atender ao pretendido”, defendeu-se.

George Olímpio, também através de nota, definiu o MPE como ingênuo e negou o repasse de R$ 1 milhão ao senador José Agripino. “Rechaço, abismado, com a ingenuidade do Ministério Público Estadual, que foi enganado pelo Sr. Alcides Barbosa, através de declarações fantasiosas e sem provas quaisquer, com o único fim de conseguir, como “DELATOR”, a sua liberdade, conquistada em bases mentirosas e sem apresentação de provas”, enfatizou Olímpio.

Ele disse, ainda que “todas as medidas judiciais cabíveis serão tomadas contra quem me acusar sem provas, seja quem for”. Ele reiterou que “Sr. Alcides MENTIU em afirmar 0 pagamento ou promessa de propina seja la a que quem for!”.

Intermediação teve agente de confiança

aDe acordo com o depoimento de Alcides Fernandes Barbosa aos promotores de Defesa do Patrimônio Público, apesar da proximidade de George Olímpio e Iberê Ferreira de Souza, algumas negociações foram intermediadas entre pessoas de confiança do ex-governador do Rio Grande do Norte. Dentre elas estão um homem identificado como Rousseau, que seria, inclusive, a indicação de Iberê para assumir a Procuradoria Geral do Detran após a saída de Marcus Vinícius Furtado da Cunha e Luiz Cláudio Chopp.

Chopp, como é conhecido no meio político potiguar, ocupou o cargo de chefe do Gabinete Civil no governo Iberê Ferreira de Souza e é uma pessoa muito próxima do ex-governador. Segundo Alcides Barbosa, ele teria recebido uma parcela do valor de R$ 1 milhão supostamente repassado ao então governador do Estado por George Olímpio, para garantir a manutenção da inspeção. “Chopp participou da negociação e pegou um pouquinho do dinheiro”, confirmou Alcides aos promotores durante a delação.

Além de Chopp, o filho de Iberê conhecido como Joca, também receberia dividendos do esquema de corrupção supostamente comandado por George Olímpio.

Esclarecimento

A respeito da acusação de que eu teria recebido R$ 300.000,00 para possibilitar a aprovação pela Assembleia Legislativa da lei de inspeção veicular no Estado, acusação que nasce com a suspeição de uma delação (sem prova) premiada (feita por alguém com o explícito propósito de sair da prisão), esta mesma origem deixa na acusação a marca da fantasia e da mais completa improcedência.

A fantasia soa absurda, por não ter eu liderança e força suficientes na Casa para influir, isoladamente, na decisão de vinte e três outros Deputados, nem poder para leva-los a votar dessa ou daquela maneira. É mesmo ridículo supor que alguém vá desembolsar tão vultosa quantia

para seduzir um só Deputado, entre vinte e quatro, quando esse único Deputado sabidamente não tinha meios e força para atender ao pretendido.

A lei foi ela aprovada pelos vinte e dois Deputados presentes à sessão de votação, sendo apreciada da mesma forma como tem sido de rotina a apreciação das matérias enviadas pelo Governo do Estado.

Com esses esclarecimentos, espero ter cumprido meu dever de dar satisfação à opinião pública do Estado, e, reafirmando o despropósito da acusação, não pretendo voltar a tratar de fantasias engendradas em delações, que, por definição, sempre chegam aos limites do extremo desespero.

Natal, 10 de maio de 2012.

Deputado Ezequiel Ferreira”


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Comentários

  • marieclaude

    Ingênuos são vocês que pensam que os outros são burros. O MP sabe muito bem como funcionam as coisas, aqui, na Província do RN.

  • claudiohvarela

    Nem Michael Teló, nem Cavaleiros do Forró! o samba mas ouvido nas emissoras AM e FM do nosso estado é o samba "SE GRITAR PEGA LADRÃO, NÃO FICA UM MEU IRMÃO".

  • eduardoafigueira

    Cada vez mais eu acredito que o grande problema deste país é o mensalão, porque tudo que está acontecendo, seja a CPI do Cachoeira, seja a questão do Procurador Gurgel não ter dado sequência das investigações e agora, o mensalão aparece na operação Sinal Fechado. Vejam o que diz o Sr. Ximbica: "Eu tenho quase que certeza que isso é armação do mensalão para incriminar todo mundo e despistar o julgamento do mensalão", argumentou Ximbica. A pergunta que não quer calar é a seguinte: E quando mensalão for julgado, qual vai ser a desculpa?

  • ematermontanhas

    A moda agora é desqualificar as acusações, o Demóstenes diz: essa gravação foi ilegal...ele disse o que disse mas as gravações é que são ilegais,talvez porque ele além de ilegal é imoral...sei lá, os daqui dizem: ele é um delator...palavra de delator não tem valor...ora, passarinho que anda com morcego um dia acorda de cabeça pra baixo...delatando ou não quem se envolve em crimes, falcatruas e corrupção pode exigir o que de seus comparsas? "ética criminosa"?! Ingenuidade do MPE...essa é demais...sem comentários, já comentei? eu não, vocês que pensam que eu comentei...ô povo ingênuo!

  • flora605

    Quanta gente honesta,muito me orgulha a classe política do meu Estado,todos inocentes,olha,penso que tudo é verdadeiro, não se vai para uma delação premiada p mentir,se vai para abrir o jogo e diminuir as penas,veja que no caso da Carla Ubarana tb ocorreu isso,nenhum desembargador adimitiu,todos negaram veementemente, no final , deu no que deu.