Desigualdade sobe e afeta mais o Norte e o Nordeste

Publicação: 2019-12-27 00:00:00
A recessão que assolou o Brasil entre 2014 e 2016 deixou no seu rastro um aumento da desigualdade que o País ainda está longe de conseguir mitigar. Esse fenômeno atingiu de forma mais forte as regiões menos desenvolvidas do País. Estudo de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que a distância entre as regiões brasileiras aumentou nos últimos cinco anos, como consequência da recessão: enquanto a desigualdade da renda do trabalho medido pelo coeficiente de Gini cresceu quase 5% no Nordeste (chegando a 0,684) e no Norte (0,624), nas demais regiões ela cresceu na casa dos 3%.

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Desigualdade de renda cresceu quase 5% no Nordeste e Norte do país, aponta estudo da FGV

O índice mede o grau de concentração de renda em um grupo, apontando a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e os dos mais ricos. Ele varia de 0 a 1. Quanto maior o número, maior a desigualdade. O economista Daniel Duque, um dos responsáveis pelo estudo, aponta que, dos cinco Estados que ficaram mais desiguais nos últimos cinco anos, todos são nordestinos. Nesse ponto, os últimos anos foram mais cruéis na Paraíba, no Maranhão e em Alagoas.

O avanço da desigualdade reflete a falta de trabalho formal, que afetou a renda das famílias. Nos últimos cinco anos, só 2 dos 27 Estados, mais o Distrito Federal, não ficaram mais desiguais - Sergipe e Pernambuco, que já tinham índices elevados.

Ciclo de desigualdade
O Brasil tem um longo histórico de desigualdade de renda, mas havia entre a maior parte dos economistas, até 2014, um entendimento de que esse cenário iria melhorar e a desigualdade cairia continuamente, diz o superintendente do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques. “O sinal de alerta veio quando essa tendência foi revertida", analisa. 

Desde a crise, a parte mais rica dos brasileiros se distancia cada vez mais da parcela mais pobre. No começo deste ano, a renda da metade mais pobre caiu cerca de 18%, enquanto o 1% mais rico teve quase 10% de alta no poder de compra, de acordo com dados do IBGE.

Para mudar isso, Henriques afirma que é preciso ter uma agenda que enfrente de forma eficiente a questão do desemprego. “O Brasil precisa retomar a tendência de construir políticas sociais mais articuladas, pegar os instrumentos que existem e podem ser repensados. E um ícone disso é o Bolsa Família."

A maioria dos economistas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo citou o programa para famílias de baixa renda como exemplo de política social bem-sucedida voltada para a extrema pobreza. Apesar de o programa, por si só, não combater a concentração de renda, uma das ideias é que ele seja revisto e ampliado.

Apesar de a desigualdade ter piorado justamente nas regiões mais pobres do País, os economistas lembram que pobreza e desigualdade não são o mesmo conceito. 

Um país pobre pode ser mais igualitário do que um rico. Um relatório do Banco Mundial aponta, contudo, que a pobreza também aumentou no Brasil de 2014 a 2017, atingindo 21% da população, ou 43,5 milhões de pessoas.

O pesquisador Pedro Herculano de Souza, do Ipea e ganhador do Prêmio Jabuti com o livro Uma História da Desigualdade, afirma que o desemprego e a informalidade atingiram em cheio os grupos mais vulneráveis, o que contribuiu para o aumento tanto da pobreza quanto da desigualdade da renda.

Ele completa que uma saída para a redução desses problemas seria transpor os obstáculos que ainda estão travando a recuperação da economia, fazendo reformas para criar mais espaço fiscal que estimule investimentos em programas sociais e geração de empregos.