Devagar...quase parando!

Publicação: 2014-02-02 00:00:00
Usuário da linha 14, na zona Norte de Natal, Daniel Moura da Silva, 37 anos, leva pelo menos duas horas por dia, 12 horas por semana, 48 horas por mês, para ir e voltar do lar de idosos onde trabalha como supervisor de cuidadores. Para  percorrer os 12 quilômetros entre a parada no bairro Soledade e o ponto em frente à Central do Cidadão do Alecrim, o ônibus que a reportagem acompanhou levou 58 minutos, numa média de praticamente 12 quilômetros por hora.

“Geralmente é mais tempo. Principalmente quando as aulas começam”, afirma. O tempo de uma hora, no deslocamento de casa para o trabalho de Daniel é cerca de 30% maior que a média de tempo gasto pelos moradores das regiões metropolitanas brasileiras: de 40,8 minutos, segundo dados publicados em 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  A média nacional é de 30,2 minutos.

Os passageiros das linhas que circulam na zona Norte têm  um medo em particular: que algum acidente aconteça próximo à ponte de Igapó nos horários de trânsito intenso. “Quando tem, é mais de duas horas. O pessoal desce e vai a pé, porque é  mais rápido”, confirma a autônoma Núbia Silva, 49, que utiliza a linha 70.

 Para chegar ao bairro Alecrim, destino diário de Daniel e Núbia, um carro de passeio não levou mais que 22 minutos. A volta, às 18h, demorou um minuto a mais que a ida.

Nova Parnamirim/ Cidade Alta

A média é praticamente a mesma para os ônibus de Nova Parnamirim, na zona Sul da capital.  O trânsito se intensifica, por volta das 7h, ainda no início da avenida Ayrton Sena, e a cada parada a lotação se intensifica. Os semáforos são a principal reclamação do motorista Joelson. “Cada um é um gargalo. Quando não tinha eles, era muito mais rápido”, coloca. A viagem também fica mais lenta quando o ônibus passa pela avenida Roberto Freire, mas é na avenida Salgado Filho onde o ônibus perd mais tempo. Cerca de meia hora.

Os ônibs que passam pelas avenidas Maria Lacerda e Abel Cabral também seguem grande parte dos percursos lotados e são alvo de reclamação mesmo dos que, normalmente utilizam a linha Eucaliptos.

Planalto/Cidade Alta

O 38 saiu do Planalto, passou pelo Alecrim e chegou à Cidade Alta em pouco menos de uma hora. A maior parte dos passageiros sobe próximo à rodoviária nova. “Isso, quando a gente já não sai do bairro com ele todo lotado”, conta o cobrador. O trânsito só se intensifica perto do Alecrim, bairro que concentra grande parte do comércio popular da cidade. 

Enquanto os ônibus vão parando em cada ponto, de semáforo em semáforo, levando cerca de uma hora para vencer a pouca  distância, os veículos de passeio usam um quinto desse tempo - mesmo que, por vezes, percorra mais quilômetros, seguindo por vias alternativas.

Os semáforos, os acidentes, o alto número de passageiros, e até a dupla jornada do motorista como cobrador são as explicações de praticamente todos os condutores para os atrasos. “Essa linha tem 16 carros, mas tem  hora que eu não tenho nenhum aqui. Estão todos presos em congestionamentos”, diz o despachante de uma das linhas. No caso da 33, no Planalto, um carro que fazia 10 viagens por dia em 1995, hoje não faz mais que seis, no mesmo período, de acordo com informações do Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos de Passageiros de Natal (Seturn) .


Opinião
Usuários falam sobre o sistema

“Muitos motoristas não esperam as pessoas descerem. Uma vez, o um deles largou antes da minha filha, que é especial, sair. E só parou lá na frente, porque o pessoal ficou gritando. Ela chorou muito”.
Maria Souza, 62, aposentada

“Já fui trabalhar de bicicleta e gastei só 45 minutos. Eu queria ir sempre assim, mas é muito perigoso. Natal tem ciclovias. Moro a cinco anos aqui e acho o trânsito e o transporte muito ruim”.
Francisco Max, 40 anos, soldador

“Os motoristas não param para os idosos. Eles olham meus cabelos brancos e passam direto. Tenho que pegar dois ônibus pra chegar no trabalho e desse jeito a gente acaba  atrasando”
Lindalva Ferreira, 60 anos, lavandeira de hotel.

saiba mais

“Muita gente, muito calor, pessoas passando mal,sem contar os assaltos. Já tive uma faca apontada pra mim. A gente paga passagem cara, muito imposto e vive desse jeito”.
Francine Oliveira, vendedora