Dia de rei. Pelé faz 80 anos

Publicação: 2020-10-23 00:00:00
Edson Arantes do Nascimento, Pelé, completa hoje (23) 80 anos. O maior ídolo da história do futebol ainda desperta paixões, mesmo décadas depois de ter deixado o esporte. Durante a maior parte de sua carreira pela seleção brasileira e Santos, além do Cosmos, de Nova York, e também durante muitos anos depois, é considerado por muitos como o maior jogador de futebol de todos os tempos.

Créditos: ARQUIVOA Copa do Mundo de 1970 serviu para Pelé consolidar, no mundo, a imagem de maior jogadorA Copa do Mundo de 1970 serviu para Pelé consolidar, no mundo, a imagem de maior jogador

Primeiro Diego Maradona e depois o também argentino Lionel Messi apareceram para desafiar esta hegemonia, mas o armário de troféus do ex-atacante brasileiro é tão grande quanto o de seus rivais.

Com o Santos, ele conquistou a Copa Libertadores e a Copa Intercontinental duas vezes, além de 10 campeonatos paulistas e seis títulos brasileiros.

Ele continua sendo o único jogador que venceu a Copa do Mundo três vezes, e também fez fama marcando mais de mil gols como profissional.

Onde quer que vá, Pelé ainda é festejado como o Rei do Futebol, apelido dado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues quando tinha apenas 17 anos.

Mas seu aniversário emblemático chega após um período difícil. Pelé foi hospitalizado diversas vezes nos últimos anos e anda com dificuldade devido a um problema no quadril. Nada disso, porém, o impediu de lançar uma música com a dupla vencedora do Grammy Rodrigo Y Gabriela. O novo single chama-se “Acredita No Véio”.

A canção foi escrita por Pelé com o músico de jazz brasileiro Ruriá Duprat em 2005, mas recebeu um novo toque musical depois que o dueto mexicano Rodrigo Y Gabriela entrou a bordo.

Este ano marcou ainda o aniversário de 50 anos do terceiro triunfo de Pelé na Copa do Mundo, conquistado no México em 1970, atuando naquele que muitos especialistas consideram o maior time de futebol de todos os tempos.

Para além das paixões, Pelé também desperta polêmicas. A mais recente diz respeito a história de que ele teria parado uma guerra, quando atuava pelo Santos, em 1969, na África.

Na ocasião, ficou o registro de que o time comandado pelo Rei do Futebol teria parado a guerra civil na cidade de Benin, na Nigéria. A reportagem conversou com um historiador que diverge desse fato e diz que o time da Vila Belmiro foi usado para promoção do governo local.

A versão do Santos diz que "havia um conflito em Benin entre duas facções, de ideologias diferentes. O prefeito então anunciou que o Santos jogaria na cidade para ajudar na arrecadação de dinheiro para reconstrução do entorno e pediu o cessar fogo. No período de dois a três dias, os conflitos pararam", conta o historiador Gabriel Santana, do Centro de Memória do clube alvinegro.

O historiador José Paulo Florenzano realizou pesquisa de pós-doutorado na USP sobre as viagens à África feitas pelo Santos. Sua intenção foi mostrar a importância do clube no cenário internacional, mas ao confrontar a passagem histórica do Rei do Futebol na Nigéria, recebeu muitas críticas.

A guerra civil na Nigéria começou em 1967, em um conflito étnico, político e econômico. A região de Biafra, no sudeste do país, possuía grandes reservas de petróleo e tentou a independência, dando início a uma batalha que resultou na morte de 2 milhões de nigerianos. Imagens de crianças desnutridas e de uma terra arrasada ganharam repercussão mundial. Houve comoção de artistas como John Lennon e Jimi Hendrix, shows beneficentes e também pedido do Papa Paulo VI para o fim do conflito.

Florenzano comparou a cronologia da guerra com a viagem do Santos de 1969, a terceira excursão para a África do time brasileiro. "Havia esse contexto comercial estabelecido. Pelé era o grande nome do esporte e existia uma identidade negra com o clube, por isso houve a primeira viagem em 1966, depois em 1967, e em 1969. Haveria ainda mais uma em 1973. Era interessante para os governantes locais vincularem seus nomes ao de Pelé", diz o historiador.

Em 1969, o Santos embarcou para a África e havia no cronograma apenas um jogo marcado para acontecer na Nigéria, na capital Lagos, que ficava no lado aposto de onde acontecia a guerra civil. O Estadão de 9 de janeiro de 1969 informou: "o primeiro jogo seria dia 16, em Brazaville, no Congo. Depois haveria duas partidas, dias 21 e 23, em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Na sequência, atuaria em Lagos, dia 26, e depois havia a previsão de dois jogos dias 29 e primeiro de fevereiro, em Lourenço Marques, em Moçambique."

O Estadão de 18 de janeiro de 1969, data em que o time já estava na África, noticiou que o "Conselho Esportivo de Benin designou um comitê especial para tratar de tal amistoso contra a equipe do Centro-Oeste, no dia 27 deste mês. Os nigerianos vão tentar convencer diretores brasileiros a reduzir a taxa de exibição por não poderem pagar as 11 mil libras argelinas exigidas inicialmente..." "O governador militar do Estado do Centro-Oeste prometeu que deixará livre a passagem pela ponte de Sapele a todos aqueles que quiserem ver o amistoso." E Pelé, claro.

Na época, aviões de combate da Nigéria decolavam de Benin para atacar zonas em Biafra. A ponte citada estava fechada em 1969. Isso porque dois anos antes, no início do conflito, guerrilheiros de Biafra ocuparam Benin durante um mês. O governo da Nigéria recuperou a região em seguida, fechou a ponte, mas ficou esse trauma. A iniciativa de reabertura para o jogo era parte da estratégia de conquistar a população Ibo, a etnia que havia proclamada a República de Biafra e que também estava presente no Estado do Centro-Oeste.

Na ocasião da partida, a região de Biafra estava cercada por terra, mar e ar, reduzida a um quarto do que tinha sido no começo do conflito. A Cruz Vermelha tinha dificuldade para levar mantimentos e socorrer a população local. Foi nesse período que houve a comoção internacional. "Você imagina que nessas condições a guerra seria interrompida para que o Santos jogasse? Ninguém conseguia parar a guerra", opinou Florenzano.

Para o historiador, o governo nigeriano tinha absoluto controle da guerra e do território e trouxe o Santos para demonstrar soberania. "A questão é lógica. Por que o governo, a Federação de futebol do País, gastaria para trazer o Santos, de Pelé, em uma área que ele não teria controle (Benin)? Qual o interesse de negociar um cessar fogo com o inimigo, mandando uma mensagem negativa para a sociedade nigeriana que não se tem controle pleno da situação?", questiona o estudioso. "A única coisa que faz sentido é imaginar que o governo nigeriano levou o Santos para Benin como peça para propaganda da guerra. Levar o Santos na cidade era uma maneira de cicatrizar o trauma e mostrar que estava tudo sob controle."

O jogo acabou acontecendo em 4 de fevereiro, no fim da excursão. O Santos venceu a equipe local por 2 a 1, com gols de Toninho Guerreiro e Edu. No dia seguinte, o time foi embora do país. A guerra durou até janeiro de 1970. "Claro, era uma guerra. Havia possibilidade de um ataque guerrilheiro. Mas não era uma cidade que estava em disputa e parou para o Santos jogar. Esse é o dado central."

O Estadão do dia seguinte à data da partida informou o relato do jogo em dois parágrafos, com título: "O Santos ganha por 2 a 1." A nota dizia que haviam 10 mil torcedores no estádio e que o governo militar da região decretou feriado na cidade. "O clube santista recebeu pela exibição 6 mil libras nigerianas e voltou a Lagos logo que a partida terminou." Não há informação de que tenha havido cessar fogo.