Diógenes da Cunha: "O RN precisa de um resgate histórico"

Publicação: 2019-05-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Repórter

O Rio Grande do Norte do   Baobá do Poeta, da Fortaleza dos Reis Magos, berço do ex-presidente Café Filho e do maior folclorista nacional, Câmara Cascudo, precisa se redescobrir. É o que pensa o presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, Diógenes da Cunha Lima. Com um potencial histórico material e imaterial pouco explorado para fins educacionais e econômicos, o Estado poderá ter uma realidade modificada caso o Poder Público abra os olhos para o que está “esquecido”. Diógenes da Cunha Lima, que mediará os debates em torno do tema desta 37ª edição do Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, cujo tema é “Arte e Cultura como instrumentos de desenvolvimento econômico” elenca, na entrevista a seguir, potenciais fontes de renda que estão obsoletas ou sem o devido cuidado dos gestores públicos. A história em torno dos Mártires de Cunhaú e Uruaçú, além dos escritos de Luiz da Câmara Cascudo, são exemplos citados pelo intelectual. O resgate histórico do Rio Grande do Norte e a promoção nacional e internacional do patrimônio material e imaterial que “reside” em terras potiguares será um dos temas que serão abordados no Seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, promovido pelo jornal TRIBUNA DO NORTE em parceria com a Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Sistema Fecomércio (Fecomércio/RN), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) e RG7 Invests. Confira a entrevista. 

Diógenes da Cunha Lima, presidente da Associação Norte-Rio-grandense de Letras
Diógenes da Cunha Lima, presidente da Associação Norte-Rio-grandense de Letras

De que forma o senhor enxerga hoje a produção artística e cultural no Rio Grande do Norte?
O Rio Grande do Norte tem uma vocação para as artes, inarredável. Não é só historicamente. Hoje, nós temos uma forte presença do Rio Grande do Norte no mundo das artes. Se formos examinar os grandes artistas daqui e a formação de novos, teremos isso. Isso significa nas artes plásticas, na literatura, no mundo cultural que se desenvolve. O Rio Grande do Norte é muito forte na música, na dança. Isso tudo é formador de riquezas. É certo que, para se aferir o que a cultura transforma em emprego e renda, é difícil. As nossas estatísticas, nem sempre, são confiáveis. Encontramos desde 1,2% do PIB a 7% do PIB. A confiabilidade é limitada. O mundo inteiro, hoje, o turismo não é sol e praia. É experiência. As pessoas viajam para experimentar, para aproveitar singularidades, coisas novas que se tem a oferecer. Quando se viaja para qualquer lugar do mundo, verifica-se o que há de bom desde a culinária, gastronomia, as belezas naturais às belezas criadas pelo homem. E o Rio Grande do Norte é um pobre Estado riquíssimo. O patrimônio do Rio Grande do Norte quer material ou imaterial, é um dos maiores que se possa imaginar nesse País. Agora, é mal explorado. Um Estado pequeno como o nosso que tem 398 quilômetros de praia e praias belíssimas, aproveitáveis, temos a Fortaleza dos Reis Magos que é patrimônio histórico do Brasil mas que, certamente, é uma falha porque precisa ser reconhecido como patrimônio histórico mundial. Se tem a beleza do Rio Potengi, com sua foz que é uma das mais bonitas do mundo. Temos a religião e seus santos. O Brasil inteiro tem cinco santos. O Rio Grande do Norte oferece 30 santos. Seis vezes mais que o Brasil. Uruaçu e Cunhaú são também histórias épicas. Absolutamente diferentes do resto do Brasil. Não há nada que se possa comparar a uma possibilidade desses locais. São patrimônios que não estão sendo utilizados ou que estão sendo subutilizados para transformar a cultura em valor. O Rio Grande do Norte tem um patrimônio imaterial ilimitado. As obras dos artistas como Dorian Gray e Newton Navarro, um pintor e um desenhista; a música dos melhores autores que podemos imaginar; uma Universidade Federal e outras Universidades que orgulham o Rio Grande do Norte pela categoria.

O senhor considera que o potencial cultural material e imaterial do Rio Grande do Norte é pouco explorado?
É pouco explorado. Hoje, há quem diga que o turismo responde por 50% do PIB municipal. O céu é o limite para que se façam as coisas que são necessárias. Mas esse é um assunto que não se resolver de um dia para a noite. Para que haja desenvolvimento, é preciso que se tenha educação. Hoje, a educação não leva à exploração disso aí. Por outro lado, há uma desvalorização da cultura. Há um pensamento político-dominante no País de que a cultura é coisa de desocupado, é frescura quando, na realidade, é uma fonte geradora de renda e emprego. E a mais poderosa fonte de transformação de um povo. Não se transforma um País sem cultura. A cultura é riqueza. Câmara Cascudo tem uma frase fantástica que diz: “O melhor produto do Brasil ainda é o brasileiro”. Parodiando, eu digo que o melhor produto do Rio Grande do Norte ainda é o potiguar. O que nós temos de bom.

É possível unir arte e cultura para desenvolver um povo de que maneira?
Há muita coisa que deve ser feita. Nós temos uma riqueza imaterial, outra, que é a história da Força Aérea no Rio Grande do Norte. Desde o pioneirismo de Augusto Severo até a Barreira do Inferno. Nós temos, no Rio Grande do Norte, toda uma sequência. Os grandes voos da Europa, o primeiro voo de três continentes foi feito da Itália e passou por Natal. Mas isso é mal explorado. É pessimamente explorado. A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras tem feito um esforço enorme e tem propostas interessantíssimas que poucas vezes mereceram apoio. Por exemplo: a luta pelo Parque das Dunas. A Academia participou e obteve êxito. Mas, nem sempre, consegue. Sugere, começa, mas não termina. Então, há muitas coisas que o Rio Grande do Norte pode fazer que gera renda e emprego, desenvolvimento.

Quais sugestões são essas?
Uma delas é que Cunhaú e Uruaçú podem ser polos de atração turística universal. E há projetos e anteprojetos anteriores. O aproveitamento do turismo. Santa Cruz entrou no mapa do turismo religioso a partir da construção de uma estátua, mas não tem a força dos Mártires e seu aspecto histórico. Está sendo elaborado um projeto com o apoio da Prefeitura Municipal de Parnamirim, para uso da área do antigo Aeroporto Internacional Augusto Severo. O prefeito de Parnamirim resolveu fazer esse projeto que é extraordinário. Nós fomos à Brasília e falamos com o Comando da Aeronáutica, mas parou. Retomado, o projeto tem tudo para dar certo. Eu acho que lá deveria ter um Pax, o balão de Augusto Severo que é lindo e tem o nome de “paz”.

O Rio Grande do Norte carece de um resgate histórico?
O Rio Grande do Norte precisa de um resgate histórico, de uma valorização histórica para que o mundo tire proveito disso e conheça o nosso potencial. Turismo é experiência e as pessoas não querem mais apenas as belezas naturais de um lugar. Elas querem uma novidade. O que seria receber um turista e contar a ele, em Natal, a importância da cidade durante a Segunda Guerra Mundial, que já tem um museu já começado e tem um grupo interessante nesse projeto? A gastronomia do nosso Estado é boa e temos a maior autoridade do País nesse assunto que é Câmara Cascudo. Cascudo, por si só, é um patrimônio da terra. Ele tem um livro que não é aproveitado que se chama “A História da Alimentação no Brasil” e “Antologia da Alimentação Brasileira”. Transformados, esses livros renderiam muito. Isso comprova que o Rio Grande do Norte só será grande se valorizar sua cultura como forma de criação de emprego e renda.

O senhor vislumbra uma mudança nesse sentido num curto intervalo de tempo ou demora?
Eu penso que esse fato do encontro e do debate desse tema no Motores do Desenvolvimento como algo magnífico. Estarão reunidas pessoas e entidades das mais poderosas do Estado para debater um tema muito importante. Há uma busca muito grande, mas é preciso uma consciência da governadora, dos prefeitos quanto ao potencial do nosso papel histórico.

O que
37ª edição do Seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, com o tema “Arte e Cultura como instrumentos de desenvolvimento econômico”.

Quando
A partir das 8h do dia 14 de maio, no Auditório do Hotel Escola Barreira Roxa, na Via Costeira. A entrada para o evento é aberta aos interessados. As inscrições serão necessárias devido à obrigatoriedade de credenciamento, e devem ser feitas pelos telefones 4006- 6120 ou 4006-6121 em horário comercial.









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