Dia Internacional da Mulher: o longo caminho até equidade no mercado de trabalho

Publicação: 2021-03-07 17:19:00
Eles continuam sendo maioria em cargos de gestão e recebendo salários maiores do que elas. Neste Dia Internacional da Mulher, o grande questionamento continua sendo: por quê?

Segundo dados da Pnad Contínua, em parceria com o IBGE, os homens ocupam 65% do mercado de trabalho no Brasil, enquanto as mulheres ficam com 46,2%. Eles seguem ganhando quase 30% a mais do que elas. De acordo com o estudo “Representatividade das Mulheres nas Empresas” feito pela consultoria em marketing digital TRIWI, em 27,4% das companhias brasileiras ainda não há nenhuma mulher exercendo qualquer cargo de chefia. Já em 32,3% das companhias, a presença feminina não passa de 10% do total das posições de liderança. Um cenário que vem mudando aos poucos, mas o caminho ainda é longo até a tão almejada equidade.

Créditos: DivulgaçãoA engenheira Alyni Targino comanda uma equipe 100% formada por homensA engenheira Alyni Targino comanda uma equipe 100% formada por homens

Em nível local, no Natal Shopping, por exemplo, a presença feminina na mesa gerencial ocupa 51% dos cargos de liderança. Além da gestão das áreas comercial, marketing e arquitetura ser exercida por mulheres, suas equipes são 100% femininas. No empreendimento, elas também marcam presença forte nos cargos de supervisão, como é o caso de Mycaela Araújo da Silva, que aos 28 anos de idade, atua como supervisora do time de manutenção, tendo 13 técnicos, todos homens, sob o seu comando.

“O primeiro desafio quando assumi o cargo foi aplicar entre eles um novo conceito, homens que já estavam há décadas fazendo o mesmo trabalho. Mas eles logo se adaptaram à minha forma de gestão e a convivência no dia a dia é muito agradável. É uma equipe que atua muito unida, com o propósito de cumprir a missão até o fim, desde um serviço mais simples até os mais complexos”, esclarece Mycaela.

É responsabilidade dela e de sua equipe manter todo o empreendimento funcionando de forma impecável, desde a parte elétrica, refrigeração, hidráulica e predial.  Ou seja: ela ocupa uma posição tradicionalmente masculina. “A manutenção tem a ver com toda a estrutura do shopping. É um trabalho que o cliente não vê, porque geralmente todas as intervenções são executadas quando o empreendimento está fechado”, explica.

Grávida de 20 semanas, Mycaela acompanha atualmente o trabalho de sua equipe a distância, por estar em home office. “Este é um momento muito especial da minha vida, ser mãe era um desejo. Meus planos são continuar o trabalho até o final da gestação e depois, com uma criança em casa, voltar à ativa. Será mais uma experiência nova na minha vida”, projeta.

O superintendente do Natal Shopping, Felipe Furtado, explica que é uma premissa da rede Ancar Ivanhoe, da qual o Natal Shopping faz parte, contar com mulheres nos cargos de gestão da empresa. “Fico muito feliz ao olhar para a nossa mesa gerencial e para o time de liderados e ver tantas mulheres. Entendemos que a presença feminina faz toda diferença, pelo perfil, pela forma de enxergar as coisas, de trabalhar, é sempre muito rico. Elas são muito competentes em todas as áreas em que atuam, e em setores tradicionalmente masculinos, nos alegramos com a eficiência feminina”, pontua.

Em outra área também tipicamente masculina, a Contabilidade, mulheres começam a demarcar mais espaço, como Roza Diniz, 28, que ingressou como menor aprendiz na Rui Cadete Consultores. Hoje, ela é gestora contábil fiscal da empresa, que também tem aberto mais espaço para elas em seus cargos de chefia: atualmente, 74% são mulheres e 26% homens.

“Desde que abracei a primeira oportunidade de inserção no mercado de trabalho, venho aprimorando meus conhecimentos e me dedicando à minha profissão. Me orgulho do quanto a jornada até aqui me ajudou a desenvolver meu lado profissional e, também pessoal. Neste ano, tive que assumir uma dupla jornada, agora mãe e executiva. Isso tem me feito perceber o quão forte eu me tornei: hoje gerencio essas duas funções de forma prazeroza”, afirma Roza.

Para Rui Cadete, presidente da empresa, “a força de trabalho, do pensar e da espiritualidade da mulher é muito positiva. Elas trazem uma diversidade muito grande para as instituições empresariais. Desde o início da Rui Cadete, sempre acreditamos, valorizamos e investimos na presença feminina em patamares de igualdade de carreiras e salários”, explica.

Quanto ao espaço que elas ocupam na instituição, o executivo enfatiza que: “há um número maior de sócias do que de sócios, além disso, nossas diretorias e gestões também são ocupadas, em sua maioria, por mulheres, e no nosso corpo de colaboradores elas correspondem a mais de 70%”.

Outro campo que vem sendo desbravado pelas mulheres, não só tecnicamente, mas também na gestão, é a Engenharia. Alyni Targino é uma delas. Ela entrou na Cabo Telecom como operadora de Call Center em 2008, mas almejando a área de sua graduação, a Engenharia Elétrica. Quatro anos depois, passava a assistente técnica do setor de TI da Engenharia e, em menos de um mês, seria convidada a ocupar o cargo de gestão.

Ela conta que teve que aprender como funcionava a operação ao mesmo tempo que a gestão. “Na época havia pouquíssimas mulheres na Engenharia e nenhuma na gestão. Por isso, era preciso provar o tempo todo que eu tinha capacidade técnica e de administração também, já que estava à frente de uma equipe 100% masculina”.

Alyni esclarece que hoje é diferente. Internamente, o clima é de respeito a ela e ao trabalho que desenvolve. A equipe atua integrada sob sua liderança. Ela relembra que fora, no mercado, também precisou se posicionar para conquistar o seu espaço. “No início, quando eu chegava para as reuniões externas, uma mulher jovem, um rosto bonito, havia uma reação dos fornecedores homens em relação à minha competência. Tive e tenho sempre que me desdobrar pra provar que eu vou além disso”.

Como mudar o jogo


De acordo com Anne Katarine Miranda, professora dos cursos de Administração e RH da Estácio, o maior obstáculo para uma mudança de cenário ainda é a cultura do machismo.

“Mesmo após quebrarmos muitas barreiras, ainda há quem pense que as mulheres não são capazes. Sendo que é totalmente o contrário: estudos apontam que processos de negociação, tomadas de decisões, questões gerenciais, e a própria liderança, são exercidos de maneira bem mais eficaz pelas mulheres, mas infelizmente, a barreira cultural do machismo ainda as impede de mostrar suas habilidades no mundo corporativo”, conta.

Especialista em Gestão Estratégica de Negócios, Anne Katarine recomenda que as empresas busquem um ambiente de trabalho com maior equidade desde os processos de recrutamento e seleção. “Os benefícios são inúmeros: um ambiente com melhor clima organizacional, diferentes pontos de vista e o enriquecimento criativo em determinadas ações da empresa são só alguns. As mulheres são fortes e capazes igualitariamente aos homens. Não estamos falando de força física, mas de capital intelectual humano”, enfatiza.

A docente ainda incentiva: “Apesar de muitas mulheres ainda não serem respeitadas nos cargos de gestão em que lideram homens, é necessário ocupar esses espaços mesmo diante das adversidades para mudar as heranças culturais que ao longo da história adquirimos, e provar para o mundo nosso potencial”.