Diálogos com o mestre – A busca do diálogo

Publicação: 2020-02-16 00:00:00
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Nunca fui de voltar ao passado; acho que o  presente é o resultado de tudo que vivemos, e basta ver como agimos neste momento, para entender as bênçãos e corrigir as maldições.

Mas agora que minha vida está sendo revirada pelo jornalista Fernando Morais, resolvi também olhar algumas notas sobre meu aprendizado com J. meu amigo e mestre na Tradição de RAM. A maior parte delas foi escrita entre 1982 e 1986. Há muitos anos, publiquei alguns de seus diálogos nesta coluna, e embora a reação dos leitores tenha sido excelente, achei que bastava. Entretanto, relendo alguns cadernos empoeirados (já não faço mais isso, não tomo notas nem escrevo diários), descobri coisas muito especiais. Nas próximas quatro colunas vou transcrever as que me parecem mais interessantes.

Em uma tarde, em um café em Copacabana, depois de uma semana de longas práticas espirituais sem qualquer resultado, eu pergunto:

- Muitas vezes me sinto ignorado por Deus, embora sei que O tenha ao meu lado. Por que é tão difícil estabelecer um diálogo com a Divindade?

-  Por um lado, sabemos que é importante buscar a Deus. Por outro, a vida nos distancia Dele - porque nos sentimos ignorados pela Divindade, ou porque estamos ocupados com nosso cotidiano. Isto nos dá um sentimento de culpa muito grande: ou achamos que estamos renunciando demasiadamente a vida por causa de Deus, ou achamos que estamos renunciando demasiadamente a Deus por causa da vida.

“Esta aparente lei dupla é uma fantasia: Deus está na vida, e a vida está em Deus. Se conseguirmos penetrar na harmonia sagrada de nosso cotidiano, estaremos sempre no caminho certo, porque nossas tarefas diárias são também nossas tarefas divinas.”

- Mas que tipo de prática posso usar, de modo que possa acreditar realmente no que está me dizendo?

- Relaxe. Quando começamos nosso caminho espiritual, queremos falar muito com Deus - e terminamos por não escutar o que Ele tem para nos dizer. Por isso, é sempre aconselhável relaxar um pouco. Não é fácil: temos a tendência natural de sempre fazer a coisa certa, e achamos que vamos conseguir melhorar nosso espírito  se trabalharmos sem cessar.

- Você está me dizendo que devo ser passivo, e não tentar melhorar a mim mesmo?

- Depende de como você vê o seu trabalho. Podemos achar que tudo que a vida nos oferece amanhã é repetir o que fizemos ontem e hoje. Mas, se prestarmos atenção, vamos reparar que nenhum dia é igual ao outro. Cada manhã traz uma benção escondida; uma benção que só serve para este dia, e que não pode ser guardada ou reaproveitada. Se não usarmos este milagre hoje, ele se perderá.”

- Mas não existe uma maneira segura de estabelecer este diálogo com a Divindade, como a meditação, por exemplo? Ou com o esforço de tentar melhorar a mim mesmo todos os dias?

- Sua pergunta mostra um homem comprometido com uma idéia, e basta manter este ponto de interrogação sempre presente, que tudo irá se encaixar. As condições ideais que você está buscando não existem. Certos defeitos jamais conseguirão ser eliminados. O truque consiste em saber que, apesar de todos os seus defeitos, você tem uma razão para estar aqui, e precisa honrá-la.

“Procure ir além dos limites aos quais está acostumado. Seja, durante dez minutos por dia, aquela pessoa que sempre desejou ser. Se o problema é inibição, force a conversa. Se o problema é a culpa, sinta-se aprovado. Se achar que o mundo o ignora, procure conscientemente atrair todos os olhares. Vai passar por uma ou outra situação difícil, mas vale a pena”.

“Quem consegue ser o que sonhou durante dez minutos por dia, já está fazendo um grande progresso”.


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