Diário da Prisão - I

Publicação: 2020-03-31 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgaçãocolunacoluna

Penso comigo, Senhor Redator, quando a impaciência vence o medo dos perdigotos e a vida quer fugir pela ruazinha aqui do lado, entre verdes jambeiros: poderia ser muito pior. As manhãs são longas e se alongam nas tardes demoradas que escorrem, lentamente, como se fossem líquidas. É preciso ser um bom gerente das horas. Sou de sair pouco, mas não sei ser prisioneiro, ainda mais carregando esse triste destino de um pobre velhote do grupo de risco. 

Das penalidades que nos foram impostas a pior é não poder ir à biblioteca, de caminho tão perto, sem Lobo Mau e sem vovozinhas em perigo. Pra quê? Pra nada. Só para ficar nos jardins, caído no saco de uma espreguiçadeira e olhando aquele pequeno mundo de viagens e lembranças de perto e de longe, feito de uma humilde e quieta humanidade. É como se tudo tivesse vida. No entanto, ficamos aqui, tangidos pela rotina que Rejane, sábia, já se adaptou. Às vezes acho que o silêncio de Rejane, o mesmo ao longo dos seus 71 anos de vida, é sua forma de pecar pela soberba. Resiste a tudo em silêncio. Nos últimos dois anos, no seu estoicismo, enfrentou quatro cirurgias. Entra e sai do hospital em silêncio, sem maldizer a vida e o destino, no jeito sereno e espartano. Confinada, passou a matar a saudade das filhas, do neto e netas em conversas pelo whatzapp contando histórias e semeando alegria para todos. 

Há os que nascem assim, bem perto da perfeição, e nós outros, os imperfeitos de toda espécie. Fazer o quê?  Faço leituras no claustro da rede, escrevo a coluna, ligo a amigos de daqui e dali, e só. Se tivesse que escrever um diário, como o de Câmara Cascudo, o ‘Pequeno Manual do Doente Aprendiz’, também dividiria os instantes em cama, poltrona e janela. E acrescentaria a rede, aquela que ajuda a embalar o sonho, como ele disse, e é indispensável. 

Deve ter sido por conta dessas horas alongadas que outro dia lembrei a última visita a Edson Néri da Fonseca, na sua casa da Rua de São Bento, em Olinda. Oblato, inquilino e vizinho do Mosteiro, já mostrava o cansaço de viver, abandonando-se em longos silêncios, ele que era um conversador admirável. Rejane levou de presente uma caixinha de música, movida à manivela, que repetia acordes de uma canção que o emocionava todas as vezes que ouvia. 

Ficamos ali até que ele, depois de pensar alguns segundos, lembrou os versos de um poema de Apollinaire do qual tirou a epígrafe daquele que seria seu último livro. Um verso do poema ‘A Ponte Mirabeau’, lembrando o rio Sena, daquela Paris que ele tanto amava e onde viveu algumas vezes: “Chega a noite / a hora soa /vão-se os dias / vivo à toa”. Esse é o tempo que faz da alma uma prisioneira e acaba acordando os doces e calmos fantasmas do passado. 

VIRTUAL - A Assembleia Legislativa já estuda uma forma de realizar suas votações através de transmissões via Internet. Afinal de contas entre seus 24 deputados vários estão no risco.

MEMÓRIA - Armando Holanda concluiu o ordenamento e a revisão final dos depoimentos para o segundo volume das entrevistas de advogados ao Programa Memória Viva. Dez nomes.  

VEJAM - Não são os empresários que atentam contra as normas da Organização Mundial de Saúde, embora defendam a economia. Já doaram muitas ajudas em equipamentos e dinheiro.

MAS - Os banqueiros e aplicadores na bolsa - mercado de risco - pressionam o governo de forma torpe e na base da chantagem. Como se não existisse risco nas bolsas de todo o mundo. 
CIFRAS - É bom não esquecer que os três bancos privados do Brasil - Bradesco, Itaú e Santander - ultrapassaram a barreira dos R$ 40 bilhões de reais de lucro só no ano de 2019. 

MEDO - De um confinado lendo a convocação da carreata da volta ao trabalho “Em cima grita ‘Trabalha Teó’ e abaixo sussurra aos tolos: ‘Tomem precauções e não saiam dos carros”.

HILÁRIO - O comércio do Alecrim abrindo todo dia, das oito da manhã até quatro da tarde. Tomara que tenham combinado direito com o Coronavírus para só infectar depois das 16h.  

CULPA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, vendo o horror praticado pelos banqueiros do Brasil: “Dos que usam máscara o único que nada tem a esconder é o papangu”.
GESTO - Está na hora de uma instituição ter um gesto e adquirir a única coleção completa de todas as edições do Sebo Vermelho - são 516 em de trinta anos. E doar como maior conjunto editorial de obras e autores norte-rio-grandenses, muitos autografados e em estado de novo.

VALOR - Abimael Silva, com o Coronavírus, precisou fechar o Sebo Vermelho durante a peste e pôs a venda os 516 volumes por R$ 15 mil reais, em média, pouco mais de R$ 20 reais por exemplar. Alguns títulos são cotados em sebos nacionais por até R$300 e RS 400 reais.  

DESTINO - Há dois destinos nobres para a Coleção do Sebo Vermelho, detentora de várias reedições raras: a Biblioteca Câmara Cascudo, a ser reaberta este ano; ou a Biblioteca Central Zila Mamede, na UFRN, que hoje é a maior, a mais importante e mais organizada do Estado.   






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