Diário da prisão - II

Publicação: 2020-04-01 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação

Defeitos, estes confesso sem medo, afinal os desafetos acreditam e acrescentam, mas evito falar das qualidades. A maledicência não daria fé. Menos um: nascido na beira do mar, e de vida feita assim, por isso gosto de peixe. Cozido em água e sal, sem leite de côco, como só os praieiros sabem fazer o escaldaréu, com tomate, pimentão e cebola. Ou cozido no alvo leite de côco, com pirão mexido na hora, desses que o mundo de hoje quase não sabe mais mexer.  

Ou de peixe frito no azeite verdadeiro, com farinha que parece ter a função constritora, travando nas papilas gustativas como gosta de dizer a ciência do céu da boca. Aliás, boca é lugar que tem céu, e é nele que se opera o milagre do gosto prazeroso. Tenho pra mim que o vinho é a companhia requintada, mas peca por leveza evanescente, enquanto que a cachaça agasalha o desejo e alisa a alma. Fica combinado que peixe, farinha e cachaça se irmanam.

De uns tempos até aqui, confesso, praticamente desisti de comer peixe nos restaurantes de Natal, a não ser, se tanto, e se o desejo espeta a alma, um filé grelhado. Desde que não seja de Arabaiana ou Dourado. Gosto do filé de Garoupa, alvo como leite, Pescada Amarela, Sirigado ou Camurim que chamam de Robalo.  Da infância, Xaréu escalado e seco à sombra, ardido na brasa, ou uma cavala branca e roliça que os pescadores chamam perna de moça. 

O requinte do filé substituiu o peixe frito ou cozido, com pirão gordo, feito do caldo da cabeça, mexido ou coberto, e que a mãe da gente dizia ser rico em fosfato e bom para a inteligência. Minha sogra, D. Cloris, encantava com suas postas de bicuda no forno, banhadas em azeite de Oliva. Vi o senador Dinarte Mariz elogiar, na casa Afonso Pena, 755, almoço marcado por ele com meu sogro, Dr. Omar Lopes Cardoso, lembrando a Revolução de 30.  

Maria, assessora no ofício da alquimia e que anda por aqui há uns vinte anos, ou mais, nascida na beira da praia, sabe fazer bem essas coisas. O pirão é um patrimônio da cozinha brasileira, neto do mingau indígena, segundo Câmara Cascudo e Gilberto Freyre. De vez em quando vou à Casa do Peixe, do velho amigo Ney Marinho Júnior, como faço há anos. E de lá volto de bisaco bem fornido para enfrentar as exigências do desejo quando resolve acordar. 

Tudo isso já começa a desaparecer da mesa nordestina. Cadê os velhos e suculentos ensopados de Arraia e Cação, com cachaça, que Maria fazia na Redinha para agradar a Lenine Pinto? Uma vez, certo da novidade, escrevi sobre o Budião, peixe nascido sem nobreza - hoje seu filé é exportado. Quando o jornal saiu, Roberto Varela ligou emocionado. Era o peixe que sua mãe, D. Antonieta, gostava de fazer no verão da infância, em Muriú. Que saudade dele!

OLHO - O jornalista Carlos Santos publicou no Herzog, o principal blog de Mossoró, que a Assembleia tem uma reserva aplicada da ordem de R$ 100 milhões. Bala em tempo de crise.

FÓRUM - O desembargador João Rebouças deverá reabrir o Fórum da Zona Norte, hoje fechado. Um gesto superior para com uma população já da ordem de trezentas mil pessoas. 

LEVE - Foi leve e de boa fé a decisão da Justiça Eleitoral de apenas suspender a propaganda eleitoral em frascos de álcool-gel, sabão e sabonete. Deveriam ficar inelegíveis pela cretinice. 

SUGESTÃO - De um gaiato esperançoso a esta coluna: “Os presidente dos partidos aqui no Estado poderiam doar o fundo partidário de cada um deles para a luta contra o Coronavírus”. 

LUTA - A prefeita Rosalba Ciarlini tem enfrentado o desafio de manter em dia a folha de pessoal dos funcionários, mesmo pagar numa em uma só parcela os seus auxílios salariais. 

EFEITO - Há quatro dias, em razão da redução de vôos para Natal, que os assinantes da Folha de S. Paulo não recebem seus exemplares. E seu distribuidor não presta informações. 

AVISO - Abimael Silva, que fique bem entendido, não está com o Covid-19. O confinamento atingiu o Sebo Vermelho e por isso anuncia a única coleção completa com suas 516 edições.  

ELOGIO - De Nino, o filósofo do Beco da Lama, ouvindo os protagonistas ardilosos do heroísmo a favor “O elogio é a fantasia da coragem que os medrosos vestem com despudor”.  
ELITES - “A mesmas elites que no passado foram contra o fim da escravidão, se opuseram aos direitos trabalhistas, não lutaram contra falta de saneamento e o avanço da favelização no Brasil, detestam o SUS, agora defendem o fim da quarentena para ‘salvar nossa economia”. 

AQUI - Tirei o texto anônimo que circula nas redes sociais. No RN, e lamentavelmente, o panorama é bem pior. Aqui as elites não mais existem. Elites são pensantes. Temos ricos, mas pouco dados a uma visão de futuro, além de governantes sem o velho e bom espírito público.  

ALIÁS - Como se não bastasse o destino infelicitado de não tê-las - e as tivemos um dia, registre-se - há novos animais na floresta de uma nova fauna que se criou aqui: os voluntários da servidão. Colocam a inteligência a serviço dos jejunos enfatiotados que nada produzem.







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