Diário da Prisão - III

Publicação: 2020-04-02 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Outro dia andei reclamando aqui da inexperiência dos brasileiros com a economia de guerra. E é verdade. Na primeira, entre 1914 e 1918, e na segunda, 1939 a 1945, mandamos tropas, mas o país viveu longe, trabalhando e produzindo. É diferente. Se Winston Churchill não tivesse convocado os americanos na Segunda Guerra, com seu poderio bélico - marítimo, aéreo e terrestre - a força alemã venceria. Adolf Hitler atravessaria o mar e atacaria os EUA.  

Ainda que alguém, por convicção ou por neurose, estenda os efeitos do Coronavírus a fins de junho, ou mais, será muito menos do que o mundo viveu nos cinco anos da primeira e nos mais de seis da Segunda Guerra. Quem conhece os discursos de Churchill aos ingleses, diante da Câmara dos Comuns, ou no rádio, sabe que a Inglaterra nos muitos anos de domínio do Império Inglês, nunca esteve tão destroçada como em 1942, ao pedir a ajuda aos EUA.

Na Batalha de Dunquerque, em 1940, os exércitos inglês e francês saíram destroçados.  A França logo depois caiu na rendição e os ingleses, estoicos, resistiram. Mas, para resistir, e exortados pela retórica de ferro de Churchill, enfrentaram uma quase impossível economia de guerra. Londres bombardeada, muitas fábricas fechadas, desemprego, plantando batata nos quintais e tendo nos seus ouvidos só a promessa de sangue, suor e lágrima da frase célebre. 

Se não há a violência de uma guerra de anos e anos, só alguns meses de pandemia, é preciso, sim, acreditar no que disse à CNN o economista Roberto Dumas: numa economia de guerra o objetivo é salvar vidas, porque a própria economia é capaz de ressuscitar empregos, mas não pode ressuscitar vidas. Querer desconhecer o valor da vida, por pior que possa ser a perspectiva, é negar a lição de que basta uma só vida para representar toda a humanidade. 

Não é fácil. E não é. Mas aos chefes de estado não é dado o direito à claudicância e à dúvida entre salvar a economia ou salvar a vida que mantém essa economia. É muito difícil lutar tão órfão quando parecem fugir todas as esperanças. A um líder cabe o ato de conduzir seu povo e sem medir esforços para levá-lo a acreditar que a vitória é possível. Um líder de verdade não tem o direito de abandonar o sonho individual e coletivo dos seus governados. 

Já passado em décadas, na soleira dos setenta anos, é difícil aceitar que alguém eleito pelo voto não tenha grandeza política e ponha um balcão a separar o sucesso econômico do seu governo da vida daqueles que ele prometeu governar com a mão direita sobre o texto da Constituição. Talvez mais do que a ferocidade do Covid-19 estejamos enfrentando uma fera desumana e terrível que é a solidão de um povo que imaginou ter alguém para defendê-lo. 

MERCADO - Quem sabe, sabe. O capital tem inteligência própria. Até as simples quitandas improvisam o delivery, a entrega doméstica, e tentam conviver com a crise. É o bom capital. 

ALIÁS - Louvável a luta dos corretores dos computadores. Na solidão mais absoluta tentam substituir ‘delivery’ por ‘entrega’ em nome da língua, contra os sempre luxuosos anglicismos. 

ATENÇÃO - Tem sido pífio, como exemplo de firmeza, o posicionamento das instituições representativas da esfera privada, diante de explorações descabidas. A crise atesta as mentiras.

HISTÓRIA - O pesquisador e folclorista Gutemberg Costa prepara o segundo volume da sua história do carnaval. Depois do período 1875-1906, o segundo volume cobre de 1946 a 1996. 
BOAS - A editora Global, convencida de que esse tempo de confinamento é tempo de leitura, manda às livrarias a décima-segunda edição de ‘As Boas Coisas da Vida’, de Rubem Braga.

ABUSO - A Prefeitura nunca conseguiu pagar em dia o cachê dos artistas locais, mas paga antes aos convidados e muito mais caros. E os nossos são jogados na fogueira da burocracia. 

VÍCIO - Desde os festivais literários que é assim. Com os recursos dos seus patrocinadores a Prefeitura pagava aos seus ilustres convidados e a nós outros destinava as chamas do fogaréu.

OLHO - De Nino, com seu olhar maroto, com anos e anos de experiência no convívio com os sabidos, olhando o cenário, entre um gole e outro: “Aderir é uma forma sabida de se vacinar”. 
NOTA - Só há uma solução jurídica precisa para o Procon flagrar má e a boa fé nos aumentos exagerados de preços: exigir dos estabelecimentos, agora sob o regime de calamidade pública, exibição da nota fiscal dos fornecedores para comprovar se foi aplicado o mesmo percentual.  

ALIÁS - Seria bom que a Assembleia Legislativa aprovasse lei nesse sentido, se é que a atual legislação já não permite fazê-lo. Especular nesta hora, ao invés de apenas transferir custos, é um crime contra a economia popular e contra a cidadania e uma sociedade não pode tolerar.

ALIÁS - Esse posicionamento de conscientização já deveria ser iniciativa natural das próprias Federações da Indústria e do Comércio, sempre tão ágeis no marketing de promoção pessoal. Justificar com maior demanda, sem aumento de custo, é um crime contra a economia popular.





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