Diário da Prisão - V

Publicação: 2020-04-04 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


No homem, Senhor Redator, nada espanta. Nem a maldade, nem a bondade. Nem o ódio, nem o amor. Nele tudo é intrínseco, da própria natureza e constituição. Aquele que é do bem ou do mal será sempre assim. O mal é tão arraigado quanto o bem nas personalidades fortes. Robert Browning, o poeta inglês, acreditava que é do ser humano desejar os limites, como o “ladrão probo, o assassino amável e o ateu supersticioso”. Como se não fosse em vão.

Outro dia, conversando por telefone com Gilberto Vasconcelos, de quem sou amigo e a quem pedi um ensaio inédito sobre Câmara Cascudo para a revista da Academia, na edição de junho próximo - ouvi entre gargalhadas que está escrevendo sobre o fenômeno que vive o Brasil, ele que é autor do clássico - ‘De Olho na Fresta’, entre outros livros. Resolveu, depois de pensar no seu refúgio da serra de Petrópolis, por um título ‘Sequestraram a Mãe Gentil’. 

Na visão dele, e Gilberto tem coisas geniais, temos um padrasto de má índole que para nos governar sequestrou a nossa mãe que era tão gentil e ficou com muito mais liberdade para  praticar todas essas atrocidades que marcam seu estilo autoritário. Perdemos o amor materno e, como se fosse pouco, enfrentamos uma convivência carrancuda. Dai ser fácil de explicar essa falta de carinho a um Brasil ainda tão carente, saudoso daquela mãe que afaga e perdoa.

Ficou de remeter o texto, via internet, antes mesmo de mandar ao prelo. Doutor e pós-doutor pela Universidade de São Paulo, com vários livros lançados na busca de compreender esse país tropical, de Gilberto Freyre a Glauber Rocha via Xuxa, quem sabe Gilberto terá a explicação. Não pretende fazer medo, diga-se. Não é dele acreditar em milagres, mas apenas fazer a sua parte. Por o dedo na ferida desses tempos convulsos, entre ameaças e balbúrdias. 

Aguardemos. Pra mim não custa esperar, prisioneiro que sou com direito a só olhar o mundo lá fora desta pequena varanda que alterna o sol e a sombra, entre as manhãs luminosas e as tardes fagueiras. E não custa muito, devo confessar, esse destino contemplativo e próprio dos parnasianos. Coleciono os dias riscando-os na parede como um condenado. Quem sabe, eles passam. Como passam todas as coisas que às vezes ameaçam a grande alegria de viver. 

Só tenho medo do que narra a literatura sobre esses graves mistérios da alma humana, quando diz que a origem do mal muitas vezes vem da infância. Há quem acredite que certos indivíduos despejam contra o mundo dos outros tudo quanto sofreram na tenra idade, o que não é de todo um estapafúrdio. Como há o bem intencionado que culpa não ao mundo, mas a quem pratica o mal, resultado de uma escolha do livre-arbítrio. Danado é quem duvida, ora!

AVISO - Mais um livro com o seu lançamento adiado pela pandemia: “Moça com Brinco de Princesa e outras estripulias literárias”, de Diógenes da Cunha Lima. Edição Espelho D’Alma.  

TIRO - Do historiador e filósofo Leandro Karnal para Majú, da tevê Globo, solidário diante do racismo que sofre na tela do seu trabalho: “Há muitos babacas, mas um dia o vírus acerta”.

MISTÉRIO - Há doze dias a Folha de S. Paulo não chega aos olhos dos seus assinantes nesta brava aldeia de Felipe Camarão. Nem sequer informa se ainda chegará a este beiço de rio.

RETIRO - O crítico de cinema Valério Andrade retornou do Rio. Lá, visitou o filho médico, enfiou o rosto numa máscara, entrou num avião e voou de volta a Natal. Calado e mascarado.
BOA - Uma notícia: a UFRN dispõe de dez mil litros de álcool concentrado a 70% e com isto vai fabricar álcool-gel para as suas unidades hospitalares, todas do Sistema Único de Saúde.  

CENTRO - Foi ágil, não há como negar, a direção da Unimed transformando seu espaço no Via Direta em Centro de Referência para o atendimento de casos suspeitos de Coronavírus. 

REZA – O destino aqui, dizia um infectologista aposentado, com muitos anos de enfermaria na saúde pública, é rezar. “O governo já sabe que a nossa estrutura é profundamente frágil”. 

SOLIDÃO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, longe do seu bar de todos os dias, perscrutando o silêncio do mundo: “Na solidão algumas mulheres ficam mais sensuais”.
HISTÓRIA - O engenheiro e professor do IFERN, Manuel Negreiros, deve finalizar até fim deste ano a pesquisa sobre a história da Ponte de Igapó que já ultrapassa 350 laudas e reúne cerca de 200 imagens - fotos e plantas - muitas inéditas até hoje, mais de um século depois.

SAGA - Negreiros realizou pesquisas no Brasil e no exterior, esteve na fábrica que, à época, forjou as suas vigas metálicas, e descobriu não só os cálculos considerados arrojados feitos há um século, como a técnica dos ingleses para construção das estruturas submersas no Potengi. 

DETALHE - Entre seus muitos detalhes, um chama a atenção: a intervenção do jornalista e então deputado federal Eloy de Souza. Ele lutou junto ao governo federal para a construção dos passadiços laterais, permitindo a travessia de pedestres. Uma grande pesquisa histórica.






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