Diário da prisão - VI

Publicação: 2020-04-05 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação

Por esses dias, o que às vezes dói, Senhor Redator, daquela dor de não ter jeito, como a tristeza do poeta, é não visitar minha mãe, 91 anos. Ela precisa ser preservada, sob o olhar vigilante e cuidadoso da minha irmã Lúcia. Sofremos os dois com essa distância. Sou filho tão querido quanto meus outros cinco irmãos, mas não esqueça que sou o mais velho e, por isso, aquele que inaugurou, diz a perfeita sabença popular, o grande sentimento do amor materno.

Depois, vem a saudade das filhas e dos netos, dos almoços de domingos, estirados no café, nas conversas e no sono breve da tarde. No mais, é a vida besta, como gostava de dizer Mário de Andrade. As tarefas dividem as horas ao meio, entre o prazer e a obrigação. Tem as domésticas, inevitáveis e imprescindíveis, e as vadiagens que a alma inventa. Uma ligação, o jornal que chegava e agora, há dias, já não chega mais, engolido pelos aviões desaparecidos. 

No mais recente e-mail, lá ainda no início da semana, Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, estava de humor afiado. E lembrou, numa metáfora risível, do debochado e caricato herói da caneta Bic. Não tenho nada contra a Bic. Gosto dela. Digo sempre que além de funcionar muito bem, denuncia o processo de iconização e ressignificação que envolve as belas canetas de grife. As que falam como se dissessem: “Olhem, eu sou uma Mont Blanc”.  

Mas, é preciso bem separar as coisas. A Bic é eficiente na escrita, mas não faz alguém ser herói nem estadista. É farsante desde séculos o processo brasileiro de heroicização. Nossos heróis, com algumas raras exceções, são pobres, verdadeiras invenções das elites em busca de nobreza. Ninguém de bom senso, com um mínimo de lastro cultural, pode acreditar que um herói, mesmo popular, se faça por usar uma caneta Bic. É apenas uma diluição do ridículo. 

Nós gostamos do herói a favor dos fortes e poderosos, como se fosse possível ser herói contra os fracos e em nome de uma glória injusta e desumana. É torpe o uso que fazemos da ideologia, coisa que sequer o brasileiro comum tem consciência. Nos últimos tempos, virou desaforo. Se alguém critica, é petista e comunista. E se elogia é de direita e contra a liberdade. É a desqualificação absoluta no exercício tolo das ideias escondendo interesse ou servidão. 

O vírus mais perigoso que se dissemina sem controle, até hoje, desde o descobrimento, há 500 anos, é a peste de sabidos. Sábios eram os portugueses e seus brilhantes companheiros de dominação, os Jesuítas. Foram embora logo depois da independência, mas ai era tarde. Já existia aqui uma colônia de sabidos, criados e treinados no laboratório dos negócios escusos com a corte portuguesa. E estão ai até hoje. Lambendo os beiços no toucinho da ambição...  

MEDO - Começa a nascer, até nos setores mais bem providos pelo artifício dos orçamentos próprios, o medo da queda brusca de arrecadação do ICMS e derrubando a receita estadual. 

COMO - É preciso lembrar que o duodécimo é constitucional, mas também é percentual, ou seja, calculado mensalmente sobre a receita. Se esta vier a cair, seu valor também despenca.

DEPOIS - Em estado de calamidade, nacional e estadual, nenhum poder pode reivindicar o privilégio diante das agruras coletivas. Seus efeitos deverão se prolongar até o final do ano. 

EFEITO - Por decorrência, o adiamento da cobrança de impostos também poderá atingir as finanças municipais. Ameaçar com cobrança judicial do IPTU e ISS seria um estapafúrdio.
ANL - Pronta a edição do primeiro trimestre da Revista da Academia, homenagem a Oswaldo Lamartine e com o texto de Cassiano Arruda sobre o Grande Hotel, ícone da história de Natal. 

TIRO - No artigo semanal da ‘Carta Capital’, o bruxo Delfim Neto acusa de ingênua a Casa Civil do Planalto ao entregar o poder ao Congresso. General fazendo política faz coisas assim. 

UÉ? - Para alguns petistas ligados à governadora Fátima Bezerra deu banzo no ex-deputado Fernando Mineiro: “Hoje até seu silêncio prepotente já desceu a muito além da grota funda”.

DENGO - De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, na solidão do sábado, olhando o azul como o marinheiro que perdeu a graça no mar: “Quem dobra o Bojador não dobra a dor”.
ORIDES - O dossiê da edição de março da revista Cult - está nas bancas - é sobre a poetisa Orides Fontela (1940-1998), aquela que viveu muito pobremente os últimos anos de sua vida, em São Paulo, com vários livros publicados e consagrados como dos maiores do seu tempo.

LIVROS - A revista, nas indicações de leituras fundamentais sobre a obra de Fontela, inclui o romance-reportagem sobre a poetisa - ‘O Enigma Orides’ (Hedra, SP, 2015), do norte-rio-grandense Gustavo de Castro, um ex-professor da UFRN e hoje da Universidade de Brasília. 

OMISSÃO - A edição omite as contribuições de outro potiguar, professor da UFRN, Márcio Lima Dantas. É o tradutor de Fontela na França, com Emmanuel Jaffelin (L’Harmattin, Paris, 1999),  e do ensaio ‘Imaginário e Poesia em Orides Fontela’, numa edição da UFRN, 2011.  





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