Diário da Quarentena – LXXVIII

Publicação: 2020-07-11 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Lamento, Senhor Redator, o dever de confessar, mas ninguém vive sem amar e odiar. Essa descoberta, se não é apenas constatação, é culpa de um tempo que, se não envelhece a alma, deixa os olhos agudos. Se a psicanálise está em toda parte e vive nas dobras das palavras, não há como evitá-la ou fazê-la prisioneira da conveniência. Ela foge da dissimulação e vai cair bem dentro de outros olhos, traindo as boas etiquetas que a civilização tanto quer amainar.

Foi a psicanálise, de certa forma, que percebeu ser o ódio um amor enlouquecido e do tipo, como na canção popular, que errou de veia e se perdeu. Há, como até já advertiu a grande Elizabeth Roudinesco, um amor que ama o ódio e Narciso é o carrasco de si mesmo. O Diabo é quem duvida. Como ela avisa no seu ‘Dicionário Amoroso da Psicanálise’, há como que um amor para cada forma de amar - fraterno, devorador, criminoso, triste, perverso, delirante...

Há um amor inquieto nas paixões, assim como é possível vivê-lo na quietude que a semeadura dos anos ensina. Se o ódio algumas vezes substitui o amor dos amantes em grandes lutas passionais, também é o amor, de repente renascido, aquele que adormece o passado num sono profundo, e perdoa. A rigor, e pra valer, nunca se sabe bem dessas coisas do coração, um território romântico e sensível, em carne viva, que o homem inventou para ferver as emoções. 

Dizia o cronista Antônio Maria que nada é mais comovente do que o ser humano quando dorme. Essas palavras são suas. É como se a carne entrasse em comunhão com a alma e se desfizessem de todas as tramas. O ser humano só é puro quando dorme, quando faz a longa e mágica viagem de retorno ao mais íntimo de si mesmo. Enfrenta pesadelos e sonhos como se fosse preciso ir até a inconsciência para compreender a consciência de todas as coisas.

Ora, se para amar e odiar é preciso aceitar o desejo com as suas culpas - excesso, gula, luxúria, ganância, inveja, orgulho - como quer Roudinesco, é porque o desejo é culpado. É por isso que é tão forte e tão invencível. O desejo está sob o controle de quem é desejado e não por quem deseja. O que vale também para os desejos recalcados, reprimidos, aqueles a quem o orgulho não confessa a frustração e esconde, há séculos, o feio monstro da inveja.  

Outro dia, lendo um ensaio sobre o amor, fiquei espantado com uma frase de François de La Rochefoucauld: “Há pessoas que nunca teriam se apaixonado se um dia não tivessem ouvido falar no amor”. Seria a alma humana tão volúvel? Então é verdadeira a grave suspeita de Elizabeth Roudinesco de que não é o mal, mas o bem que engendra a culpa? Ora, ainda é madrugada, Senhor Redator, sob os presságios e a bela magia da noite. Quem há de saber?

ARENA - Nos corredores sussurrantes da Assembleia Legislativa há quem espere, ainda para esta semana, a decisão parcial da Justiça sobre o retorno ou não da CPI da Arena das Dunas.  

LUTA - Para um procurador da AL, não é comum o Poder Judiciário impor ao Legislativo o que é da sua competência intrínseca. Mas todo juiz é soberano. O Legislativo acata ou apela.  

PERGUNTA - Já tem gente perguntando em Caicó: Vivaldo Costa vai poiar Dadá Costa, seu irmão, ou mantém o apoio a Judas Tadeu, do PSDB, contra o irmão, e se este for candidato?

ALIÁS - Em Caicó, Santana, como mãe, vai proteger a todos. Já tem, até hoje, sete candidatos, entre eles o prefeito Robinson Araújo à reeleição. Mas só vence quem tiver bom merecimento.

BRASIL - Segundo as redes sociais, o Brasil já alcança um patamar considerável de 200 mil milionários e Paulo Guedes põe uma bomba no bolso dos assalariados. É não ter medo do cão.

OUSADIA - A Justiça brasileira surpreende em algumas decisões suas: a mulher de Patrício Queiroz, foragida da Justiça, ganhou uma prisão domiciliar. Sem antes se apresentar à Justiça.  

FÉ - As paróquias de Caicó, Currais Novos e Acari vão festejar, este ano, as suas padroeiras com novenas, missas, leilões e bênçãos de forma virtual. A fé remove montanhas até de vírus. 

SABIDO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama: “O sabido é feliz com a sua riqueza, mas já retorna da festa, depois dos abraços e beijos, na companhia da sua tristeza”. 

RAÍZES - Menino sertanejo, criado nas campinas da centenária Fazenda Cangaíra, chão antigo, dos ancestrais, Mano Targino resolveu redescobrir a nobreza caipira do Porco Preto, casco de burro, e já deu conta do primeiro criado no pequeno plantel de cinco fêmeas e um reprodutor. 

PRETO - Ele é velho quase tanto quanto o Brasil, e ibérico. Veio da Espanha, segundo ouviu e leu Mano Targino. A Colômbia é seu maior produtor e tem lugar nobre no prato e na boca de portugueses e espanhóis. É o nosso porco caipira criado em chiqueiro pelo povo sertão.

CURA - Das suas partes, em cortes nobres, separou o lombo, o filé, costelas, paletas e pés. Barrigas, bochechas, e orelhas. Mergulhou os dois pernis na salmoura e, assim, adormecidas, a dez graus, iniciou a cura. Dois anos e será presunto. Perfeito de corte e de gosto. É esperar.