Diário da Quarentena - C

Publicação: 2020-08-06 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Não há caminho mais fácil para se perder a boa medida, tão indispensável a tudo, do que assumir a estupidez. Não precisa coragem. Basta ser estúpido. Como outro dia, em S. Paulo. Uma repórter perguntou ao experiente epidemiologista João Gabbardo Reis, aquele que foi da equipe de Henrique Mandetta, se agora seria preciso suspender grandes concentrações, como revellions coletivos. O médico perguntou de volta: “Para comemorar o quê? Cem mil mortos?”. 

Afastemos as culpas e culpados. Deixemos o raciocínio em berço esplêndido, de tão patriótico e confortável, e lancemos outra pergunta: o que falta para a certeza da tragédia? Da mais pobre tribo da África aos Estados Unidos, cada um, na proporcionalidade, teve provas do que todos vivemos. Os americanos, donos da maior riqueza econômica e científica do mundo, gastaram até hoje dois trilhões de dólares, se a alguém basta medir as coisas pelo valor material.  

Esta coluna, para não ser pessimista, chegou a duvidar que o Brasil chegasse a ter cem mil mortos. Achou, no início, que as projeções estavam exageradas. Estamos chegando a cem mil e não vale tentar justificar com estatísticas paralelas, com mortes por acidente no trânsito, violência urbana, infarto ou trombose vascular. Não se pode, a não ser por estupidez, comparar morte natural num país hoje com mais de duzentos milhões de habitantes. Tudo aqui é muito. 

Para dinamitar essa tolice, basta examinar o efeito dos que usam a estatística como desculpa no país com mais de duzentos milhões de habitantes. Mesmo numerosas, não geram alterações profundas na vida econômica. Por consequência, na vida de todos, do mais rico ao mais pobre, em igual intensidade e, ao mesmo tempo, alterando até as relações de poder entre grupos e culturas. Só a estupidez com seus olhos baços, entre antolhos, é capaz de pensar assim. 

Depois, incomparável na sua grandeza como dom de Deus, e se basta uma vida para representar toda a humanidade, como já foi dito, é insustentável fazer a conta em números, se maiores ou menores. A crise teve uma força reveladora em todos os sentidos e como o terceiro milênio estava a desafiar.  O homem não pode perder a noção de sua pequenez para não cometer a atrocidade de pensar ser o deus de si mesmo. É desastroso não compreender o seu mistério. 

É essencial aprender as lições do horror na terrível pedagogia da dor. Ao mesmo tempo, olhando de perto o devastado mundo que vai ficando no sentimento humano, hoje um deserto cheio de medos, quem sabe, era indispensável a dura privação. O ser humano talvez andasse muito apegado às coisas que ele mesmo inventou, imaginando-se eterno. Esquecido de que há algo superior e que mora na sua própria alma a fragilidade do medo ancestral que o faz menor. 

CERTO - Os elevados índices de contaminação ainda contabilizados em alguns municípios mostram que o governo estava correto quando prolongou ao máximo o fim do confinamento. 

LUTA - Os onze deputados da oposição andam de olhos atentos observando a movimentação do governo na busca de provocar defecções antes do retorno das sessões presenciais. Resistirá?

NÃO - Confirmado: a médica e deputada Carla Dickson não será mais candidata a vereadora, mas terá um nome de sua confiança para tentar ocupar sua cadeira. Sua bancada já sabe disto.

CHANCE - A Cosern publicou seu edital de seleção para o financiamento de projetos culturais como faz todos os anos. É hoje o mais importante programa de incentivo no âmbito do Estado.

AVISO - Para quem não conhece a palavra do genial Guimarães Rosa sobre o mistério da mesmice nesses tempos de peste: “No mais, mesmo da mesmice de sempre, vem a novidade”.

LEVE - Esta coluna avisou e Aluísio Lacerda chegou a repetir a frase nas redes sociais que ‘a verdade é leve’. E é. A Lava Jato que parecia inexpugnável sofre a corrosão do que engendrou.

LENTE - Vítima de estagnação, a Fiern demite mais 80 servidores, chega a 146 demissões e registra em nota de tom heroico. Crivo foi técnico ou atingiu apaniguados sob o manto patronal?

HUMOR - De um dos 146 demitidos da Fiern, vendo uma instituição que foi forte e atuante desmilinguir-se pela falta de líder para comandá-la: ‘Já está sendo chamado de Amaro Beirute’. 

CRISE - O RN ainda não ouviu a palavra de Rinaldo Reis, ex-chefe do Ministério Público e hoje Corregedor Nacional do MP. É bom não esquecer: ele assinou, com o procurador Augusto Aras, a ‘Recomendação Conjunta’. De como as procuradorias deverão agir nas investigações. 

ANTES - O documento - cinco laudas, com dezesseis ‘Considerandos’, cinco capítulos e vários artigos - embora posto como ‘Recomendações”, fixa as orientações básicas que os MPs devem seguir. Foi expedido ainda dia 19 de junho, bem antes do entrevero público entre procuradores.  

PAPEL - Como Corregedor geral, com atuação em todo país, ele integra o Conselho Nacional do Ministério Público e nessa condição Rinaldo Reis tem a missão de fiscalizar o cumprimento rigoroso das recomendações e proteger a instituição de acusações que possam anular denúncias.   


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