Diário da Quarentena - II

Publicação: 2020-04-09 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Não há grande prazer na vida de prisioneiro, Senhor Redator. Logo fenecem na carne e alma as esperanças, como nos sonetos parnasianos. Não é bom olhar a vida lá fora, ao sol do pequeno mundo que você conhece e sabe seus caminhos. A rotina impõe exigências e é bom dela dar conta. Por mais óbvio que pareça, os minutos correm, as horas escorrem e os dias passam a cada instante que se vive como se fosse um pêndulo monótono de repetições. 

Aliás, há em cada um de nós um velho metrónomo que vai impondo, com precisão, o compasso do tempo. Tem seus ritmos, não se há de negar, mas seu papel é guiar os átimos que separam as notas tristes e alegres da vida. Da vida - e repito como simples realce - que não deixa de ter algo de orquestral. Depois de tudo, quando os anos se aninham em algum lugar mais escondido da alma, então a gente descobre que não há mais lugar para os sonhos. 

Digo dos sonhos ardentes, daqueles que, sonhados ou realizados, não importa tanto, reinauguravam a vida em cada um de nós. Não só esses ou aqueles sonhos. Todos, se todos os desejos ardem - por um lugar, um objeto, um olhar, uma paixão. Um velho prisioneiro, Senhor Redator, e por mais vivos que sejam os seus sonhos, jamais terá desejos ardentes se chegou sua hora transcendental de vivê-los em repouso, na alma já apascentada pelos anos. 

Depois, sejamos sinceros: são sempre longos e sem graça os dias aprisionados pelo medo, ainda que saia da vitrola um samba alegre. Ou uma velha canção de amor. E se tudo é breve nesta vida, e passa, as horas prisioneiras nunca são vividas como lá fora, sob o sol das manhãs quando chegam por sobre esses morros. Saudadas por gorjeios, trinados e arrulhos que enfeitam a manhã e prometem à vida, outra vez, aquele tempo bom e doce de liberdade. 

Diziam os velhos médicos quando aprendiam com a dor humana a explodir na carne viva, que a melancolia era a bile negra que invadia as cavernas mais íntimas da vida. Tanto que os maiores estudos sobre a melancolia não nasceram das mãos assépticas dos médicos, mas dos filósofos, pintores e poetas, ensina Elisabeth Roudinesco no seu dicionário que é um clássico sobre a alma humana. Nasceram das mãos sujas da dor e do pranto que é viver. 

Não vendo esperanças. Não vendo. Prisioneiro só vive dias melhores se antes vencer a grade e entregar sua vida ao calor humano das ruas. Mais tristes só os carcereiros. Dizia Cioran - Emil Cioran - um romeno que viveu em Paris, filósofo do ceticismo e da podridão humana - e cito de memória, longe dos livros, sem certeza da exatidão literal: “Mais pobres do que os prisioneiros são os carcereiros. Estes, sequer, podem sonhar com a liberdade”.  

GRANA - Um juiz de primeira entrância determinou que os recursos do Fundo Partidário sejam destinados à luta contra o Coronavírus. Não é definitivo, mas vai abrir debate público.

GUERRA - A idéia não agrada ao Congresso que não aceita, mesmo tendo aprovado estado de calamidade púbica nacional e orçamento de guerra. Não querem gastar com suas eleições.   

IDOSOS - Foi ágil a editora Universitária e lançou a edição virtual da Cartilha para Idosos, com todas as informações necessárias - com textos e ilustrações didáticas. É o tiro na mosca.

NOTEM - A julgar pelo que projetam alguns analistas da própria área econômica, a grande vítima da peste pode ser o neoliberalismo do doutor Paulo Guedes. É financista em excesso.
EFEITO - Para alguns dos seus mais credenciados colegas economistas, Jair Bolsonaro e os seus generais sairão da crise convencidos de que é inadiável a distribuição social mais justa. 

FOCO - O governo e a Prefeitura precisam canalizar suas parcas verbas publicitárias para um foco objetivo campanhas de conscientização da população. Nada de culto a eles mesmos. 

CELSO - A deputada Natália Bonavides, PT, conversa no instagram com Celso Amorim, o ex-ministro das relações exteriores. O programa no instagram pode ser acessado livremente.  

ELE - A revista Isto É, edição desta semana assumiu, claramente, com todas as letras e na matéria de capa que a saída para o Brasil é o general Mourão. E até classifica como antídoto. 
ATEJNÇÃO - Há quem defenda ação urgente das pastas da Saúde do governo e Prefeitura no apuro da coleta de dados sobre infectados no RN. A morte é mais fácil de notificar, mas o número de infectados não reflete a realidade. A contaminação parece ter um ritmo acelerado. 

HUMOR - De um deputado de oposição vendo a pasmaceira nos corredores da Assembleia e a foto de todos os parlamentares na tela do computador da presidência: “Enquanto ficarem entretidos com a brincadeira virtual ficam adiadas as maldades da Reforma da Previdência”.     

TIRO - Título do artigo do ex-ministro da economia, Delfim Neto, na Carta Capital, a quem os energúmenos não ousam acusar de comunista “Esquizofrenia presidencial”. Ele acusa o governo Bolsonaro de ser assessorado pelo grupo ideológico que é “um tumor no palácio”.