Diário da Quarentena - LXLIX

Publicação: 2020-08-05 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Não há outra explicação mais plausível para justificar o vigor e a longevidade do PT no nosso cenário político, a não ser o cansaço coletivo do eleitor com as lideranças familiares que ao longo de meio século couberam numa sala de jantar. A não ser a singularidade dos nomes sem raízes na classe média tradicional, saídos das camadas populares do trabalho e que hoje repetem o velho populismo, agora de esquerda, na cansada mesmice que combateram durante décadas. 

Sequer mudaram os artifícios de manutenção dos mesmos nomes no poder, daí o modelo de consagração que teve a partir das raízes autênticas no movimento sindical, caindo, depois, no velho ramerrão dos mesmos chefes para os mesmos chefiados. Mas, é preciso o discernimento de não negar que o PT do Rio Grande do Norte é o resultado da falência das nossas elites a partir de um pecado: a falta de renovação fez nascer no eleitor o desejo de mudança a qualquer preço. 

Livre de escândalos e suspeições, nem por isso o governo petista venceu a faixa de teste para se saber se terá a força de um instante fundador de um novo modelo ou se cumpre apenas o papel de transição para um retorno ao passado, se seu legado for a decepção. É cedo para avaliar que tipo de efeito o governo produzirá ao longo dos seus quatro anos. Mas, ao final, seu teste será a reeleição ou não, quando o eleitor vai aprovar ou desaprovar o estilo petista de governar.

Ninguém pode afirmar que a trajetória política da governadora Fátima Bezerra sofreu o desgaste de uma só derrota. E mesmo a derrota do ex-deputado Fernando Mineiro, a rigor, se deu por impedimento legal na contagem de votos da aliança. Mas, ainda assim, também nunca foram testados em cargos executivos. Sempre com mandatos legislativos, livres-atiradores sem ônus, atirando contra todos os governos as pedras da crítica sem sofrer qualquer risco de um fracasso.

A experiência mostra que a governadora parece ter vivido a parte mais tortuosa do seu governo de quatro anos, principalmente diante de uma peste que roubou dos governantes a força e o controle dos seus efeitos tão devastadores. Mas, o que resta, não será de caminhos tão planos e tão calmos. São dois anos, entre uma eleição e outra, tangidos pela turbulência da conquista do poder em todos os níveis. Tempo de ondas agitadas que exigem dos navegante a ciência do mar.

Dentro de dois anos, terminado o período de governo, os chefes, hoje donos do PT, serão julgados nas mesmas urnas dais quais saíram vitoriosos. É bom que não tenham esquecido a força do significado, mas não é inútil lembrar: a sociedade, feita de petistas e não petistas, fez sua parte e colocou o PT no poder. E julgará se o partido honrou a maior credencial de um povo - escolher quem vai governar a terra e a gente de um lugar. Ao invés de uma mesmice apenas longeva.

ALERTA - Ninguém aposte que é absoluta a harmonia nas relações do prefeito Álvaro Dias com o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves. Apesar da advogada Aila Ramalho já citada para ser a vice.

SINAIS - Há quem ainda ouça o balbucio discreto de queixas e queixumes por entre as vozes dos dois. É tanto que até agora Carlos Eduardo não confirmou oficialmente seu apoio a Álvaro. 

MELHOR - Para uma fonte do melhor trânsito pessoal junto ao prefeito Álvaro Dias, a escolha de Jean-Paul Prates era a opção desejada para enfrentar nas urnas. Mesmo com apoio do governo.

MAIS - Natália sairia em busca do voto com o protagonismo de vitoriosa e, de certa forma, um símbolo feminino do novo testado em Natal. Jean-Paul não é o novo, nem tem tradição na cidade. 

ALIÁS - O PT derrotou o médico Alexandre Motta, aquele que foi votado em Natal e quis aquele nunca recebeu um voto natalense. Mas, tem a boa qualidade de não ameaçar o poder dos cardeais.  

DESAFIO - Em política, toda candidatura é sempre uma construção possível mas, no caso, não tem mais a vantagem de antes, quando precisava apenas da boa unção da estrela vermelha do PT. 

GRIFE - Pousou nesta tela a imagem de Toinho Silveira como candidato a vereador em Natal: vestindo um blazer azul-celeste, gravata borboleta e um slogan: “A política precisa de educação”.     

AVISO - Este ‘Diário da Quarentena’ chega amanhã, quinta, a uma centena e fecha a numeração. Do contrário, o risco seria do colunista não ter mais no próprio juízo tantos algarismos romanos.  

CARDEAIS - Natalia Bonavides já foi longe demais. Esta é a conclusão de quem conhece as manhas da política e, por conhecê-las, logo percebeu o gesto de compreensão do colégio dos cardeais do PT chefiados pela governadora Fátima Bezerra e seu secretário Fernando Mineiro. 

ALIÁS - A deputada Natalia Bonavides também demonstrou querer paz e não ameaçar aquela que é a maior longevidade que hoje atua no cenário político. Daí a união que nunca foi fácil dos grupos de Fátima Bezerra e Fernando Mineiro. Jean-Paul Prates disputa sem ameaçar os chefes.   

BRILHO - Um potiguar entre os oito craques da Webnar “A Ciência que Inspira’:  professor e doutor Hamilton Varela, na Universidade de São Paulo. Vai falar sobre as “Boas Práticas em Pesquisa”, dia 4 de setembro, 17h, via Google Meeting. Acesso pelo link.


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