Diário da quarentena - LXLVI

Publicação: 2020-08-01 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação


Ninguém é tão esquecido, Senhor Redator, que não guarde em algum lugar da memória, quando não na própria alma, velhas lembranças como se fossem eternas. Ficam ali, como frutos maduros, exalando o perfume da saudade ou cheirando a naftalina. Uma pequena humanidade de personagens que jamais serão lembrados, abandonados que vivem no território íntimo, sem dor e sem medo, anônimos de um mundo em ruínas que um dia também errou de destino e se perdeu. 

No entanto, eles vivem. E tanto vivem que ao concluir a seleção de autores e textos para a ‘Antologia do Folclore Brasileiro’, lançada originalmente em um volume, Editora Martins, SP, 1944, hoje com várias edições em dois volumes, Câmara Cascudo foi buscar nos anônimos a eternidade dos que jamais serão lembrados nem irão ler a homenagem. Personagens que viveram feito sombras anônimas, sem glória, vagando no cinzento triste do sertão mágico e monumental.

E escreveu assim, com a tinta do lirismo mais humano e transcendente, antes de todos os nomes célebres que reuniu no livro: “Aos cantadores e violeiros analfabetos e geniais, às velhas amas contadeiras de estórias maravilhosas, fontes perpétuas da literatura oral do Brasil. Ofereço, dedico e consagro este livro que jamais irão ler...”. Antes, preferiu celebrar a nobreza daqueles homens e mulheres sem nome que deixaram suas vozes ecoando nos lajedos do sertão esquecido. 

Por esses dias, andei mexendo nos guardados da alma e acabei lembrando Seu Tibúrcio. Era vigia de um casarão meio abandonado, ali na Praça André de Albuquerque. Vizinho de uma casa que abrigava a Corregedoria Geral do Poder Judiciário, e onde este datilógrafo assassinava as tardes em sisudos ofícios e atas de correição. Se as horas eram calmas, andava por ali, catando conversa, às vezes à sombra de um sapotizeiro, vendo Seu Tibúrcio exercer o ofício de sapateiro. 

Era um tipo meio calado, como se uma tristeza soprasse as brasas para manter viva sua solidão. Viúvo, tinha saudade do único filho que foi morar em São Paulo. Vivia como pedreiro e só dava notícia de ano em ano. Sentia falta de João, e sonhava com sua visita para conhecer os dois netos - “um menino e uma mocinha” - mas João prometia, prometia, e nunca chegava. E Seu Tibúrcio já se sentia velho naquele fundo de quintal vigiando aquele casarão de almas penadas. 

No quarteirão, a vida era pobre de novidades. Os ônibus subiam da Ribeira e já chegavam cansados. Demoravam um pouco, as pessoas entravam e saíam, e já partiam, resfolegando, até desaparecerem descendo a ladeira da Padre Pinto. Uma tarde, início do expediente, uma viatura policial parou naquele casarão. Piscava suas luzes vermelhas e nervosas. Seu Tibúrcio foi encontrado morto, pendurado numa corda. Tenho pra mim, até hoje, que ele morreu de solidão.   

SONHO - O vereador Paulinho Freire ainda chegou a indicar o nome da vereadora Nina Souza para vice de Álvaro Dias. Mas, estava acertado, antes, que a indicação seria de Carlos Eduardo. 

PISTA - A solução coloca Álvaro Dias, Carlos Eduardo e Rogério Marinho na cabeça da pista para o Governo e o Senado em 2022. E quem sobrar concorre a uma cadeira de deputado federal.

TEMPO - O adiamento do prazo-limite até trinta de setembro, para a aprovação da reforma da previdência, levará o debate, inevitavelmente, de volta às sessões presenciais em lutas ao vivo.

TESTE - O tempo será um duro teste de resistência para o governo e a oposição. O governo para atrair votos; a oposição para não perdê-los e consolidar a sua posição para corrigir as distorções. 

JOGO - O deputado Sandro Pimentel vota pelo debate presencial da reforma, defende mudanças para corrigir suas distorções, mas não está em obstrução. Quem for bom de mistério que traduza.

JUÍZES - A trava que o Congresso e o Supremo querem impor não pode gerar seus efeitos de forma retroativa, mas para quem se aposentar e desejar ser candidato a partir da vigência da lei. 

ONDA - É real o risco de nova onda de contaminação se falhar o controle no retorno às atividades de bares, restaurantes, shoppings, supermercados e escolas. Só com o apoio de todos será evitada.

DJALMA - Diógenes da Cunha Lima já recebeu as novas edições de ‘O Homem que Pintava Cavalos Azuis’ e o ‘Perfil Parlamentar’. Vida e ideias de Djalma Marinho. Edições da Câmara.

NOME - A advogada Aila Ramalho será a vice de Álvaro Dias. Se este renunciar para disputar o governo, ela será prefeita. Se o candidato do grupo ao governo for o ex-prefeito Carlos Eduardo irá à luta com a prefeitura na mão. Vai depender do protagonismo de cada um. E só o tempo dirá.

HORROR - Sai no Brasil a tradução de ‘Medicina Macabra’, a história dos mistérios médicos e relatos sangrentos, de Thomas Morris, com ‘os casos arrepiantes, constrangedores e sangrentos da medicina através dos séculos’. E avisa logo na sua capa: ‘Para pessoas de estômagos fortes’. 

DESAFIO - O governo Bolsonaro não tem alternativa a não ser criar e implantar um programa forte de distribuição de renda capaz de substituir a força do Bolsa-Família. Votos nascidos de ajuda são como aves de arribação: “Se faz bom tempo, elas chegam; se faz mau tempo, elas vão”.


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