Diário da Quarentena - LXLVII

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
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Todo mundo, em algum momento, cedo ou tarde dos dias, teve ou tem a mesma vidinha do poema ‘Noturno Resumido’, de Murilo Mendes, vivendo aqueles versos melancólicos, do sono atravessado na cama que comprou a prestação. Ou, uma tristeza qualquer, mesmo calma, como ainda no poema, uma ‘vizinha sestrosa da janela em frente’ que ‘tem na vida um camarada / que se atirou do quinto andar’. Ora, ora, tristeza é tristeza, de um jeito ou de outro. Tanto faz. 

Minhas vidinhas foram várias, vividas de casa em casa, todas alugadas, e emprestando uma riqueza que só descobri muitos anos depois. Não teria colecionado ruas e vizinhos se não fosse a pobreza mansa que fazia a família andar com seus poucos móveis num caminhão de mudança. A vida exposta, é verdade, mas em compensação sem segredos a negar e vergonhas a esconder. A vida como era para ser - com seus quintais, onde minha mãe plantava esperança.

Com o tempo, as tristezas, como eram poucas e fracas, foram murchando e renascendo a vida nas casinhas que íamos morando. E, à sombra daquelas mangueiras generosas como tias velhas, os frutos maduros da memória mais distante. Casa própria, como se dizia, só hoje vejo, tem essa coisa de não se sair mais nunca do lugar. E cada casa, se não é difícil compreender, tem seu jeito de ser, os pequenos segredos, sem os quais a vida seria muito triste e sem graça.

Na Pinto Martins, bem lá embaixo da ladeira, olhando do alto um pedaço de mar, vivi os primeiros anos em Natal. O Alto do Juruá era como um enclave, quase aldeia, de casinhas que se acocoravam nas suas ladeiras humildes, e assim ligavam, como cobras, suas pequenas ruas num traçado de caminhos rendados. Como até hoje. A capela, agora Igreja do Padre João Maria, nascia, mas ainda sem torre para o céu e sem sino tocando as trindades do anoitecer.

Meu vizinho do lado era um ex-ferroviário que ouvia ‘Jerônimo, o herói do sertão’. Vinham de lá e caíam nos meus ouvidos os acordes iniciais da trilha sonora. Depois, chegavam os versos lendários das suas aventuras dos que um dia passaram pelo sertão e ouviram sua história. Sempre. E a propaganda até hoje zunindo na memória afetiva: ‘Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal!’. E a voz cavernosa que dizia, solene: ‘Original de Moisés Weltman’. 

Nossa casa ficava mais alta e era possível ver seu terraço pela nesga aberta entre o muro e o beiral das telhas. Aos domingos, talvez para acalmar a solidão da sua dor, guardada, quem sabe, a sete chaves, olhava longamente o mar e tomava sua cerveja. Uma hora, de tanto olhar, saía e logo voltava lá de dentro com seu saxofone de um dourado já azinhavrado. E derramava no silêncio da tarde que apenas nascia canções muito tristes, como se fossem mágoas de amor.

PALCO

NOVO - O silêncio do senador Jean-Paul Prates, apontado opção para disputar a Prefeitura de Natal, é de quem cala e consente. Seria o símbolo ‘novo’ na concepção do receituário petista.

TESE - Na visão de alguns setores do PT, há um vazio no eleitorado natalense e uma marca nova pode despertar esse voto silencioso. Resta saber o que o PT entende como sendo o novo.

TROCO - A retirada da PEC das emendas, assegura a esta coluna um deputado de oposição, foi vingança do governo. Se foi, não pode voltar sem correr o risco de parecer uma chantagem.

SERÁ? - Fonte ligada ao staff íntimo do governo advertiu, numa linha de e-mail, com um aviso curto assim: ‘Não aposte que é impossível pagar pelo menos uma das duas folhas em atraso’. 
CPMF - Como ninguém sabe o que é ‘neoliberalismo’, é natural que faça aquilo que os liberais autênticos jamais fariam que é criar e aumentar imposto, numa economia saturada de tributos.

ZERO - O RN ficou de fora da relação de projetos culturais a serem financiados pela Petrobrás e tem dois ministros de estado no Governo Bolsonaro. Nosso desprezo pela cultura é histórico.

VÉU - De um deputado estadual com anos de passos nos corredores lustrosos da Assembleia ao ouvir que o presidente da casa só tem hoje o apoio de metade dos 24 deputados: “Só pantim”.

LUTA - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ouvindo um ex-petista encher o PT de defeitos: “O ex-petista é como o ex-comunista: passa a vida tentando apagar o passado”.

CAMARIM

BRILHO – A série de treze episódios da Amazon com base na ‘História da Alimentação no Brasil’, de Câmara Cascudo, ganhou uma página da revista ‘Veja-saúde’, nas bancas. Revela Cascudo como ‘o desbravador dos pratos’. Com destaque para a mandioca, o milho e a banana.

BANDIDO - Quem desejar conhecer, sem sair da poltrona, a vida de João de Deus, o médium com alma de bandido que usou a boa-fé do espiritismo, a livraria do Campus, na UFRN, já tem à venda ‘A Casa’, de Chico Felitti. É a história dessa seita agora já desmascarada e condenada.

ALIÁS - Por falar em bandido: quando é que a Assembleia Legislativa vai cassar o título de Cidadão Norte-Rio-Grandense concedido ao médico Roger Abdelmassih, o monstro que feriu nas mulheres o sublime desejo da maternidade? Alguém, neste RN, quer ser seu conterrâneo?