Diário da Quarentena - LXLVIII

Publicação: 2020-08-04 00:00:00
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Quem for justo na avaliação do Governo Fátima Bezerra, sem as deformações naturais do sectarismo, vai constatar que o Estado foi até ontem governado pelo PT, sem petismos. A prova do estilo foram suas eleições à Câmara Federal, Senado e, por fim, a chegada ao governo, posto mais elevado da vida política estadual. Auxiliada pelo desejo de renovação do eleitor norte-rio-grandense, depois de décadas de gestões refogadas nos velhos troncos familiares. 

Acresça-se a isto tudo o quadro de estagnação deixado por esses aglomerados de duas ou três famílias e seus nomes. Uma exaustão que ficou demonstrada nas urnas de 2020, quando o voto mandou para casa os principais nomes da cena política que perduravam desde os anos sessenta e, de certa forma, continuaram na redemocratização. A candidata vitoriosa não ergueu muros e buscou dialogar com todos os segmentos e sem as idiossincrasias que muitos prenunciavam.

Mesmo no primeiro ano, e apesar de uma equipe com o rosto do PT, o que não se pode contestar a legitimidade, a governadora soube posicionar-se como representante que, se não era de todos, manteve a porta do seu gabinete aberta ao diálogo a todos os setores, ao mesmo tempo em que tentava administrar, sem solavancos, a herança medonha de quatro folhas de pessoal atrasadas, serviços essenciais quase que sucateados, e fornecedores acumulando suas dívidas.

A governadora apertou o cinto da despesa, manteve num padrão possível as áreas da saúde, educação e segurança, ainda que deficitárias muitas vezes; pagou duas das quatro folhas e quitou, na medida do orçamentariamente possível, aos fornecedores mais urgentes. E cuidou de manter um bom espaço na mesa de negociação com o Legislativo, na medida em que obteve uma cômoda aliança com a presidência da casa e com uma bancada petista longe de ter maioria.

Tudo parecia cumprir um modelo de sobrevivência, quando veio a estranha decisão dos governos estaduais de fazerem a reforma previdenciária, apoiados pela esfera privada. Mas, se a vitória das reformas trabalhista e previdenciária, se teve efeitos amargos para o trabalhador, gerou a vantagem de tudo cair na conta do Planalto. Como os governadores preferiram não ter o guarda-chuva federal, assumiram suas reformas a ponto de fazê-las com suas próprias mãos.  

Com pesadas despesas - uma folha de pessoal inchada - a governadora deixou que os grandes salários, donos de orçamentos gordos, via duodécimos e de suas leis estaduais próprias, impusessem a manutenção dos ganhos, até com reajuste da inflação nos últimos quatro anos. Sem pactuar o sacrifício com os outros poderes, justo os que são mais fortes, e desprezando a própria história para agora pagar o elevado preço de ter sido injusta contra os fracos. Uma pena.  

DIGITAL - Anotem: se o discurso nacional define a retórica partidária e o seu posicionamento de combate, PSDB e PDT são hoje partidos de oposição declarada ao governo Jair Bolsonaro.

ENTÃO - Neste caso, a chapa Álvaro Dias e Aila Ramalho, esta filha do ex-governador Cortez Pereira, disputará com uma chapa também oposicionistas, o PT da governadora Fátima Bezerra. 

SOTAQUE - Os grupos da governadora Fátima Bezerra e do seu secretário Fernando Mineiro derrotaram o grupo da deputada Natália Bonavides. Deu o franco-brasileiro Jean-Paul Prates.    

REFORMA - O novo disparo do calendário de discussão da reforma previdenciária depende da data de retorno do Legislativo às sessões presencias. Tudo o que os governistas não queriam.

ÁUSTRIA - Será em setembro o ‘Festival de Cultura Brasil-Áustria’, mas com participações virtuais. Do Brasil, participam Diógenes da Cunha Lima e Marco Lucchesi, presidente da ABL.

URGENTE - O povo de Macau, no extremo do setentrião, na altura estelar da Constelação da Ursa Menor, espera que o governo cumpra o prometido: instale 15 novos leitos, 5 deles de UTI.  

MODELO - Na Caixa Econômica é assim: quando um caixa sai na sua hora de almoço, é justo, não há outro para ocupar o lugar. O BB e a CEF cavam suas privatizações. Viraram repartições.   

COVID - Ainda bem que os imortais não caíram no rito honorífico da imortalidade e cumprem à risca as precauções dos mortais. Só vão reabrir o austero silogeu da Rua Mipibu em outubro.   

BRILHO - Embora amplamente noticiado, quando a autora esteve em Natal - reside nos EUA- no início do ano (ela tem raízes no RN), e adiou o lançamento no Instituto Histórico em razão da Pandemia, Natal ainda não sabe do livro da jornalista e pesquisadora Valdívia Beauchamps. 

JABUTI - Lançado em português, francês e inglês, na França e Estados Unidos, onde é professora, ‘Parnamirim - Base Norte-Americana nos Trópico”, foi indicado para o Prêmio Jabuti, categoria de ensaio. Na capa, a foto do encontro de Getúlio Vargas e Franklin Roosevelt. 

JUDEUS - Antes, em 216, pela editora Bagaço, de Recife, Beauchamps lançou ‘Stigma, saga por um novo mundo’, estudo sobre a presença holandesa em Pernambuco e do sonho de uma ‘Nova Amsterdã’ em Natal, historiando a perseguição aos Judeus. Agora é torcer pelo Jabuti.  




Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.