Diário da Quarentena - LXVIII

Publicação: 2020-06-30 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


A ingenuidade foi o jeito simples que a vida inventou para revelar o leite da boa-fé. Nas redações dos anos setenta, entre velhas Remingtons barulhentas, era tradição, quando chegava um foca, novato em tudo, mas se imaginando capaz de revolucionar o mundo inteiro, mandar cumprir as pautas mais malucas. E vivia assim até que chegassem outros focas e a gozação se renovasse entre novos risos, como se fosse o trote nos que passavam nas provas do vestibular. 

Comigo não foi diferente. O jornal tinha dois editores - Cassiano Arruda, no turno da tarde; e João Neto (João Felismino da Silva), no turno da noite, este responsável pela edição das matérias principais, em razão da hora de fechamento da primeira página. Cassiano passava os olhos na pauta e fazia sugestões de matérias e reportagens que alimentariam a edição diária e O Poti, aos domingos. Denúncias e assuntos do dia a dia da cidade, apurados ao longo do dia.   

Naquela manhã, sugeriu a Sanderson Negreiros entrevistar o palhaço ‘Carequinha’ que estava em Natal, a convite do Governo Cortez Pereira, para as comemorações do dia da criança. Nada mais natural. Carequinha - George Savalla Gomes (1915-2006) - fazia um grande sucesso, vendendo milhares de discos e shows pelo Brasil. Tudo certo, marcou sua entrevista na sala da presidência da Fundação José Augusto, a sua contratante, e lá foi este foca cumprir sua missão. 

Mas, Cassiano plantou duas perguntas no texto da pauta que se revelariam trágicas: ‘Se o palhaço era ladrão de mulher’; e ‘Se sua alegria era ver o circo pegar fogo’. A nossa conversa correu fácil no começo. Carequinha estava de paletó e gravata, sem sua maquiagem de palhaço, sempre sorridente. Contou como foi o começo da vida no picadeiro dos pobres circos armados nos subúrbios, e a chegada, para ele já gloriosa, ao palco da tevê Tupi, tudo com vaidade natural.

Em certo momento, como o tempo escorria, fiz a primeira pergunta: ‘O palhaço é ladrão de mulher?”. Não demonstrou gostar. Ficou sério, com uma forçada naturalidade. E aproveitou para falar sobre a vida sacrificada do artista de circo. Há os grandes circos, italianos, argentinos e mexicanos, disse, mas também os circos pequenos. Todo mundo, argumentou, tem mulher e filhos, e anda pelo mundo ganhando a vida. Isto não passa de uma brincadeira mentirosa, disse. 

Naquele hora, ainda calma, o repórter não imaginava o efeito da pergunta seguinte que iria interromper, gravemente, a entrevista. Ora, um foca não pode deixar de fazer as perguntas da pauta. Fiz: “É verdade que a alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo?”. Foi como se o sangue de repente substituísse a vermelhidão da maquiagem no seu rosto. Carequinha atirou os olhos na minha direção como se flamejassem, e encerrou a conversa. Foca aprende, mas sofre.

SOMBRAS - A direção da Universidade Potiguar - UnP - deu férias coletivas, fez demissões em alguns cursos, como na odontologia, e suspendeu contratos. Há cúmulos e nimbos sombrios. 

GESTO - A ex-deputada Sandra Rosado distribui máscaras de tecido para instituições sociais de Mossoró. Com um detalhe: as máscaras que ela mesma faz, num belo gesto de solidariedade. 

DETALHE - Sandra cumpre a tradição. Como uma prendada ex-aluna da Escola Doméstica e uma continuadora da dedicação a Mossoró que herda do pai, o velho e combativo Vingt Rosado.

VISÃO - A Espacial Eventos, promotora da Fiart, a maior feira de arte e artesanato do Estado, mostra a boa índole: faz leilão de peças dos artistas para reverter na compra de cestas básicas. 

SACADA - O Colégio CEI-Romualdo convidou a socióloga Lourdes Atié para um ‘webinar’ com os pais dos alunos e a comunidade do Ensino Médio. Será às 19h de hoje, dia 2, quinta. 

PESO - O tema da conversa com a renomada socióloga Lourdes Atié é “O que temos aprendido quando a escola foi para a casa dos alunos”. Com uma mediação da psicóloga Eveline Ribeiro. 

BRILHO - Por falar no CEI-Romualdo, o colégio está na 65ª colocação no ranking do ENEM entre todas as escolas do Brasil. E conquistou o 2º lugar dentre as escolas particulares do RN, 

AINDA - O resultado é muito expressivo para uma escola inclusiva de formação integral com três turmas de pré do Ensino Médio e alunos que demandam várias formas de aprendizagem. 

RETRATO - Se o método comparativo é o que mais persuade em todas as camadas sociais, a pandemia, em magnitude, quebrou dois paradigmas que servem como parâmetros para medir o quando é grave para os ricos e os pobres, sem privilégio fundamental de riqueza e tecnologia. 

PRIMEIRO - O Brasil completa 58 mil vidas arrancadas pela ‘gripezinha’, o mesmo número de soldados mortos durante a Guerra do Vietnã, na qual tombaram cerca de 58 mil soldados norte-americanas. O Brasil, além do efeito do Coronavírus, é vítima do Estilo Jair Bolsonaro. 

SEGUNDO - A pandemia mostrou que a vitória sobre Covid-19 não está no poder econômico e da ciência, mas na boa governança. Os Estados Unidos, o mais rico do mundo e maior poder científico e tecnológico, são os recordistas de morte e infecção. Vítima do Estilo Donald Trump.






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