Diário da Quarentena - LXX

Publicação: 2020-07-02 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Ontem, na flor da madrugada, como dizem os poetas, sob um céu sem nuvens, a noite era de Vênus, a Estrela d’Alva, e brilhava como nunca. Até apurei os olhos para ver se não era, por acaso, um avião. Ali, no seu jeito sensual, sozinha sobre os morros, como a ouvir os galos repetindo o verso de João Cabral de Melo Neto tecendo a manhã. Mesmo que seu brilho não tivesse o mistério de Aldebarã, era como se acordasse velhas canções de amor.

Então fiquei lembrando as linhas de um texto do filósofo Luiz Felipe Pondé naquele seu jeito atrevido e intrigante de olhar a condição humana. Dizia ele, como se distribuísse um discreto encantamento com a vida, que a filosofia sempre teve medo do desejo. É mesmo a bruta flor, como disse Caetano Veloso, esse gênio da raça brasileira, e que o Brasil, sempre pouco atencioso, ainda não se deu conta, perdido entre os soluços e as golfadas nacionalistas. 

Começa, Senhor Redator, por uma verdade mais antiga - cósmica, atávica e ancestral: se o homem é - e com certeza é - um ser cósmico, não adianta fazê-lo sofisticado nos seus hábitos só porque inventou algumas manias que lhe fazem ser um requintado. Ele é o mesmo homem de milhões e milhões de anos. Parte da constelação cósmica e por isso mesmo feito de grandezas e misérias. Bravo e covarde, medíocre e genial na sua tão bela transcendência.

Dizia Pondé, se a memória não trai com desgosto o prazer da leitura, que esse medo vem de longe. Desde a Grécia. Ou desde quando o desejo mostrou sua força incontrolável sobre o trágico, mesmo com laivos religiosos e místicos. E é tão brutal que desordena a vida como se tivesse a força dos deuses. E acrescenta, acordando aquele medo atávico que se tem e dorme em algum lugar da alma, quando avisa que o desejo é feito de paixão e destruição. 

Caetano Veloso vai buscar no desejo essa bruta flor do ‘querer’ e dos ‘quereres’, mas acaba sendo a outra ponta do que suspeita, ardilosamente, o olho de Pondé quando avisa que o desejo vem do outro. Parece simples. Não é. Se está no outro a força do desejo é sinal de que está fora do controle de quem deseja. E Pondé é muito ardiloso justamente ao olhar o desejo com os olhos de Santo Agostinho. Um gosto perigosamente bem perto do pecado.  

Aliás, Santo Agostinho, o teólogo e filósofo, não queria o homem sem desejos, mas com o poder de ordená-los. Sabia que tem o furor de uma fera com fome. Mas, o problema, Senhor Redator, é que o desejo, sob controle, perde a sua força atávica. Não foi à toa que Adão e Eva, na humanidade da fraqueza, cederam à tentação do fruto proibido. É tanto que Pondé avisa: do outro lado do desejo mora a melancolia. E é dela que a carne precisa fugir... 

RAZÃO - A transferência do Cardeal D. Sérgio Rocha para Salvador, teve o sentido sábio da Igreja: para Brasília deve ir D. Walmor Azevedo, grande teólogo hoje em Belo Horizonte. 

SINAL - Se for nomeado para Brasília, como sinalizam as especulações, é sinal de que terá a missão de dialogar com o mundo civil, presidido por Jair Bolsonaro e as forças evangélicas.  

BILHETE - A Agustin Calatayud, jesuíta e vigário honorário da Cidade da Esperança: sua carta é um bálsamo de erudição e saber. Fica comigo, bem guardada no melhor do coração.

ALIÁS - Sua erudição sem pedantismo sabe fazer a leitura das coisas do mundo e da vida. Tem razão: amar a riqueza e conquistá-la não obriga a praticar a ‘teologia da prosperidade’.

BRILHO - Tem agora um potiguar no conselho do Instituto Questão de Ciência (ICQ): é o professor Hamilton Varela. Ele é pós-doctor e titular da USP-São Carlos na área de Química. 

ATUAÇÃO - Por sua posição, Hamilton fará parte do grupo que vai estabelecer o grande diálogo na ciência, a partir do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de S. Paulo.

NATAL - A editora Caravela relança, mais de 50 anos depois, o encarte publicado pela Manchete, sobre Natal, com texto de Cassiano Arruda Câmara e fotos de Sebastião Barbosa.

SOL - Só para lembrar: foi no título do encarte, em policromia, que Cassiano Arruda Câmara acabou criando o slogan ‘Cidade do Sol’ que, até hoje, é a grande marca de venda da cidade. 

ATENÇÃO - Dia 6, segunda, entra no ar o blog www.tipicolocal.com.br, o espaço virtual da jornalista cultural Cinthia Lopes. São 25 anos de experiência na cobertura dos eventos da cultura local, do bar ao mar. Um canal para divulgar os eventos culturais da aldeia de Poti.

RANKING - O Centro Profissional João Faustino, instituição educativa de tempo integral, lidera, em eficiência, o ranking das escolas estaduais. É honrar a história de um dos maiores nomes da educação no Rio Grande do Norte, com uma consagrada atuação em todo Estado. 

LIÇÃO - Do padre João Medeiros Filho, fechando seu artigo nesta TN, com toda sabedoria: “Tem-se a impressão de que desponta um novo farisaísmo. Porém, Cristo já advertia: ‘Cuidado com falsos profetas’. Se Deus é brasileiro, como dizem, conhece bem isto aqui.