Diário da Quarentena - LXXI

Publicação: 2020-07-03 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Nem parece, Senhor Redator, que o presidente Jair Bolsonaro viveu 28 anos, como deputado, nos corredores do Congresso Federal, antes de cruzar a soleira solene do Palácio do Planalto. Ou não aprendeu as leis informais que esfregam os atritos na vida política ou, tanto pior, subestimou a tudo e a todos, para dizer o mínimo. Achou que seria fácil reformar a tradição sem antes, pactuar, como um líder, a convivência republicana. Deu no que deu.  

A política tem todas as virtudes e vícios da vida, tal como ela é. Não se move pela força de princípios rígidos e normas inflexíveis É um jogo que tem um único vencedor se a este interessa vencer: a maioria. Fazer política, numa síntese, é construí-la a favor ou contra a cada circunstância, sempre sobre uma realidade: o instinto de sobrevivência. Uma coisa é exercer o mandato com as convicções pessoais, outra é administrar forças e contradições.

Foi ai, na perda da visão de conjunto, que o fenômeno das urnas perdeu para o chefe. Não estava ali, no Palácio do Planalto, um líder testado no calor da luta, convenhamos, mas o fruto habilidoso de um fenômeno que teve o forte ingrediente do sentimento de exaustão coletiva nascido da Operação Lava Jato a expor os destrambelhos da política subterrânea que a sociedade suspeitava, mas até então não tinha a certeza que a investigação revelaria.

No epicentro do furacão, ainda, o absoluto despreparo da presidente Dilma Rousseff com experiência na guerrilha rural dos tempos da ditadura, mas jejuna na disputa de poder. Se foi fácil ser contra, embora acabasse presa e torturada sem abrir mão das suas convicções, o que foi digno de sua parte, não bastou a unção de Lula e seu magnetismo. Sequer percebeu que se levasse a economia do país ao desastre acenderia a fogueira na qual seria queimada. E foi.

Resultado: caiu. E caiu sob as chamas da revolta de uma classe média sufocada pela insegurança, esteio e lastro das elites quando precisam ir às ruas. Claro, é possível que se não tivesse dado ao PMDB a Câmara e o Senado, talvez o impeachment, mesmo proposto, não tivesse sido aprovado, se a questão era de maioria. E se o PT presidisse a Câmara sem conseguir conter o maremoto das insatisfações, teria evitado? Talvez sim, mas talvez não.  

De tudo, restou um Brasil com presidente, mas sem líder com sensibilidade capaz de articular o grande pacto social. Quanto mais afirma, no seu cercadinho do Alvorada, que é quem manda, mas recua de decisões. Por isso, até agora, cumpre a maldição de ser apenas chefe, quando a grandeza das crises simultâneas exige um líder. E vai indo, sob uma ruidosa e patética ovação dos tolos, enquanto Estado e Nação confrontam numa guerra de vencidos.  

BOMBA - Se a investigação provar que na Lava Jato, de Curitiba, tinha uma ‘Grampolândia’ para gravar ligações de forma clandestina, as denúncias lá nascidas poderão ser anuladas.   

RACISMO - Numa coisa o ex-quase ministro Carlos Decotelli  tem razão: tem muito branco com gambiarras nos currículos. Inclusive, e até, nas universidades federais. E muito engodo.

PRÊMIO - Professor José Pires: ter leitores como você é a única recompensa do colunista, um teimoso que ainda defende este espaço para a pluralidade das ideias e o debate aberto. 

LUZ - O que mais ameaça a democracia não são nem mesmo os sectarismos de um lado e outro. Pior é a intolerância. É sufocar a discussão, esse foco de luz sobre as nuvens sombrias.

ALIÁS - Quem tem medo das ideias, sejam quais forem, sofre como jornalista e como leitor de jornais. O debate não pode ser apócrifo e fechado, a substituir argumentos por desaforos. 

PIOR - Para Elio Gaspari, da Folha, Jair Bolsonaro avacalha a Direita. Elio não conhece a Direita do Rio Grande do Norte. É pior. Festeja nas redes todas as vezes que é avacalhada. 

LUTA - Um movimento de ambientalistas levará às ruas a posição em defesa do futuro da cidade em função de alguns ingredientes da proposta oficial do novo Plano Diretor de Natal.

LEMA - Sob o guarda-chuva do lema ‘Salve Natal’, a ideia é erguer o debate sem deixar a decisão final nas mãos do jogo político da Câmara e Prefeitura. A saída saudável é pactuar.

LUTA - Discreta, a Santa Madre Igreja trava uma luta surda em torno da sucessão do nome que substituirá Dom Giovani Anielo na Nunciatura Apostólica, em Brasília, transferido para representar o Vaticano na Rússia. É da Igreja não abrir suas questões internas e diplomáticas.

NOMES - O nome mais cotado, até agora, é o de Dom Piergiorgio Bertoldi, núncio atual de Moçambique. Não seria do agrado de Dom Giovanni Anielo, recém transferido. Se depender dos cardeais e bispos brasileiros, será Dom Lourenço Baldisseri. Seria o preferido da CNBB. 

AVANÇO -O Vaticano não perde de vista a condição forte de evangélico do presidente Bolsonaro e o fortalecimento que isto pode representar. O Vaticano quer um nome capaz de dialogar diplomaticamente nas duas direções: dos bispos e do Planalto. Sem fechar portas.