Diário da Quarentena - LXXII

Publicação: 2020-07-04 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Há em cada vivente, Senhor Redator, uma alma vadia e angustiada que, se não trai o espírito, tenho pra mim que foge de vez em quando para viver no paraíso mais desejado pela imaginação. Não quero dizer que tenhamos duas almas. Não. Só de vez em quando, se a matéria sente o intenso desejo de ter certeza de que a felicidade anda por algum lugar. Daí o medo, de não tê-la ou de perdê-la, e se ser feliz é a manifestação de algo transcendental na vida humana. 

Tomás de Aquino, santo e doutor da Igreja, não descuidou da felicidade como a fonte de algo divino. Na sua Suma Teológica, chega a afirmar, quando defende o Deus Único, que a felicidade é um desejo natural do homem e que aquilo que o homem deseja, conhece. Ninguém, pois, por decorrência lógica, deseja ter ou conquistar aquilo que não conhece. Não importa que para alguns seja o prazer da riqueza ou a penitência de nada desejar ter. Ser feliz é outra coisa.

A pandemia, ao longo desses seus cem dias mais dolorosos, parece ter fundado na carne humana, quando não na própria alma, uma dúvida transcendental. Talvez a certeza de que nada é tão confiável quanto imaginávamos antes da peste. E o que parece restar no mais fundo das nossas almas é a terrível saudade da felicidade que alguns guardavam na conta bancária e outros na paz do seu barraco. É que somos humanamente iguais quando estamos tristes ou infelizes. 

Daí, Senhor Redator, salvo melhor juízo, essa busca intensa, erguida sobre uma mesma e angustiada indagação que vem de todos e em todas camadas: como seremos depois de passada a pandemia? São reflexões e reflexões em textos de jornais, revistas, televisão, lives e laivos, a partir do mesmo medo de como seremos. Fundou-se uma nova nomenclatura, ‘o novo normal’, como se a normalidade pudesse ser fatiada em gradações - visões, matizes, cheiros, sabores.  

Ninguém desconfia de que o melhor futuro pode ser aquele percebido pelo filósofo Luiz Felipe Pondé, quando escreveu na sua coluna da Folha de S. Paulo: confessa desejar ter de volta o mesmo mundo que deixou antes da peste. Aquele no qual cada um possa viver como vivia antes. Ao lado da família e dos amigos, trabalhando, viajando, indo a seus restaurantes, bares e lugares, como faziam. Sem usar máscara, sem medo da morte, apostando na alegria de viver. 

Essa angústia tem um exemplo de mais de um século, quando passou o efeito da famosa Gripe Espanhola e acabou o horror da Primeira Guerra Mundial. A alegria explodiu nas ruas e no peito de todos no carnaval que foi chamado de triunfante. Aqui, fechado nas paredes deste apartamento, torço para que o mundo não seja feito desse desejado ‘novo normal’. O normal como era antes. Quando Tomás de Aquino, há séculos, já dizia que a felicidade é coisa de Deus.

CERCO - Guarapes, em Macaíba, tem o maior índice de contaminação. Redinha é a segunda maior incidência. São Gonçalo luta. E foi decretado lockdown em Extremoz. Natal está cercada. 

RISCO - É preciso não perder de vista que são bairros e cidades dormitórios nas relações de vizinhança com Natal. Cabe ao governo e Prefeitura monitorarem para evitar uma nova onda. 

RISCO - A Lava Jato vai precisar provar que não camuflou os nomes de autoridades na trama para negar suas prerrogativas de fórum especial e envolvimento secreto com interesses do FBI.

TRAÇO - Vestida da prepotência típica dos justiceiros, driblando juízes e a própria sociedade, a Lava Jato prova sua lisura ou as denúncias colhidas assim poderão ser anuladas pela Justiça. 

COLUNA - Uma hérnia jogou na cama o poeta Diógenes da Cunha Lima. Só a cirurgia, feita ontem, eliminou a dor que lhe atormentava. Dentro de poucos dias retoma o ofício de advogado.

FESTA - Será virtual, com certeza, mas tem festa neste 4 de julho, quando Aníbal Barbalho encaixa no peito 70 anos bem vividos. E vividos para o bem. Ficamos nos devendo um uísque. 

ALDEIA - Natal anda tão fraca como mercado-leitor que revistas semanais da semana passada só chegaram ontem às bancas. Além de alguns títulos que já não circulam mais aqui na cidade.

MEDO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, ouvindo a lamúria de um amigo, vítima da pequenez: “Medíocre tem medo de inteligência. Não quer derrotá-la, quer sufocá-la”. 

REAÇÃO - Cada vez mais a sociedade demonstra ter descoberto toda a força coletiva dos seus conjuntos de classes e categorias. De profissionais de nível superior a motoristas e motoqueiros, agora todos vão às ruas quando resolvem fazer suas reivindicações, antes vistas como excesso. 

LÍDERES - O terceiro milênio, pelo visto, será marcado pela revogação dos chefes, chefinhos e chefetes para que nos lugares sejam colocados líderes. Não há saída nas grandes desigualdades sociais a não ser a construção e gestão dos pactos, únicas armas para evitar convulsões sociais.

TOQUE - Quem tiver isenção vai notar quantos recuos já impostos ao Governo Bolsonaro: medidas provisórias, decretos sem discussão na Câmara e no Senado, e derrotas no Supremo.  Pactuar é a palavra de ordem. Não é mais o “Quem manda sou eu!”.  Sai o chefe e entra o líder.