Diário da Quarentena - LXXIV

Publicação: 2020-07-07 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br


Créditos: Divulgação

Penso sempre, Senhor Redator, que se a herança genética tivesse legado a este cronista o tutano de intelectual, capaz de fazê-lo um pastor de palavras, teria sido linguista e filólogo. Com todo gosto. O pouco saber não deixou, e talvez tenha evitado impropérios ainda piores na luta com a palavra, vã e renhida, como avisou o poeta Carlos Drummond. A vida ficou assim, sem realce, mantida pelo encanto com as coisas simples e numa ingênua vadiagem dos olhos. 

Teria vivido a aventura, por exemplo, de escrever um ensaio sobre o ódio e o amor das palavras, se vejo que amam e odeiam com suas almas. Creio que as palavras têm alma. E nelas nada é por obrigação. O que é desamor numa frase pode ter uma paixão dissimulada na outra, negada no mais puro disfarce. Elas sabem escamotear um desgosto no sentido que encobre a vida real e as suas verdades. O ódio e o amor não precisam ser, necessariamente, declarados.

Aprendi logo cedo, e por isso nunca duvidei, que as palavras guardam em algum lugar do dito e do não dito a mesma força. Nem chegaria, se tanto fosse preciso, às raias eruditas de um William Faulkner, de o ‘Som e a Fúria’, como querem os melhores críticos. Ficaria mesmo na boca do povo que sabe apontar a força do não dito mais universalmente do que qualquer escritor, quando, na frase perfeita, deixou flagrante ao perceber que o silêncio diz tudo. E diz. 

As circunstâncias, se nascidas das intenções, sabem engendrar significados. Uma frase simples, dessas que andam de boca em boca, pode cair nos olhos e ouvidos dos leitores feitas da riqueza polissêmica de seus diversos significados. Nem sempre é preciso ser objetivo e claro para revelar uma realidade. O real aflora por entre a paisagem das palavras ordenadas pelas intenções. No romance, o real pode vir num sopro, sem o qual é impossível a imitação da vida.

É esse toque de magia que o destino negou aos cronistas mundanos. Se encantam - e por vezes encantam - com seus olhos voltados para a vida besta, para usar a expressão de Mário de Andrade, a compensação foi não faltar ao seu estilo banal a graça de ser comum. De perceber e aceitar tudo que não serviu aos grandes banquetes literários. Como bem avisou Rubem Braga, o cronista vive dos restos do banquete intelectual com os pequenos romances, contos e novelas.

Basta, para notar, não ter olhos exigentes. Essas histórias resumidas e sem a nobreza da grande literatura, estão dentro das crônicas. Disfarçadas, dissimuladas, encobertas por camadas de simplicidade. Algumas vezes, e o poeta Manuel Bandeira soube vê-las como ninguém, estão nas notícias de jornal. No ódio de quem mata. Na tristeza que leva alguém a tirar a própria vida. Na notícia banal de quem morreu de amor por não ser amado ou ter medo de viver sem amar.  

TRUQUE - Elio Gaspari, jornalista de verdade, não apenas colunista da Folha de S. Paulo, desmontou a Lava Jato na edição de domingo, o que os juristas já desconfiavam antes.

MONSTRO - O general Golbery do Couto e Silva, seu amigo e de quem Elio herdou o arquivo, confessou ter criado o monstro do SNI. Para Elio, a Lava Jato é pior: pariu o monstro da Justiça. 

FORÇAS - Como é que o plenário da Câmara de Vereadores rejeita elevar de 1,5% para 2% o percentual do orçamento participativo no orçamento geral de Natal? Quem danado vai saber?

HUMOR - Nas redes, sobre Vladimir Putin, imperador russo que passeia em urso domesticado em seu mandonismo absolutista: “Putin: depois de vinte anos, mais dezesseis. Putin que pariu!”.

VAGAS - A Academia Norte-Rio-Grandense de Letras sofreu este ano, no espaço de meses, quatro perdas: Eider Furtado, João Wilson Mendes Melo, Murilo Melo Filho e Paulo Macedo. 

AULAS - A UFRN deve decidir esta semana, em reunião do Conselho de Ensino e Pesquisa, a data-limite do primeiro e segundo semestres letivos de 2020. E o retorno das aulas presenciais.

VALEU - A experiência com as aulas remotas fará parte da contabilidade acadêmica e a critério de cada professor na avaliação da participação dos seus alunos. O ano letivo não fica perdido.

PAJEM - De Nino, ao ouvir a crítica ácida aos eternos assessores de poderosos, pulando de um em um: “Quem faz assim não é o assessor. É o pajem. Ele sabe quem será o poderoso da vez”. 

LUTA - A Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), por decisão administrativa, mudou as regras da licitação do Aeroporto Aluízio Alves, mas as mudanças não revogam a luta jurídica. Razão: é constitucional o dever da União de indenizar proprietários, hoje em R$ 30 milhões. 

CORRIDA - A Cooperativa Cultural da UFRN abriu, das 9 às 15h. Ótima notícia. Mas, com o tempo de quinze minutos para cada cliente procurar, consultar e pagar o livro que deseja. Este quase setentão, não pode atender às exigências por falta de agilidade física. E que dirá mental. 

RETRATO - A triste história da morte de Paulo Macedo acabou sendo o epílogo fiel do mesmo homem que foi a vida inteira. Inventou e reinventou a vida, a vencê-la na humildade de ter sido sempre o mesmo, sem nunca destruir ninguém. Ser mestre do silêncio foi a sua maior fortuna.