Diário da Quarentena - LXXIX

Publicação: 2020-07-12 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

O enigmático leitor JLM, no mais das vezes, é certeiro e instigante, mas desta vez foi injusto com o cronista. Injusto, aliás, não seria o mais adequado. As ideias, quando livres e livremente expostas, e sem má fé, não são justas ou injustas. Opinam. Nunca disse que o jet é inútil. Primeiro, por um princípio: tudo se presta a alguma coisa. Depois, a humildade manda reconhecer que o glamour social é um rico laboratório para se observar a arte da dissimulação. 

Nesse sentido, é real que o jet, filho decaído das velhas nobrezas erguidas sob o palor e o calor das riquezas, tenha um mérito na economia das trocas simbólicas: o de descobrir que é inconveniente ser verdadeiro em tudo. Cansa, quando não deforma-se em um tipo insuportável e não recomendável na vida em sociedade. A principal qualidade dos cavalheiros e damas nos torneios sociais é a simpatia. E ninguém consegue ser bem simpático sendo muito verdadeiro. 

A genialidade de Eça de Queiroz não está no gesto de apontar toda a beleza da nudez, mas de recomendá-la ser vista através de um manto diáfano feito de fantasia. Se a realidade do autor de ‘A Cidade e as Serras’ tivesse sido a nudez absoluta, nua e crua, provavelmente teria passado sem realce para os olhos humanos. Ele é genialmente ambíguo quando veste a nudez sem roubar a transparência, e diz: ‘Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia”. 

Claro que o jet, tal como o temos, não chega ao nível eciano da abstração. Seria exigir muito, se não tem raízes na velha e autêntica fidalguia, mas no chão semovente e prepotente da abastança, natural ou adquirida, por dote, herança de sangue, cama e mesa. Nem assim pode ser visto como um herdeiro bastardo. Geralmente são habilidosos e embranquecem o espírito no perfume translúcido da literatice. Não é literatura, mas o perfeito simulacro de um falso brilho. 

É da sua natureza saber financiar a própria glória, afinal não inventou o mercado persa que tudo vende a quem deseja comprar. São exímios malabaristas do silêncio e nele escondem o que não seriam capazes de mostrar, jejunos intelectuais que sabem ser. E nada é mais fiel à tintura do falso do que o silêncio que parece enobrecê-los como se fosse reflexão. E o jet nesse sentido é perfeito, embora nada revele como grande saber, justo por ser incapaz de perscrutar.

Por tudo e por mais que o corrido espaço de uma crônica não deixa discutir, não diria, pois, que o jet é inútil. Há quem tenha inveja da desenvoltura com que transitam e traficam a dissimulação. Há deles tão adestrados que até parecem os velhos e fidalgos espadachins dos clássicos romances de capa e espada. As damas? Ah, as damas! São impagáveis. Espetam aqueles que sabem que estão vendo tudo, mas simulam não perceber. São todas maravilhosas.

PALCO

SURDA -  São silenciosos, mas tramam, os sonhos para a eleição da próxima vaga no Tribunal de Justiça com a aposentadoria da desembargadora Judite Nunes, em 2021. E que será do MP.

NOME - Nas conversas, três nomes são mais citados hoje: Manoel Onofre Neto, Eudo Leite e Fernando Vasconcelos. Não significa, necessariamente, que os mais citados serão mais votados. 

ALIÁS - O torneio da lista tríplice será da porta pra dentro do MP. A prática mostra que não deve ser quebrada a boa tradição: a governadora Fátima Bezerra nomeará o nome mais votado.

CALMA - Acredite: até hoje, por incrível que pareça, ninguém manifestou-se candidato à vaga de Paulo Macedo na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Estão respeitando os sete dias.

DESAFIO - Não pense a governadora Fátima Bezerra que será fácil a reconstrução de Natal como destino turístico. Terá que concorrer com Fortaleza, João Pessoa e Recife. Não é pouco.

ALIÁS - Depois de ficar de fora do plano de parceria público-privada para a restauração dos monumentos históricos, não consta no programa de melhoria de parques naturais e de reservas. 

COR - Para quem presta atenção aos ditames do requintado glamour daquela velha e charmosa Paris: a cor deste verão será Bordeaux. E tinto de sangue, como na canção de Chico Buarque. 

OURO - De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, alisando com os olhos o destino humano: ‘A mais pura consciência é a dos que sabem a quem irão deixar a saudade e o alívio’.  

CAMARIM

SAFRA - Nosso mundo intelectual, feito também de muitas coisas boas, viverá uma temporada de bons lançamentos literários quando a pós-pandemia chegar. O novo livro de Ivan Maciel, as cartas de Oswaldo Lamartine para Hélio Galvão, e o romance do ex-governador Geraldo Melo.

MAIS - Natal vai conhecer a história da Ponte de Igapó, do engenheiro e professor Manuel Negreiros; a biografia verdadeira de Jesuíno Brilhante, de Honório Medeiros; a vida heroica e trepidante de Jean Mermoz, de Roberto da Silva; e a Memória Viva de dez advogados do RN.

AINDA - Saídos dos prelos, ainda, a biografia ilustrada de Antônio de Souza, o ficcionista que foi governador e escrevia com pseudônimo de Policarpo Feitosa, de Manoel Onofre; e espera a peste passar um novo livro - ‘Cinquenta anos de Reportagem’ - de Cassiano Arruda Câmara.