Diário da Quarentena - LXXV

Publicação: 2020-07-08 00:00:00
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Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Créditos: Divulgação


Fosse apenas por desconfiança instintiva deste cronista, o fato certamente não teria a menor importância. Mas são outros, e bem consagrados, os que advertem para a desigualdade que pode ameaçar a segurança social e, por decorrência, o clima favorável a investimentos no Brasil. O mundo capitalista sabe o que é o liberalismo econômico, e pratica, já o neoliberalismo do ministro Paulo Guedes é algo que parece embaçar o significado ao invés de ter boa clareza. 

E essa ameaça pode se revelar, por inteiro, no pós-Covid-19, se o país não chegar com um programa de investimentos para dentro e para fora de suas fronteiras. Aqui, com obras de infraestrutura; lá, com um forte programa de privatização voltado para atrair investidores do mercado internacional, além de incentivos a quem queira aplicar no Brasil suas reservas. Sem isto, não há como gerar emprego e renda, inconquistáveis por um simples passe de mágica.

A nós outros, os leigos na ciência da economia, tem sido muito difícil acreditar que é possível entregar a questão social ao jogo sujo das polícias e milícias, e ao governo a gestão da riqueza para os que já são ricos ou remediados. O capital - e quanto mais internacional mais exigente na decisão - não investe em países submetidos a uma permanente tensão social, como vive o Brasil. Ninguém tem modelo para reprimir as multidões quando elas ocupam as ruas. 

A rigor, dosando o olhar de um certo bom humor, o Brasil redemocratizado não mudou muito a não ser do ponto de vista das liberdades. Ainda giramos em torno de dois heróis como modelos fundadores, digamos, do homem brasileiro: Jeca Tatu e Macunaíma. Jeca, o herói criado por Monteiro Lobado, um intelectual e ao mesmo tempo empreendedor; e, do outro lado, Macunaíma, de Mário de Andrade, um culto bem nascido e professor da classe média paulista. 

Quem tiver olhos apurados, livres de preconceitos, vai notar que são heróis bastardos e sem espaço social definido. Um, caipira desnutrido; o outro, carnavalizado, síntese perfeita da galhofa. Nenhum dos dois com capacidade mínima de luta e de transformação. Jeca, herói depauperado dos fracos de espírito e de ânimo; Macunaíma, sem caráter, lépido nas carreiras pelo Brasil, um denunciador da preguiça como misto de lassidão e protesto contra opressores. 

Nossos heróis de verdade morreram. Uns no Império, outros na República, quando não de overdose, para lembrar Cazuza, saudoso da juventude cheia dos seus heróis nos palcos. Ou rompemos o cerco da desigualdade que logo se exacerbará depois do vírus pestilento, ou será ainda maior a peste das insatisfações sociais. A menos que se cometa o erro histórico de jogar a luta social apenas como um conflito meramente ideológico. O que, aliás, temos feito até hoje.

SAÍDA - Os editais das obras de reforma das praças do centro histórico da cidade; da Zona Norte, com o Pro-Transporte e da Av. Pudente de Morais, pautam a ação do governo em 2021.

ALIÁS - O fato demonstra que o governo, um ano e meio depois, já parece ter conseguido destravar a segunda etapa dos recursos do Banco Mundial. Garantia de sua presença em Natal. 

DESAFIO - Falta agora saber como anda a liberação da grana para as obras de restauração e adaptação da Fortaleza dos Reis Magos, o mais importante patrimônio histórico desta cidade.

SUCESSO - Sidarta Ribeiro na pré-venda da Companhia das Letras com a segunda edição de “Limiar: ciência e vida”. Chega às livrarias dia 20 de agosto e já tem valor fixado: R$ 34,90.

CASCUDO - Já estão no ar - acesso é virtual - na Amazon, os treze episódios da ‘História da Alimentação’, de Câmara Cascudo. Variam de 25 a 28m. Desde a mandioca, rainha do Brasil.

AVISO - A Objetiva lança para leitura virtual ‘Luís Fernando Veríssimo Antológico’, seleção de crônicas que marcam seu meio século de cronista. E com alguns textos inéditos em livros. 

LUTA - Leila Cunha Lima já reuniu 100 fotógrafos no ‘Olhar Potiguar’, registrando as mais belas visões do Rio Grande do Norte. E tudo em favor das pessoas e das instituições sociais.

PESTE - De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando do alto a solidão que se derrama nos quintais velhos e ainda verdes do Tirol: “A fome de desejo deixa a carne triste”.

PAUTA - As esferas pública e privada, formadoras da sociedade, precisam conduzir, com uma sensibilidade cuidadosa, o retorno à vida normal. As pesquisas mostram que a população defende o confinamento sob controle diante da estatística crescente de contaminação e morte.  

CONTA - Os bolsonaristas foram eficientes vendendo ao Brasil o déficit da Previdência, mas só agora vem um dado a mais para compreender a realidade com isenção: as Forças Armadas representam 17 vezes o valor do que a Previdência paga aos segurados. Ninguém nunca disse. 

ALIÁS - Não foi por gesto do ministro Paulo Guedes que a arrecadação do governo em junho foi melhor do que em junho do ano passado. O auxílio-emergência, criado pelo Congresso e pago pelo governo, injetou dinheiro, gerou compra e venda e usinou impostos. Não há milagre.